Depois de abrir uma nova época política debatendo a sucessão do homem que acabou de ganhar, o país prepara-se para assistir a algo mais concreto, mas de potencial igualmente dúbio: a disputa pela presidência do PSD. A partir de ontem, de forma oficial, apresentaram-se dois candidatos à corrida: Luís Montenegro, líder parlamentar durante a troika, derrotado internamente por Rio em 2020; e Jorge Moreira da Silva, ex-eurodeputado, secretário de Estado, ministro e líder da JSD. O primeiro tem 49 anos. O segundo 50. António Costa tem mais dez..Inevitavelmente, a eleição interna dos sociais-democratas será marcada por uma série de discussões que pouco interessam aos portugueses ou sequer ao próprio partido. Surgirão os arautos do fim, que anunciarão a morte iminente do PSD, na evidência de que só eles - que a apregoam - o poderiam salvar. Aparecerão os ideólogos, que de Bernstein a Rawls, prometerão ser de centro, centro-esquerda, centro-direita, centro-nada, centro-tudo, centro-centro, centro-mais-ou-menos e centro-já-não-há-paciência. E, necessariamente, os meus preferidos, que apontarão ao desgaste da "marca PSD", que precisa de renovação, mudança de logótipo, cores, quiçá designação, de modo a cativar novas massas e adeptos. Não desconfiando das ligações dos profetas comunicacionais, e nada tendo contra os detentores de um curso de design, julgo que a experiência do Aliança demonstra que criar um PSD com outra roupagem não surtirá os melhores efeitos eleitorais..Não concordando com nenhuns, creio que a circunstância atual do partido e dos dois homens que se lançaram no seu encalço tem muito que se lhes diga. Indo por partes, a primeira: a capacidade de resistência do PSD trata-se de algo extraordinário. Não exagero. Estamos a falar de uma força política que venceu eleições depois de uma violentíssima intervenção externa e que não baixou dos 27% em legislativas na quase década de oposição que se seguiu. Olhando para Espanha, (onde o PP tem 20%), para a Alemanha (onde a CDU tem 24%) ou para França (onde os Republicanos tiveram 21% nas últimas legislativas), facilmente se depreende que não há muitas democracias europeias em que o segundo lugar se mantenha mais perto dos 30% que dos 20%. Dito de outra maneira: não é só a maioria absoluta de Costa, afinal, que tem laivos de excecionalidade. O PSD, depois de ter sobrevivido ao FMI com uma vitória, sobreviveu a Rui Rio sem nenhuma hecatombe idêntica, por exemplo, à do Partido Socialista (22%) quando foi Cavaco a obter a sua maioria absoluta, em 1987..CitaçãocitacaoÉ importante desfazer o mito do desaparecimento do PSD, por mais desafiante que a paisagem política esteja, porque é essa perseverança que explica o seu valor.esquerda.É importante desfazer o mito do desaparecimento do PSD, por mais desafiante que a paisagem política esteja, porque é essa perseverança que explica o seu valor. O PSD serviu, há menos de um ano, para merecer o voto de confiança da maior cidade do país. O PSD serviu, volvidos seis meses, para alguém com uma carreira internacional abdicar dela somente para arriscar a cabeça numas diretas. Um partido às portas da morte não conseguiria nem uma coisa nem outra. Independentemente das dificuldades do seu posicionamento, do paradoxal peso do seu legado enquanto gestor da última crise, da reconquista autárquica lançada, mas ainda por cumprir, da sua histórica indefinição e queda para o erro, e de uma agoniante e frequente incultura democrática, o PSD prossegue uma instituição incontornável da República. Não precisa de salvação. Precisa de um líder..Diante de si, ademais, tem quatro anos para se mobilizar ou dois, caso Costa saia, para enfrentar um PS em pulverosa. Até lá, haverá europeias (com dois novos concorrentes à direita que deverão eleger), mas um eleitorado socialista desmotivado face às garantias de estabilidade dadas pela sua maioria interna. A restante esquerda, de volta à oposição, também não fará vida fácil ao partido do governo. O que torna a espera do PSD um tanto esperançosa é a natureza desse governo. Mais do que combater o costismo no dia a dia, no escrutínio essencial à normalidade constitucional, a batalha pelo PSD travar-se-á no futuro - ou melhor: sobre o futuro. Perante um governo imóvel, conservador, avesso ao risco, Montenegro e Moreira da Silva não estarão a competir pela melhor boca sobre a polémica da semana, mas pela melhor proposta para reformar a lei eleitoral, para refinanciar as Forças Armadas, para aproveitar a relocalização das cadeias de produção, para assegurar aos profissionais do SNS, que na próxima pandemia terão todas as condições para que nós as tenhamos..Internamente, não há favoritos. Montenegro começou antes e leva trabalho adiantado, Moreira da Silva reúne a máquina que reelegeu Rio e apoios senatoriais de peso. O fator underdog, a que os militantes laranja já se revelaram sensíveis, terá a sua influência. Irá ele para Luís, que perdeu duas voltas contra Rio e se remeteu a um silêncio de dois anos? Ou irá para Jorge, que parte atrás após duas quase-candidaturas? Não se sabe. O primeiro tem a vantagem de ser subestimado; o segundo tem a sorte de não estar obrigado a ganhar. No fim do dia, ambos se entenderão e virarão uma página que demorou demasiado a ser virada. Mas uma coisa é certa. Com estas diretas, novas fronteiras serão delineadas - não apenas para fora, na relação com o Chega, mas para dentro, no interior do PSD. Um partido que esteve anos seguidos sem barões, na vertigem do voto livre, também terá o seu aparelho a concurso no próximo mês. A questão, para todos, é clara: depois do passismo não sobreviver sem Passos, sobreviverá o rioísmo sem Rio?. Colunista