O regresso das privatizações

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Vinte meses depois da nacionalização, o Governo aprovou ontem a reprivatização do BPN. Em rigor, apenas de parte dele - só a actividade de retalho, já que para a gestão de direitos de crédito, gestão de património imobiliário e gestão de participações societárias, serão criadas entidades públicas para o fazer.

Sobre o BPN ficam por esclarecer, porém, duas questões a que só o tempo dará resposta. A primeira é se o dinheiro que o Estado colocou no banco (agora gerido pela CGD), mais de 1900 milhões de euros, poderá ser, pelo menos em parte, recuperado por estas instituições. Trata-se do muito propagado (pela crise económica) "lixo tóxico", que necessariamente o Estado teria de captar para evitar consequências mais graves para o sistema financeiro. Mas isso não impede que se peçam contas a quem decide sobre esse dinheiro e cada uma das opções tomadas - o que está, passo por passo, ainda por explicar.

A segunda questão envolve o BPN e também as outras duas operações de privatização ontem aprovadas (7% do capital que o Estado possui na Galp e até 10% da participação detida na EDP). Trata-se de saber se este é, quase três anos após o início da crise financeira mundial, o melhor momento para o fazer - ou seja, se fazendo-o agora o retorno do mercado será justo. E se se justificam os baixos preços pedidos (380 milhões no caso do BPN). É verdade que o Governo alertou que o decreto de reprivatização protege o direito do Estado de não aceitar propostas, caso as considere baixas, e que não aceita menos de 180 milhões pelo ex-banco de Oliveira Costa, mas mesmo assim o timing e os valores em causa são questionáveis.

Por tudo isto, a oposição já veio deixar dúvidas e críticas ao processo ontem desencadeado. Para esclarecimento público e dos próprios mercados, será acertado fazê-lo.

'Diamantes de sangue'

Naomi Campbell parece ser tão bela como ingénua. A modelo de origens jamaicana prestou ontem depoimento no Tribunal Penal Internacional sobre uns diamantes que lhe terão sido oferecidos há mais de uma década. Em Haia, onde está a ser julgado por crimes de guerra o ex-presidente liberiano Charles Taylor, a britânica Campbell foi evasiva sobre "as pequenas pedras de aspecto sujo" que um dia lhe entregaram dois desconhecidos que bateram à porta do seu quarto de hotel a meio da noite. Disse ainda que antes do célebre jantar organizado em 1997 pelo presidente sul-africano Nelson Mandela, onde estavam além de políticos várias estrelas da música e do cinema, nunca tinha ouvido falar de Taylor ou da Libéria. Isto apesar de o primeiro ser um déspota de má fama global e de o país ser um a terra mítica para os afro-americanos, criada no século XIX para os acolher.

Mas as palavras de Campbell não contam assim tanto neste processo contra Taylor, deposto em 2003 depois de ter sido um déspota na Libéria e ter apoiado um guerrilha sanguinária na vizinha Serra Leoa. O que está mesmo em causa é que o poder de Taylor para fazer a guerra dependia da sua capacidade para comprar armas e se essas armas eram pagas com diamantes. Enquanto houver quem esteja disposto a pagar milhões pelas pedras preciosas e quem esteja disposto a ganhar outros tantos milhões a vender armas, outros Taylor poderão repetir-se.

Muito mais que as declarações da modelo, interessa o chamado Processo de Kimberley, que visa certificar que nenhum diamante à venda no mundo vem sujo de sangue. São já 75 os países que o assinaram, incluindo a Libéria outrora de Taylor.

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