No mais recente World Economic Outlook, o Fundo Monetário Internacional prevê para Portugal crescimento económico e défice das contas públicas em 2017 e 2018 relativamente otimistas, embora menos do que as previsões do governo, mas, daí para diante, traça um cenário negro em grande divergência do que prevê o governo..O que valem estas previsões? Já conheceu melhores dias a credibilidade destes estudos de previsão do futuro. Não porque sejam desonestas ou por não se fundarem em modelos de análise fiáveis..A sua grande falha resulta da impossibilidade de prever acontecimentos políticos, sociais, ou até fenómenos naturais que escapam à gestão humana, e que podem alterar radicalmente as variáveis em que se baseiam tais estudos..A imprevisibilidade é hoje a tónica dominante em todo o lado, induzida pela globalização, pela revolução tecnológica e pela multiplicidade de conflitos, latentes ou em curso, não controláveis por qualquer instituição ou potência credível..Como pode prever-se o futuro, mesmo a curto prazo, se no próximo domingo as sondagens voltarem a enganar-se em França e passarem à segunda volta a senhora Marine Le Pen e o senhor Jean-Luc Mélenchon?.Como vai concretizar-se o brexit?.Como evoluirá a tensão entre o déspota delirante da Coreia do Norte e o errático presidente dos Estados Unidos?.Isto só para falar em alguns exemplos do que pode ter uma influência decisiva na evolução das economias..Para já, as coisas estão a correr bem em Portugal e pode acontecer que as previsões otimistas do governo se concretizem ou até se ultrapassem. Ou não!.O mérito do bom que está a acontecer em Portugal pertence sobretudo à mudança de comportamento dos portugueses e das suas empresas..A crise por que passámos foi penosa e deixou marcas no tecido empresarial, mas muitos empresários viraram-se para os mercados externos, as exportações cresceram significativamente, o turismo está numa fase de euforia, Lisboa está na moda, o Porto está na moda, Portugal tornou-se atrativo pela excelência das suas infraestruturas em comunicação, pelo seu clima e pelas suas pessoas. Vão--se multiplicando na imprensa internacional referências elogiosas ao Portugal moderno..Ao contrário do que muitos ainda pensam, as novas gerações estão bem apetrechadas em competências essenciais à nova economia e são abertas ao mundo, pensam globalmente e têm uma cultura de risco a que a minha geração era avessa. Temos também vários exemplos de empresas portuguesas na vanguarda da inovação digital, embora mal conhecidas dos portugueses e ignoradas pelos media..O sistema bancário está, finalmente, a estabilizar-se e a retomar capacidade de financiar a economia: o BPI pacificou a sua estrutura acionista, a CGD reforçou os seus capitais, o maior banco privado português - o Millennium bcp - libertou-se da grilheta do empréstimo do Estado e reforçou os seus capitais com um novo investidor, o Novo Banco está a caminho de uma nova etapa..Sente-se um novo clima, uma nova confiança, embora esse clima não encontre expressão pública e, pelo contrário, as redes sociais estejam pejadas de comentários aterradores sobre o futuro. Falta que o Estado dê o seu contributo, concretizando as reformas que diminuam os chamados custos de contexto, facilitando a vida dos cidadãos e das empresas, diminuindo a carga fiscal através da redução da despesa pública..É neste ponto que, confesso, me falta esperança. O que os portugueses conseguiram pode esfumar-se se os partidos e os políticos vierem a quebrar o clima de confiança que está a reconstituir-se.