Domingo passado, estavam os portugueses na modorra política do costume - e jogava-se em Elland Road. Num país, o nosso, com o horário nobre dedicado só ao futebol, em todos os canais, o leitor deveria saber que falo do campo do Leeds. E logo do Leeds, quem não o conhece?, um clube que já foi campeão inglês e europeu e hoje anda por divisão secundária, num daqueles dramas shakespearianos tão bons de contar e, sobretudo, de jogar..Admito, porém, que o leitor nem saiba o que é o Leeds, porque a modorra espalha-se e talvez o leitor frequente só o futebol televisivo cá de casa, muita hora mas de lábia exclusiva, onde avençados de empresários tentam vender jogadores, cegos têxteis marram contra as outras camisolas e malucos são filmados a relatar, para um microfone, o que eles veem num televisor. Numa televisão, um maluco filmado a relatar para nós, num microfone, um jogo que passa noutra televisão... Estamos assim..Então, Elland Road, domingo, Leeds contra o Aston Villa (outro ex-campeão inglês e europeu, agora na amargura), ia um empate a zero, minuto 72. Um do Aston Villa aleijou-se, contorce-se e os seus apelam para o jogo parar. Um do Leeds fez orelhas moucas e marcou. Sururu, taponas e uma expulsão - enfim, o futebolzinho. Desculpa-se o nervosinho e até a deslealdade do Leeds: ganhando, ele voltava à Premier League, o melhor e mais endinheirado futebol do mundo..Até entre os treinadores houve gritos, com o do Aston Villa a insultar o do Leeds, Marcelo Bielsa. Este já fora selecionador da Argentina e do Chile, uma lenda, isto é, alguém que não percebemos bem mas admiramos, chamam-lhe, aliás, El Loco. Reparem, ele chamou os seus jogadores depois do golo desleal. O que viria dali?.Pelas regras, depois do tal golo, o desafio recomeçou nos pés do Aston Villa. E, aqui, o pasmo: como num jogo de xadrez, os do Leeds, quietos; como no futebol, um do Aston Villa avançou para a baliza. O assombro prosseguiu: o guarda-redes avançou para a meia-lua e ofereceu a baliza aberta. Só um defesa do Leeds foi futebolista vulgar e fez-se ao atacante e à bola, mas o Aston Villa meteu golo. Acabou em empate. Isto é, o Leeds perdeu, porque quis, a oportunidade do sonho no imediato. Agora, vai ter de competir, numa hipótese difícil, para lá chegar..No fim do jogo, os jornalistas perguntaram a Bielsa: porque deu o golo ao Aston Villa? Respondeu ele: "Não dei nada a ninguém, devolvi o que era deles." O golo justo e as palavras limpas encheram naquele domingo o futebol do mundo inteiro. Entretanto, prosseguia em Portugal a modorra, incluindo no debate televisivo sobre o esplendor do gesto de Bielsa: "Que ganda maluco", disse-se e quase só..Eis senão quando, na quinta-feira, surgiu uma aliança grande como BE, PCP, PSD e CDS ao molho e todos por um desiderato: dar cabo das contas do país. Ainda poderíamos ter ficado pela modorra (afinal, aquilo era só para os professores...), não fossem as centrais sindicais e alguns sindicatos avulsos terem logo prevenido: se é assim, também queremos. Olhem, acordaram o António Costa, que habitualmente gosta de ficar no banquinho, a sorrir para todos e a ouvir quase ninguém..Desta vez, ele armou-se em Bielsa e falou claro. Costa já lembrara, nos dias seguintes às eleições de 2015, que um governo escolhe-se no Parlamento pela maioria dos deputados, chamem-lhe geringonça se quiserem. E, agora, no fim do mandato, voltou a cortar a direito. Disse ontem que se ele governou com uma maioria, se o puserem em minoria sobre uma questão essencial, ele considera já não ser governo. E isso decide-se já daqui a dez dias: votem na tolice que impede governar-se em 2020 e António Costa vai embora já, em maio de 2019..Pode ser que o PS fique pelo caminho como o Leeds? Pode. Mas eis a política de volta.