O regresso do comboio a Kherson. "Estamos livres"

Lágrimas, sorrisos e a ocasional explosão de artilharia saudaram os passageiros quando o primeiro comboio em oito meses chegou à cidade de Kherson, no sul da Ucrânia, vindo de Kiev, e famílias divididas pela guerra foram reunidas.
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"Prometi que voltaria. Assim aconteceu, cumpri a minha promessa", disse Anastasia Shevlyuga, de 30 anos, momentos depois de sair do comboio e reencontrar a mãe.

A poucos metros de distância na plataforma, Lyudmila Romanyuk, de 66 anos, com um ramo de flores, sorria enquanto esperava ansiosamente a chegada da sua neta. "Os pais não sabem que ela vem... nós planeámos isso", disse ela à AFP, com uma gargalhada ."Estamos finalmente livres", exclamou. "É uma vitória para todos. Fomos libertados e a minha menina preferida vem para cá".

Para outros, o momento foi mais sombrio. Svytlana Dosenko lutava contra as lágrimas enquanto esperava pelo filho, que viu pela última vez antes de a Rússia invadir a Ucrânia a 24 de fevereiro. A espera tem sido angustiante. "Ele é o único que me resta", disse.

Os últimos meses têm sido envoltos em tristeza, humilhação e medo desde que as forças russas saíram da anexada península da Crimeia e ocuparam grandes extensões da costa do mar Negro, incluindo Kherson.

Dois dias após o início da guerra em fevereiro, o marido de Dosenko morreu de covid após o corte de energia no hospital onde ele se encontrava num ventilador. Nos meses que se seguiram, viveu sob as forças de ocupação russas, que frequentemente procuravam apartamentos e instalavam postos de controlo em toda a cidade.

"Era muito confuso e muito difícil. A minha casa foi revistada por soldados russos. Eles arrombaram a casa, à procura de armas", explicou Dosenko. Ela planeou tomar o comboio de regresso a Kiev, no sábado à noite, com o seu filho. "Eu só quero vê-lo e dizer-lhe que o amo", acrescentou.

Outros apareceram não para saudar ninguém em particular, mas simplesmente para desfrutar do mais recente sinal do regresso de Kherson ao controlo ucraniano.

"Queria ter a certeza de que estava a chegar", disse Lyudmyla Smeshkova, 60 anos, com o seu chihuahua Molly preso ao seu casaco de peles.

Para os trabalhadores ferroviários da região, a chegada do comboio foi um momento de imenso orgulho. Mais de 100 operários fizeram turnos de 12 horas na chuva gelada da última semana para limpar e reparar quase 60 quilómetros de linha ao lado de equipas de desminagem.

"É emocionante. Depois de ouvirmos falar da libertação de Kherson, recebemos as ordens para reparar as 58 diferentes áreas danificadas na linha", disse Denys Rustyk, 31 anos, um trabalhador ferroviário da cidade vizinha de Odessa.

Os comboios formaram durante muito tempo a espinha dorsal industrial e económica da Ucrânia e, desde o início da guerra, forneceram uma linha vital, movimentando milhões de pessoas em fuga do conflito, ao mesmo tempo que forneciam combatentes na linha da frente.

A reabertura da linha para Kherson irá também fornecer outra artéria de abastecimento crucial a uma cidade desesperada por auxílio. Quando os russos se retiraram há mais de uma semana, destruíram as infraestruturas essenciais, deixando Kherson sem energia e sem abastecimento de água, ao mesmo tempo que o clima rigoroso do inverno se instala.

Desde então, a ajuda humanitária tem vindo a entrar nos camiões e carros que viajam pela estrada batida que liga Kherson e a cidade vizinha de Mykolaiv. "Para Kherson, isto é de importância vital porque agora vão receber equipamento e ajuda proveniente dos caminhos-de-ferro", disse Yuri Karlyukin, 53 anos, com 15 anos de experiência do sistema ferroviário ucraniano. "Quanto mais cedo Kherson estiver ligado, mais cedo a cidade voltará à vida".

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