Por Isabel II reinar mas não governar, há quem se tenha habituado a chamar de rainha de Inglaterra aos políticos que só servem para fazer figura. Felipe VI provou há dias que não se encaixa na definição, ao ir à televisão criticar as autoridades catalãs pelo referendo separatista de 1 de outubro e assumir-se como garante máximo da unidade de Espanha. Não faltou quem visse logo no ato uma repetição da mensagem na TVE a 23 de fevereiro de 1981 de Juan Carlos, a desautorizar o golpe do coronel Tejero e a dar ordem aos militares espanhóis para regressarem aos quartéis..Se o pai saiu em defesa da democracia, recentíssima então, o filho saiu agora em defesa da integridade do país que dele herdou há três anos. E sem meias-palavras. Os independentistas catalães dizem que Felipe VI se esqueceu do seu papel de moderador, os espanholistas aplaudem que tenha defendido com fervor a Constituição..Tem sido bastante atribulada a história dos Borbón. Reinam em Espanha há três séculos, mas já por três vezes viram a coroa fugir-lhes: quando Napoleão prendeu Fernando VII e fez rei José Bonaparte, quando em meados do século XIX foram trocados primeiro por um italiano e depois por uma efémera república, e entre 1931 e 1975, quando a república foi implantada e depois Franco, embora derrotando-a, foi adiando a abolição desta..Essa fragilidade dos Borbón quase desapareceu graças ao apego popular a Juan Carlos. Sucessor formal do generalíssimo em 1975, fez questão de ser monarca constitucional, como provou na reação ao 23-F. Mesmo assim, ou por isso, muitos espanhóis diziam-se mais juancarlistas do que monárquicos. Agora, haverá já felipistas, pois se Felipe pode ter perdido simpatias entre os catalães por tomar partido, por certo que fez aquilo que milhões de espanhóis esperavam: defender o país de que é rei..Foi um discurso arriscado o que fez na televisão dia 3, mas o rei dei-xou claro que se o seu antepassado Felipe V, o primeiro dos Borbón, ganhou Espanha toda, ele, Felipe VI, quer que essa Espanha continue um todo.