Já aqui o disse e repito: é impressionante o que por esse Portugal fora se vai fazendo e editando, em matéria histórico-cultural, e que nós, ignaros da capital, não conhecemos, ou conhecemos mal. Seria por isso fundamental que existisse nas principais cidades universitárias, do Norte a Sul do país, algumas livrarias, entrepostos ou lugares de exposição e de intercâmbio que, subsidiados até pelas autarquias, permitissem uma maior divulgação de coisas que a todos interessam, porque dizem respeito a uma mesma e a uma só terra, a nossa. Se ao menos houvesse um site na Internet, sob os auspícios do Ministério da Cultura, que compilasse o muito e tanto que vai sendo publicado sob patrocínio de edilidades, universidades, colectividades, seria um avanço imenso. Fica o pedido..Vem isto a propósito, como é evidente, do recentíssimo n.º 54 dos Cadernos Culturais, respeitante ao mês de Outubro de 2022, surgido a lume graças ao heróico esforço da Associação Independente Para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça, a AIDIA, com o apoio da Câmara Municipal de Alpiarça, da Junta de Freguesia de Alpiarça, da Confraria Ibérica do Tejo e, neste caso, por razões que iremos ver, da ARPICA, acrónimo da Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos do Concelho de Alpiarça. Dizia há anos um amigo meu que "não há instituições, há pessoas", com isso querendo significar que é o carácter e a capacidade das gentes, dos homens e das mulheres de carne e osso, que fazem as organizações e lhes dão alma e prestígio, pois que uma pessoa colectiva, em si mesma, é coisa que não existe, não passa de uma abstracção ou ficção jurídica. São as pessoas, pois, que fazem toda a diferença, algo que, no caso vertente, tem um nome e tem um rosto, João Monteiro Serrano, extraordinário dinamizador do movimento associativo alpiarcense, estrénuo defensor da cultura avieira e da sua memória, que ainda não são, mas deveriam ser asap, património imaterial da Humanidade..É da autoria de João Monteiro Serrano o já citado n.º 54 dos Cadernos Culturais, com o título "Um Pioneiro do Ciclismo - Memórias de António Luís". Falamos, claro está, do lendário ciclista do Águias, o qual, entre outras proezas, venceu em 1950 a Primeira Pedalada, concluída no Estádio José de Alvalade, em Lisboa, prova que se revestiria de capital importância para o ciclismo alpiarcense, já que nela, além de António Luís no lugar cimeiro, vários outros nomes se ergueram: José Domingos ficou em 5.º, Aníbal Costa foi 11.º, Josué Pangaia terminou na 13.ª posição, num total, lembre-se, de 186 concorrentes. Animado pelo feito histórico, o presidente do clube, José Catarino Duarte, sonhou com uma grande equipa ciclista, para a qual foram convidados, além do incontornável - e literalmente inultrapassável - António Luís, os corredores José Miranda do Céu, ou "Zé Esturrado", Francisco Rodrigues, José Malaquias Caetano ("Zé Camões"), Júlio Pereira, conhecido por "Júlio Espanhol", e Raul Pardal, o "Pernica"..Há dias, no passado 6 de Outubro, António Luís completou 95 anos e o n.º 54 dos Cadernos Culturais é uma compilação das suas muitas memórias, recolhidas através de entrevistas realizadas na residência em que se encontra, pertencente à ARPICA, graças ao apoio da direcção desta associação e da inestimável colaboração das Dras. Rita Monteiro e Jéssica Cunha..Nascido em Alpiarça, onde sempre viveu, António Luís aprendeu as primeiras letras na Escola do Coxo Barreira, depois foi para a Escola da Igreja e para a Escola Visconde Barroso, que frequentou até à 3.ª classe. Como reprovou na 4.