O refúgio secreto do senhor cinema

Quando fala da Sétima Arte, as palavras soltam-se em catadupa, os olhos brilham como faróis. A escassos dias de regressar à antena da RTP, Mário Augusto recebeu a <strong>Notícias TV</strong><br />no seu cinema particular. Com uma grande... janela indiscreta.
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"O que vocês vão ver é a melhor sala de cinema do País", avisa Mário Augusto, quando começamos a descer as escadas em sua casa. O jornalista, 46 anos, fala com visível entusiasmo. De pólo cinzento e calças de ganga, bem-disposto, acaba de abrir uma excepção à Notícias TV, e concede, pela primeira vez, que a imprensa entre em sua casa, em Espinho. "Estamos aqui há dois anos, esta casa demorou alguns cinco anos a construir e foi toda pensada à volta deste espaço", explica, quando chegamos ao piso -1.

Este é o território de Mário Augusto. Um escritório que cheira a memórias de cinema, com livros sobre o tema e fotografias de actores conhecidos, a maior parte delas autografadas pelos próprios. Mas é numa sala ao lado, quando uma enorme tela com o rosto de Marilyn Monroe se recolhe, que se sente verdadeiramente a magia do cinema.

Estamos na sala de cinema particular do jornalista que, depois de anos nos ecrãs da SIC, volta à casa que o viu nascer, a RTP, com o programa Janela Indiscreta, que se estreia este mês. "Em termos de som esta sala de cinema é do melhor que há no País. Já repararam nas cadeiras?", pergunta aos repórteres, aguçando a curiosidade. A primeira linha são cadeirões azuis, almofadados, confortáveis e modernos. A segunda linha são cadeirões clássicos. "Sabem de onde? São do antigo cinema São João [no Porto]. Tinha lá um amigo na cenografia que lá na sucata encontrou algumas cadeiras partidas. De 20 que lá estavam, uma peça daqui, uma peça dali, conseguimos fazer aqui seis cadeiras com o veludo original", relata.

Marilyn já está recolhida. Mário Augusto já escolheu um filme para testar a qualidade do som e imagem no plasma de três metros por metro e meio que está instalado à nossa frente. "O Pearl Harbor é bom. Tem aqui umas cenas do ataque fantásticas." Os minutos que se seguem são de absoluto silêncio entre nós. O som, totalmente digital, quase nos obriga a desviarmo-nos dos aviões, no filme que retrata o ataque da armada japonesa à base norte-americana na manhã de 7 de Dezembro de 1941. "Olha os aviões a passar aqui em cima", brinca Mário, enquanto o som atravessa toda a sala de cinema. "Isto foi construído com uma madeira especial, disposta de tal maneira que propaga o som da forma que ouviram", explicaria uns minutos mais tarde.

A quimera de ouro

Hoje, Mário Augusto é um dos mais respeitados jornalistas de cinema do País. Seguramente o mais conhecido na televisão portuguesa. "As pessoas pensam que eu sei umas coisas e, portanto, estou ali a debitar umas larachas. Mas ali, mesmo na linguagem rápida a que a televisão obriga, está muito trabalho, estão muitos anos dedicados ao cinema. Nas paredes da sala de cinema, os 1900 DVD, muitos deles autografados por realizadores ou actores, são a prova disso.

Longe vão os tempos do Cinema São Pedro, em Espinho, onde Mário viu o seu primeiro filme. "Foi A Quimera de Ouro, de Charles Chaplin, era miúdo", recorda. A paixão pelo cinema começou aí e é ela a responsável pelo facto de o jornalista viver "permanentemente entre cá e lá". "Há muitas pessoas que pensam que eu vivo lá, mas não. Passo a maior parte do tempo em Espinho. Mas viajo muito, claro. Só em Dezembro fui oito vezes a Londres, até porque muitos dos lançamentos de filmes já são feitos na Europa", explica à Notícias TV.

Mário Augusto assume que, ao fim de tanto tempo de constantes idas e vindas, já não tem "a mesma pachorra". "Mas também confesso que quando passa muito tempo sem uma viagem, começo a sentir saudades", diz, entre sorrisos. Em A Janela Indiscreta, que arrancará em breve na RTP, vai poder continuar a viver e a partilhar com os espectadores a sua paixão. Pelo menos a mais visível.

A outra, a família, essa reserva-a para si. "Por isso, esta foi a primeira e deve ter sido a última vez que abri as portas da minha casa à imprensa", sublinha, sem perder o sorriso.

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