Os sons.Há notas que persistem, e que sobretudo o silêncio que as antecede faz adivinhar. Sempre que Manuel Alegre entra numa sala, a expectativa é a de ouvir A Trova do Vento que Passa. Se faltar a aparelhagem, recorre-se à voz e no mínimo murmura-se esse poema que o tempo que passa mostrou ser indissociável do nome de Manuel Alegre, uma canção coimbrã, tornada hino não-oficial de campanha. Poder-se-ia dizer demasiado nostálgico ou saudosista quando o que está em jogo é o futuro. Mas não será a esses sentimentos que o candidato quer ir buscar força para chegar a Belém? É vê-lo entrar no restaurante em Cacia -- terra mais conhecida pela capacidade que tem de despertar o olfacto do que pelos seus bons paladares -- e olhar para os rostos que o recebem, ao som das vozes de Coimbra a sair das colunas. Os punhos levantam-se e há lágrimas em alguns olhos. Com a música, as palavras conseguem melhor efeito sobre os sentidos. Emoção é o que se quer e emoção é o que se tem..Que mais pode querer um candidato a Presidente da República? Talvez que a emoção que essa trova ainda desperta se multiplique em votos..Se chegar a Belém, diz que chega com o povo. Cita Allende, mas também Sophia e Torga, recorda Rimbaud e repete palavras como 'pátria', 'língua' e 'alma' para compor a mensagem que quer transmitir é o senhor de uma "nova estratégia" nacional. Pintou a campanha de azul, a cor que associa a Portugal. Pelo Atlântico, justifica, e não pela monarquia, apesar do respeito manifesto por alguns reis. Como hino, escolheram por ele A Trova do Vento que Passa; não é o oficial, mas toca como se fosse.