ª, seu pai decidiu interromper-lhe os estudos, que só viria a concluir mais tarde quando esteve preso em Santarém, como já veremos. Ainda criança, António Luís ajudava o avô Felisbelo nos trabalhos do campo, numa pequena fazenda que este tinha em Alqueves, uma "terra macaca", muito difícil de amanhar. Enquanto ia e vinha a caminho da propriedade, muito de manhã cedo, António Luís via, de quando em vez, uns papeizinhos na valeta, que levou para casa e veio a saber mais tarde serem exemplares do Avante! Teria então uns 12, 13 anos, um ano antes tinha aprendido a andar de bicicleta, ensinado pela avó Margarida. Mas o primeiro contacto a sério com um velocípede ocorreria um pouco depois: um dia, quando ia ajudar o pai, que trabalhava no lagar de azeite do Abel Pinhão, levando-lhe o farnel e a merenda, foi abalroado ao lusco-fusco pela bicicleta do vizinho Carlos Alberto, que o confundiu com um cão..A instâncias da mãe, empregou-se como aprendiz de marceneiro na oficina do Moisés Marques, de onde saiu ao fim de não muito tempo, devido a um desentendimento verbal, quiçá mesmo existencial, com seu mestre. Passou-se tal incidente por alturas do Entrudo, época em que o jovem António Luís, enredado nos folguedos carnavalescos, só apareceu na oficina depois do Enterro do Galo, à Quarta-Feira de Cinzas, facto que motivou o seguinte diálogo, em modo luta de classes: "Atão ó Tonho, onde é que tens andado?", increpou o patronato. "Atão ó senhor Moisés, eu estive a brincar ao Carnaval", redarguiu o operariado. "Atão podes voltar para de onde vieste para continuar a brincar ao Carnaval", rematou, cortante, mestre Moisés, assim dando por cessado, talvez com causa justíssima, o vínculo juslaboral.."Pronto, agora já não tenho trabalho! O que vou fazer?", interrogou-se então Luís em seus pensamentos, cogitação que o levaria a empregar-se junto do carpinteiro Manuel Gabriel, à época com muito serviço, derivado ao facto de existirem poucos ou nenhuns tractores por bandas de Alpiarça e, logo, muitas carroças, que importava construir ou reparar, sendo caso disso. António Luís foi subindo a pulso os sucessivos degraus do ofício, aprendeu a fazer telhados, portas, janelas, mas sentiu dificuldades em trabalhar para fora, por ausência de transportes, razão que o levou a desejar ardorosamente possuir um velocípede, a pontos de confessar ter contraído o «bichinho das bicicletas» e de andar de «cabeça maluca» com o assunto, tanto mais que muitos dos seus amigos já faziam alucinantes corridas pelas estradas da terra, apertando uns com os outros nas curvas mais esquinadas, e de longe vinham notícias de circuitos épicos, em Óbidos, na Malveira, em Rio Maior, um dos quais, recorde-se, vencido por António Pisco. Além do ciclismo, o espírito e o corpo do jovem adolescente eram ocupados pelos bailes do Entrudo ("a gente esperava pela meia-noite para se lerem os versos, as pessoas liam e ninguém ficava ofendido") e pelos bailaricos estivais na casa do Manuel Afonso, a que acorriam acordeonistas de tomo, como a grande Eugénia Lima (que, esclarece a Wikipédia, aos 13 anos foi barrada do Conservatório de Lisboa, por os responsáveis lhe terem dito, imagine-se, que o acordeão não tinha lugar naquela instituição), o Celestino Guerra, o Rui e o Fernando Balsa, o José João e, claro, o Melancia. Mas, concluiu António Luís, pesaroso, "as distracções eram tão poucas que o aparecimento do ciclismo deu mais alma e entusiasmo à juventude daquele meu tempo"..E assim foi. Em Alpiarça, destacavam-se já ao selim os irmãos António e Joaquim Amendoeira, a que se juntaram o António Vieira e o Celestino Guerra, atrás citado noutra qualidade, a de acordeonista distinto. Eram eles e outros - o Manuel Leiria, o José Abrunheira, o Aníbal Costa - que ao final do dia de trabalho, para receberem a melhadura, vinham em corridas loucas até à oficina de Diamantino Mendes Ferreira, o "Sapateirito", ao pé do Mercado. Ao vê-los, António Luís sonhava ser como eles, ir correr até a Santarém, nos Leões, como fizeram o José Abrunheira, o Aníbal e o Pangaia, com as suas pasteleiras modificadas na oficina do Isidro dos Santos ou na do Zé da Borra, à Rua da Misericórdia. Alguns iam mesmo mais longe, provas em Carcavelos, e o Aníbal Costa e o José Abrunheira seriam até seleccionados para participar no Grande Prémio Pirelli, em Roma (vemo-los cercados de pombos, numa fotografia de 1953, frente às galerias Vittorio Emanuele, em Milão, na companhia de Joaquim Alcobia e Natalino Andrade)..Na