Foi uma das contas que Rui Rio acertou no final de tarde em Aveiro. Quer o PSD mais ao centro, mais social-democrata, mas não quer conquistar o partido para que ele seja "muleta" de outros no poder. Já lá iremos. Numa sala cheia, com cerca de duas centenas de apoiantes, Rui Rio começou pelo passado. Recuou a 2008 e 2010 e justificou passos que ficaram por dar. Explicou que, na altura, não tinha condições para avançar para uma candidatura porque tinha assumido compromissos com o Porto. Nestas contas prestadas a militantes fiéis que já esperaram mais de uma vez por este passo, Rio recorreu a uma frase que marcou a campanha de António Costa em 2015: "Palavra dada deve ser palavra honrada.".O que mudou? Agora, o homem que então tinha prometido ficar com os dois pés na Câmara do Porto tem esses mesmos dois pés livres. Para o PSD, para o país, mas sobretudo para uma dança de três meses com Pedro Santana Lopes, o adversário que não mereceu qualquer referência nos quase 18 minutos de discurso..Rui Rio terminou os parágrafos de justificação pelo passado com uma frase que resume boa parte do seu discurso político nos últimos anos. "A política em Portugal precisa de um banho de ética. Não pode valer tudo." Mas, desde 2008 e 2010, não mudaram apenas as circunstâncias do agora candidato. Na palavra de Rio, tudo mudou no partido dele. O PSD, diz, "está numa situação particularmente difícil" e pode mesmo atingir "um patamar de menor relevância no quadro nacional" se não se começar já a combater essa situação. Foi o preâmbulo para uma das frases que emocionaram a plateia: "Hoje é o tempo de me dedicar a servir o PSD, num dos momentos mais difíceis da sua história.".Mas Rui Rio - como qualquer candidato - não quer quebrar pontes. Nem mesmo com alguém que deixou o partido nesse "momento mais difícil da história". Dois curtos parágrafos mais adiante, deixou "uma palavra de respeito, de consideração e de gratidão ao Dr. Pedro Passos Coelho", sublinhando que, com ele a presidente, o PSD "não se esquecerá" de Passos. Foi um dos momentos mais aplaudidos da tarde, a par de uma frase que há de queimar os ouvidos do atual líder. "Não queremos um país dos novos contra os velhos, dos do Norte conta os do Sul ou dos funcionários públicos contra os trabalhadores do setor privado.".Outra ponte? Rio garante que num PSD presidido por ele "não há ruturas geracionais". O homem que é apoiado por Manuela Ferreira Leite, por exemplo, diz que todos são importantes, "os mais velhos pela experiência e os mais novos pela dinâmica e pela criatividade". Ponto a ponto, Rui Rio foi rebatendo aqueles que têm sido os principais argumentos de quem o critica. Posiciona o PSD ao centro, afirmando que "não é um partido da direita", mas uma força que "vai do centro-direita ao centro-esquerda". Diz que se candidata com a clara noção de que "o partido tem de definir um novo rumo", que renove o contrato de confiança com os portugueses, e adivinha que ontem foi o "primeiro dia da caminhada" do PSD rumo a uma "reconciliação" com o país..Rui Rio quer um PSD "agente da mudança" porque "o país não se pode deixar hipnotizar por uma conjuntura económica que tende a iludir-nos quanto ao futuro". O candidato falou de "alterações estruturais" sem as explicitar e defendeu um país mais justo e mais coeso. Sem pronunciar a palavra geringonça, Rio defendeu uma mudança de política, com um olhar mais virado para o futuro, e adivinhou neste seu passo em frente "o princípio do fim desta coligação parlamentar que hoje, periclitantemente, nos governa". Ora, o PSD não está bem, o país vai por um mau caminho e Rui Rio afirma que a situação "não admite que baixemos os braços" e nem é compatível com "a entrega passiva da liderança a outras forças políticas". E foi aqui que surgiu um dos grandes aplausos da sessão, a acompanhar mais uma resposta direta a uma das críticas mais