Paulo Guerra foi um dos melhores atletas que este país conheceu, tendo-se tornado um dos maiores especialistas de corta-mato da Europa e atingido o auge da sua carreira em 1995, 1996, 1999 e 2000 quando se sagrou campeão europeu nessa especialidade. O antigo atleta, nascido em Barrancos há 46 anos e que nos tempos áureos foi apelidado de Rei da Lama, continua ligado à sua grande paixão, o atletismo, oito anos depois de ter dado como encerrada a sua carreira de 20 anos na alta competição.."Sou treinador de marcha e corrida na pista Municipal Prof. Moniz Pereira, em Lisboa, e também num novo projeto em Loures", revelou Paulo Guerra, que colabora ainda com o Maratona Clube de Portugal, com uma empresa de eventos desportivos (Xistarca) e é também embaixador do Plano de Ética no Desporto. Mas há mais. "Vou apadrinhando algumas corridas e também participo em algumas delas, mas apenas por prazer", garante o antigo campeão, que representou o Sporting e o Maratona.."Estou muito ativo no atletismo", diz com alegria, que em tempos lhe foi retirada quando apanhou dois sustos que marcaram a sua vida. "Em 2008 deixei a competição por causa de um cancro de pele, acabei até por antecipar a minha retirada das corridas. Foi um susto, mas tive outro ainda mais complicado, pois tive uma encefalite herpética [vírus que causa inflamação no cérebro]", revelou, explicando que esta última "não foi nada fácil porque ficaram sequelas, enquanto o cancro foi uma doença silenciosa". Guerra revela que esses momentos difíceis "foram ultrapassados com a ajuda das pessoas mais próximas"..O facto de ter sido atleta de alta competição "ajudou a lidar e a ultrapassar" as doenças, mas faz questão de explicar o que lhe causou estes sustos: "Segundo os médicos, foi o atletismo que destruiu o meu sistema imunológico." Apesar disso, não esquece os tempos em que brilhava nas corridas, embora confesse que "as saudades das provas já passaram"..Curiosa é a sua escolha para o momento que mais o marcou: "As pessoas pensam que foram os dois títulos europeus, mas não: foi o terceiro lugar do Mundial de corta--mato [1999]porque naquela altura, em que os africanos dominavam, havia 14 anos que um atleta branco não terminava no pódio."."Tratar a lama com carinho".Paulo Guerra brilhava quando as provas se disputavam em condições muito adversas e foi por isso que ganhou o epíteto de Rei da Lama. "Puseram-me esse nome porque ganhava aos africanos quando os corta-matos eram difíceis, com muita lama. Eu adaptava-me melhor a essas condições porque em Barrancos treinava muitas vezes na lama", argumenta, explicando o seu segredo: "É preciso tratar a lama com carinho porque é uma força da natureza, como tal não podemos entrar à bruta... temos de passar ao de leve.".O gosto pelo atletismo foi-lhe incutido pelo pai, que também corria a nível regional. "Comecei a correr com ele, além disso víamos muito atletismo na televisão. Aos 13 anos ganhei com facilidade uma corrida nuns jogos distritais de Beja e foi um importante incentivo", conta, revelando que depois disso esteve "três anos a estudar num seminário" em que não tinha a possibilidade de correr, mas regressou depois, tendo acabado por ser descoberto pelo seu grande mestre: "Fui campeão nacional de juniores e o Moniz Pereira levou-me para o Sporting aos 18 anos, passei a treinar duas vezes por dia e ia estudar à noite para completar o 12.º ano. O resto do dia era para descansar.".Esses tempos foram decisivos para a sua carreira de sucesso no atletismo. "Treinava com os gémeos Castro e com o Fernando Mamede, que era um dos meus ídolos, a par com Carlos Lopes. Comecei a gostar de atletismo também por causa deles, com o Lopes campeão olímpico e o Mamede a dominar os campeonatos do Mundo", acrescentou Paulo Guerra, que lamenta o facto de não vislumbrar ninguém que lhe possa suceder na difícil especialidade do corta-mato. "Agora, os atletas não treinam tão forte como nós, mas com a aposta que o Benfica e o Sporting estão a fazer, podemos no futuro ter novos atletas de top internacional", diz.