altura, António Luís já tinha a sua bicicleta, e o vício dela, e juntava-se à rapazida da terra que, quando ia ao cinema a Almeirim, regressava em grandes corridas pela estrada fora, a sprintar com as luzes apagadas, sendo frequentemente interceptados pelo sargento Pires da GNR, que, assevera António, "era macaco" (os agentes corporação, diz António Luís, "eram maus para as pessoas e pegavam por tudo e por nada", em virtude de Alpiarça ser à época terra já com "a fama das políticas")..O jovem corredor aspirava, no entanto, a ter uma enxada capaz de se apresentar em provas, pelo que foi falar discretamente com o Isidoro das Bicicletas, que lhe adaptou a pasteleira, mas sem o guiador de corridas, para que os pais não suspeitassem de nada. A juntar a isso, e querendo instruir-se na modalidade, consultou na biblioteca da secção cultural de Os Águias, da qual já era sócio, um livro sobre ciclismo, que leu com afinco e proveito, copiando-lhe as partes mais relevantes. Às escondidas, fazia treinos de ginástica no Pinhal da Torre, lá dentro dos pinheiros, para que não o vissem e dissessem que endoidara. O momento de viragem dar-se-ia em 1945, indiferente à guerra que acabara de devastar o coração da Europa. E foi assim: o pai de António Luís fazia meloal na Azambuja e o filho acompanhava-o, ainda na pasteleira disfarçada, até que encontrou no campo duas raparigas a quererem comprar melões, com quem ele falou, vindo a saber, conversa puxa conversa, que uma delas era atleta do Sporting. A moça incentivou-o muito a tornar-se corredor, escreveu-lhe até, na semana seguinte, a louvar-lhe as glórias do clube, e, apesar de não ter respondido à missiva, António Luís acusou o toque, pôs-se a magicar, concluindo hoje, à distância de várias décadas, que aquele casual encontro com a jovem atleta sportinguista teve nele o efeito de uma epifania - "são daquelas pequenas coisas que a gente não é capaz de explicar"..António Luís já na altura participava em provas, e com distinção e valor, como uma em Casais da Amendoeira, para os lados do Cartaxo, em que, estimulado pela oferta de uma garrafa de vinho para o vencedor da primeira volta, averbou um triunfo, mais outro na segunda volta, depois na terceira, e na última (enquanto isso, o José Abrunheira tin ha caído de um valado abaixo, sem gravidade). Quando subiu ao pódio para receber as garrafas, recorda António Luís, as moças da assistência começaram a perguntar aos namorados quem era aquele rapaz. O campeão ouvia-as com gosto, gozava a ascensão ao estrelato ("fiquei admirado pelo interesse e pensei cá para comigo: Eh pá, já sou conhecido!"). Seguiram-se retumbantes triunfos, uma vitória em Benavente, um segundo lugar em Alcanhões, motivado por uma derrapagem numa curva que quase o ia deitando ao chão, outro segundo na Golegã, que o Manuel Raposo não levou a bem: segundo António Luís, no final da prova Raposo despiu a camisola do Águias e constou que ficara desagradado pelo clube não ter ficado em segundo, mas, volvidos 76 anos na história do mundo, ainda hoje não se sabe ao certo se aquele intempestivo gesto de tirar a camisola terá significado efectivo desapontamento pela performance alpiarcense ("pensei em perguntar-lhe a razão por que estava zangado, mas não o fiz, até hoje", confidenciou António Luís ao seu entrevistador)..Em 1947, entrou para a tropa com o Joaquim Sebastião, que foi para Santarém, enquanto António Luís prestou serviço à Penha de França, facto aqui referido porque vieram ambos para Lisboa no carro de um caixeiro-viajante a quem o velho Sebastião pedira para dar boleia ao filho e ao amigo, num tempo em que ainda não havia ponte em Vila Franca e que a travessia do Tejo se fazia num batelão volumoso..Na tropa, e depois dela, António Luís não perdeu o sonho do ciclismo, modalidade à época inexistente no Águias, dotado tão-só de secções de futebol, cicloturismo e patinagem, animadas por Carlos Pinhão, figura tutelar para o jovem aspirante a ciclista, que numa ida às Grutas de Mira d"Aire lhe explicou a situação do país