Num episódio do West Wing, série do início do século que passou em Portugal com a tradução Os Homens do Presidente, um democrata e um republicano discutiam a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não conseguindo convencer o republicano dos seus argumentos, o democrata pergunta-lhe porque sendo ele homossexual se opunha a essa medida. Este respondeu que apesar de pessoalmente ser a favor, não era essa a posição oficial do seus correligionários e que esta divergência não punha em causa a sua fidelidade ao seu partido e a valores que considerava mais importantes..Lembrei-me desta parte dessa fabulosa série - um verdadeiro tratado sobre política - por causa de um texto de Joana Bento Rodrigues no Observador..A crónica teve tanta divulgação e tanta gente escreveu sobre ela que me dispenso de fazer grandes considerações sobre a coisa. Deixo apenas um pequeno extrato: "A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem-sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos do que o marido, até pelo contrário." Resumindo o resto do texto, a senhora defende um papel para a mulher que faria corar de vergonha qualquer machista convicto ou feroz misógino..A primeira questão é saber se as convicções dos dirigentes que representam o partido e o seu património ideológico vão ou não no sentido do que defende a médica e de quem apareceu a apoiá-la. Tenho poucas dúvidas de que não. Admito que houve uma altura em que aquele tipo de posições ultraconservadoras era uma marca importante do CDS, mas há bastante tempo que assim não é. Não é em vão que Assunção Cristas, Nuno Magalhães, Teresa Caeiro, Adolfo Mesquita Nunes, Cecília Meireles ou Francisco Mendes da Silva são figuras de proa no partido e só muita má-fé permitiria dizer que havia a mínima possibilidade de se reverem nas posições da correligionária Joana..A segunda questão é saber que temas são estruturantes para um partido, que bandeiras são sagradas. A luta contra a discriminação e a misoginia e a igualdade de direitos entre homens e mulheres é um aspeto fundamental para o CDS ou não? Faz parte ou não do seu património essencial de valores?.Das duas uma: ou faz e não resta outra hipótese que não seja expulsar Joana Bento Rodrigues do partido ou não faz e qualquer militante do CDS pode promover as ideias que a senhora defende. Sendo legítimo concluir que isso é perfeitamente aceitável e não vai contra o património ideológico e programático do partido ou até que esses conceitos são defendidos por parte significativa dos militantes..via GIPHY.Curiosamente, o CDS foi implacável quando retirou o seu apoio à candidatura à Câmara de Loures de André Ventura quando este teve posições racistas. Podemos concluir que para o CDS a misoginia, a inferioridade da mulher, não são temas tão importantes como o racismo?.Nessa altura, o PSD foi contra toda a sua história e os seus valores e princípios mais sagrados ao não só apoiar a candidatura de um racista e xenófobo, mas também por o aceitar como militante do partido..O CDS enfrenta um problema semelhante. No caso dos centristas bem mais complicado, já que Joana Bento Rodrigues não é um caso isolado. Há mais do que uma tendência que defende posições ao arrepio do que parece ser a linha maioritária - outro bom exemplo de posições, digamos, ultraconservadoras, é a do atual líder da Juventude Popular..Claro que o normal seria que essas pessoas saíssem pelo seu pé do partido, mas é exatamente por lá permanecerem que têm voz pública - o mesmo poderia dizer-se do PSD, onde ainda se aloja a alt-right à portuguesa. Saindo do CDS estavam condenados à irrelevância..E convém repetir, o que está em causa não são simples diferenças de opinião sobre o caminho a seguir ou mesmo sobre questões importantes. São mesmo princípios basilares, no caso da tendência da autoproclamada antifeminista Joana e doutras do mesmo género estamos a falar de todo o papel da mulher na comunidade..O CDS tem o desejo, normal e legítimo, de crescer e as eleições estão aí. Percebe-se que qualquer tipo de cisão, nesta altura, é algo de indesejável. A questão é que ter nas suas fileiras pessoas que defendem o que Joana Bento Rodrigues defende não alarga os potenciais votantes. Pelo contrário, assusta o eleitorado moderado e é em boa parte por isso que o CDS não cresce. Mas não só. A permanência destas tendências no partido gera a perceção, certa ou errada, de que a linha de pensamento que transmitem é importante para os resultados eleitorais, ou seja, que o seu eleitorado não se revê exatamente nos seus atuais dirigentes..Este tipo de dilemas não é exclusivo do CDS, muito longe disso. Acontece em todos os partidos com vocação de poder e até, em menor dimensão, noutros. No fundo, a questão é saber se um partido luta por um conjunto de ideais ou se é um mero instrumento para a conquista de poder e se está disposto a vender a alma por isso.