O que é que Marrocos tem?

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Sugiro que a leitura do título seja feita ao jeito do ritmo da música "O que é que a baiana tem", de Cármen Miranda, já que Marrocos "deu baile" durante este Mundial!

Os/as marroquinos/as vêm as mudanças acontecerem diariamente desde 1999, ano da passagem de testemunho de pai, Hassan II, para filho, Mohammed VI, estando também mentalmente preparados para a próxima transição, já tendo respirado fundo pelo jovem Príncipe Hassan ter completado 18 anos em maio do ano passado. Ou seja, os/as marroquinos/as vêm continuidade e perenidade nas suas vidas, motivo suficiente para se levantarem de manhã cedo e "porem quanto são no mínimo que fazem"! Têm um rumo, Um Projeto indiscutível, já que a Pátria não se discute, a Pátria veste-se, come-se e passa a fazer parte de nós. Este Projeto principal é povoado de múltiplos projetos colaterais, que existem enquanto paliativo para dar sentido a todo o resto. Exemplos, de 1956, ano da independência até 1999, ano da transição de trono, o reino encontrava-se dividido entre norte ex-colonizado pelos espanhóis e sul ex-colonizado pelos franceses. Mais, o norte e a sua República do Rif (1921-26), criaram em Hassan II uma repulsa tal que a única vez que se deslocou ao norte, foi ainda enquanto jovem Príncipe Herdeiro, quando em 1958/59 o embrionário Exército Marroquino avançou no sentido de Tetuão, sob a sua liderança para aniquilar a chamada Revolta do Rif, uma tentativa de reinstaurar uma República a norte, no habitual caos que as transições proporcionam. Sidna, "O Nosso Senhor", como os marroquinos tratam o seu Soberano, nunca mais voltou ao Rif. Mohamed VI, o actual Sidna, filho de um líder que não teve outra opção a não ser, querer ser temido, quis ser amado, facto que mudou o jogo. Desde 1999 montanhas foram rasgadas em estradas e o norte ficou ligado ao sul. Mohamed VI já celebrou desde então, pelo menos três Festas do Trono entre Tânger e Tetuão, num sinal claro de pacificação e união relativamente ao passado. Ou seja, os marroquinos vêm as mudanças, sentem-nas, dando sentido ao rumo e ao empenho com que investem energias diárias. Vêm também um desenvolvimento tecnológico nas cidades que se alastra ao rural, como a construção do TGV, do Tanger Med, maior porto marítimo de África, já colocaram três satélites lá em cima e a razia económica que a pandemia/confinamento poderiam ter provocado, deram antes oportunidade para um teste à linha de comando e em março de 2020, conseguiram num mês reformular a indústria têxtil do país, para novos objectivos e as fábrica não fecharam e os ordenados continuaram em dia.

A actual liderança já passou pelos testes suficientes para todos dizermos "aprovado", tendo neste particular do futebol o móbil da mobilização transversal, do sentimento de comunidade que faz a síntese do último quarto de século marroquino.

Um terceiro lugar marroquino no pódio do Qatar este fim-de-semana, alavancará o Palácio para a concretização de um sonho antigo, a realização de um Campeonato do Mundo de Futebol em Marrocos, organizado por marroquinos/as. São estes pequenos projetos que mobilizam os súbditos para o projeto principal, a manutenção da Monarquia e a integridade territorial de Tânger a Lagouira. A sucessão inevitavelmente acontecerá num horizonte não longínquo e os/as marroquinos/as estão seguros perante o futuro, já que olham para o passado e veem o lastro dos seus egrégios avós e continua a ser ponto de honra, honrá-los.

"Aacha al Maghrib, Aacha Al Malik"! Em português,

"Viva Marrocos, Viva o Rei", primeiro pensamento a cada acordar, o placebo que nos falta para "fazer cumprir-se Portugal"!

Politólogo/Arabista

www.maghreb-machrek.pt (em reparação)

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