e o introduziu na política. Na altura, António Luís trabalhava na firma Correia da Silva, nas pinturas, e teve o seu triunfo maior: em 1950, na Primeira Pedalada, organizada pelo Sporting e pelo jornal Mundo Desportivo, prova que disputou com uma ligadura ao joelho, como o atestam as fotografias da época, e onde derrotou os contendores na difícil escalada da Calçada de Carriche, depois deu um esticão no final e chegou no lugar cimeiro. Em resultado disso, afirmou que algumas (não muitas, mas ainda assim algumas) raparigas quiseram conhecê-lo. Em carta escrita a João Monteiro Serrano, o autor dos Cadernos Culturais, n.º 54, o filho de António Luís apressou-se, porém, a repor a verdade histórica, afirmando que o episódio fora inventado pelo pai, para que não dissessem que era vaidoso. Confirma-se, em todo o caso, que o triunfo na Primeira Pedalada o tornou célebre em toda a Alpiarça, onde passou a ser tratado por "Coppi", em explícita comparação com o italiano Fausto Coppi, Il Campionissimo (ou l'Airone)..A direcção do Águias, onde se destacavam o Joaquim Alcobia e o José da Costa «das Gasosas», decidiu, então, dar um forte alento ao ciclismo no clube, para o que contribuiu o altruísmo de outros dirigentes (João Duarte, o dr. Raul Neves, Natalino Paciência Andrade, João Freilão, o pai do Zé-Cá-Fica), que muitas vezes puseram dinheiro dos próprios bolsos em benefício dos corredores. Atletas, treinadores, dirigentes, todos tinham, sem excepção, o "bichinho" das biclas, eram "malucos" pelas provas, expressões amiúde usadas nas memórias de António Luís. No fundo, no fundo, e parafraseando Soeiro, no que o ciclismo concerne eram homens que sempre foram meninos. O resto, seria a vida a fluir: António Luís nunca correu a Volta a Portugal, mas foi até ao Algarve; foi preso em 1959/1960 por se recusar a pagar alimentos à ex-mulher, pois queria criar o filho consigo; um carcereiro generoso deu-lhe aulas, tirou diploma da 4.ª classe; fez-se massagista; frequentou um curso de treinador no Benfica, na companhia do Justino Jorge e do António "Tinito" Cardoso. Fixaria então ensinamentos sábios, condensados em breves e lapidares máximas, tais como: "mais vale perder um mês ou dois de provas do que ficar arrumado uma ou duas épocas", "os campeões também se cansam", "as mentiras que servem de desculpa não mudam a minha opinião", "nada de vaidades", "fazer-se passar despercebido" (e, no campo alimentar, recomendações para provas de 150km: "bidons com arroz, laranja e banana", "o arroz é meio cozido", "mel e passas de uvas se faz frio", "limão no bidon, que não saia"). Na vida profissional, realizou dois cursos de aperfeiçoamento, de que guarda diploma: um, na aplicação de Platex; outro, de aplicador do papel de parede Colowall. Trabalharia na Madeira, na construção de hotéis, como o Hilton Madeira Palace, onde teve alguns dissabores no pós-25 de Abril, por ter aderido ao PCP, muito por influência de Carlos Pinhão. Sempre se pautou, no entanto, pelo seu espírito de concertação e diálogo, mesmo como representante dos trabalhadores, razão pela qual era frequentemente convocado para dirimir conflitos laborais, entre outros. Para surpresa do filho, confessou-se católico neste seu livro de memórias ("eu não ando a correr para a Igreja, mas sou católico"), citou até o Pontífice, perguntando: "porque é que não fazem como o coitado do Papa que dá tão bons exemplos de como se deve fazer para as pessoas se entenderem?". Insiste, vezes sem conta, na necessidade de concórdia, mesmo entre os reformados do lar da ARPICA, onde se encontra, e onde, diz, cria sempre bom ambiente e faz rir toda a gente: "para que é que havemos de andar divididos com coisas malucas? Há necessidade, alguma vez, de andarmos à briga uns com os outros, quando as coisas se podem resolver com a gente a falar e a entender-se?". «Dentro de mim existem sentimentos. Como é que posso pensar em tratar mal outra pessoa? Ela também tem sentimentos, e tem família!» − diz António Luís, 95 anos de vida. Nas linhas finais do seu livro, mais pacifismo: «aqui em Alpiarça há um ambiente muito crispado, que vem de muito longe, e andam sempre à porrada uns com os outros. Vale a pena? Não!»