insistentes. Sem falar em bloco central ou no PS, Rio afirmou que "o PSD é um partido de poder, não é muleta do poder"..A sala era pequena, estava apinhada e o candidato quase saiu em ombros. No meio da confusão ainda conseguiu justificar o veto a perguntas dos jornalistas: "Terei muito tempo, nos próximos meses, para responder a tudo. Hoje não foi o tempo das perguntas.".Alguém para agradar ao partido ou para ganhar eleições?.Rui Rio chegou cedo ao Meliã Ria, o hotel de Aveiro que escolheu para se apresentar ao partido e ao país como candidato à liderança do PSD. Por volta das quatro e meia da tarde - duas horas antes da apresentação - o candidato passou pela sala acompanhado por elementos da campanha, subiu ao palco e esteve atrás do púlpito, num ensaio geral para o que estava para vir..O antigo autarca do Porto escolheu falar numa sala relativamente pequena, sem cadeiras. Menos de 18 minutos de discurso, bem vistas as coisas, talvez não exijam grandes cuidados com o conforto dos apoiantes. E não houve queixas, mas antes entusiasmo, emoção e militância, como é de esperar nestas situações..Enquanto à entrada da sala começava o processo de recolha de assinaturas para a formalização da candidatura - uma mesa, duas pessoas para recolher nomes e dados pessoais e um enorme cartaz "É hora de agir. Inscreva-se aqui" - Salvador Malheiro, diretor de campanha e presidente da distrital do PSD em Aveiro, tentava estar em todo o lado. Numa breve pausa, revelou ao DN que vão tentar chegar a todos os militantes. "Vamos fazer uma volta nacional, vamos estar em todos os distritos, nalguns mais do que uma vez". A ideia passa por "esclarecer as pessoas e debater todos os assuntos". Quais? Pergunto, tentando saber por onde vai o programa de Rui Rio. "Ainda não é tempo. Hoje é o anúncio da candidatura", responde Salvador. O importante é criar uma onde que apanhe os militantes e "tentar desde já contagiar o país". Aliás, garante, "Rui Rio estará sempre, de forma clara, a falar para o país, apresentando as suas ideias para a governação". No final da conversa, um lamento em relação ao processo eleitoral no PSD e a defesa mais ou menos velada de umas primárias abertas a simpatizantes, à imagem do que já fez o PS: "Infelizmente, não são todos os portugueses que votam, porque nós preferíamos que fossem todos os portugueses, são apenas os militantes"..Da lista de apoiantes confessos desta opção de Rui Rio dentro da chamada máquina partidária, não faltou ninguém. Lá estavam, na primeira linha, os presidentes das distritais de Leiria, Viana do Castelo, Vila Real, Guarda, Bragança e Portalegre. De vários pontos do país chegaram autarcas e de Lisboa alguns rostos familiares nos corredores da Assembleia da República. Por muito que se tenha mantido discreto, estava ali a prova de que Rio tem andado por aí, no terreno..Álvaro Amaro, presidente da câmara da Guarda e rosto dos autarcas laranjas, explica tranquilamente a sua opção entre Santana e Rio. "É um homem de provas dadas e o país precisa neste momento de pessoas que já tenham dado provas. O PSD precisa de recentrar a sua ação política e acho que o Rui Rio, pelo seu passado e pelo que pode projetar no futuro, merece o meu total apoio". Perante os dois candidatos, Álvaro Amaro pede uma campanha das antigas. "Espero que seja uma campanha esclarecedora e viva, à boa maneira do partido social-democrata, porque quanto mais vivacidade mais se projeta a campanha para o resto do país". Arlindo Cunha, antigo ministro de Cavaco Silva e de Durão Barroso, foi outro dos nomes presentes. O antigo dirigente e governante elogia os traços de caráter de Rui Rio e deixa aquela que julga ser a questão fundamental para as diretas: "das duas uma, ou elegemos uma pessoa para deixar toda a gente contente dentro do partido, mas perdemos as eleições ou elegemos alguém capaz de conquistar o país e ganhar as eleições".