..Não, de facto não vale a nada pena, crispações em Alpiarça, discórdias por todo o mundo. Mas este é o tempo do Twitter, não o de António Luís, o tempo sadio de António Luís, tão inocente quanto feliz..Há dias, ao comprar o Twitter por uma quantia astronómica e pornográfica, o execrável bilionário Elon Musk disse que o seu projecto era transformá-lo numa "praça pública digital" ("digital town square"), onde todos pudessem expressar livre e cordatamente os seus pontos de vista. Ora, e como logo replicaram os mais sensatos, o Twitter não é sequer uma praça, onde todos se vêem e confrontam face a face, mas sim um esgoto em que uns e outros se insultam e agridem, muitas vezes com nomes fictícios ou a coberto do anonimato (quando não são máquinas e robôs a agirem, disfarçados de humanos). Como muito do que agora sofremos, desde as alterações climáticas à ameaça da Rússia e da China, passando pela revogação da lei Glass-Steagal, em 1999, que precipitou a crise financeira de 2008, o mal actual começou nas decisões desastradas e impensadas dos anos 1990. Como notou há dias, nas páginas do Financial Times, a colunista Jemima Kelly ("The problem with social media is that it is not a real place", FT, 27/10/2022), em 1996, pela famosa Secção 230 do Communications Decency Act dos EUA, foram aprovadas aquelas que viriam a ser conhecidas como "as 26 palavras que criaram a Internet": "no provider or user of an interactive computer service shall be treated as the publisher or speaker of any information provided by another information content provider". Ou seja, trata-se de uma cláusula que confere imunidade legal às plataformas digitais que publicam conteúdos de terceiros, desobrigando-as de quaisquer responsabilidades. Ora, isto cria, desde logo, uma grotesca e abissal desigualdade com a imprensa, escrita ou falada, pois um jornal, uma rádio ou uma televisão podem ser processados, civil ou criminalmente, por aquilo que divulgam. Nada disto sucede com as plataformas digitais, pelo que, parece-me, se falamos da "crise da imprensa" é também nisto, nesta disparidade de tratamento e de concorrência (até comercial!), que deveríamos falar..Além do mais, poderão existir muitas e elaboradas teorias sobre as razões da crispação social e da polarização política que hoje vivemos, as coisas que horrorizam António Luís e a nós com ele, mas a explicação, mesmo com risco de simplismo, parece linear e prosaica: se tiram a esperança às pessoas, como sucedeu na crise de 2008, e lhes dão um megafone sem freios nem limites, não haverão elas de destilar raiva e revolta? E não irão os líderes populistas aproveitar-se disso e fomentar ainda mais ódio? Como poderão as democracias resistir a isso, ao fétido digital?.A questão não é de liberdade de expressão ou censura, como pretendem Elon Musk e outros falsos "libertários" como ele. A questão é, isso sim, de responsabilidade: será admissível que uma empresa comercial difunda mentiras à escala planetária, espalhe o ódio por milhões, lucre biliões com isso, e não seja responsabilizada? Um insulto ou uma inverdade dita de António para Bento fica nesse universo limitado, de António e de Bento; por força das redes sociais, o mal é amplificado e exponenciado para milhões, urbi et orbi, adquire uma gravidade e um alcance infinitamente superiores e mais graves. Enquanto, nos Estados Unidos, não se acabar de vez com a miserável Secção 230 (há vários projectos no Congresso com esse intuito), e enquanto na Europa não se puser em prática a Lei de Serviços e Mercados Digitais, poderemos discorrer muito sobre tribalismo, falar de polarização, crispação, ódio crescente, de ameaças à democracia, e dos riscos de extremismos populistas, mas nunca seremos capazes de ir à funda raiz do mal - a selva do digital..Para o Eduardo Marçal Grilo, cavalheiro em duas rodas.Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.