O programador teimoso rasteirado por Bill Gates

Em Malhangalene sonhou que queria ser jornalista. Já em Benfica, o pai nem sequer considerou financiar-lhe um projecto na área da comunicação social. Como não tinha queda para o comércio, preferiu fazer um curso de programação de computadores a ir trabalhar para a loja de móveis da família, no Conde Redondo. Teve de meter cunhas para conseguir um estágio não remunerado no INE. Até que a Microsoft lançou o Windows 95 e ele foi obrigado a corrigir a rota e a desenvolver um inovador método de formaçãoemergentes: Aziz Issá Gestor
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Bill Gates pregou- -lhe uma rasteira, mas ele não se deixou ir ao tapete. Há quatro anos que trabalhava no seu software de gestão, feito de raiz, passando horas sem conta no escritório que alugara na Praça de Alegria, permitindo-se, de vez quando, um intervalo para relaxar no Hot Club, curtindo dois dedos de jazz enquanto trincava uma tosta. Quando o produto estava pronto a ir para o mercado, surgiu o Windows 95. O caldo ficou entornado e as vendas não chegaram a levantar voo.

"Percebi que tinha perdido a corrida. Na altura, a minha mentalidade era de técnico e não de gestor ou de empresário", reconhece Aziz, nascido numa família de origem indiana, no ano de 1958, em Lourenço Marques, à época considerada a segunda mais bonita cidade de África, a seguir à Cidade do Cabo.

O choque obrigou-o a parar para pensar nos seus pontos fortes e fracos. Concluiu que tinha jeito para ensinar, mas para sobreviver num mar infestado de tubarões tinha de ser capaz de oferecer algo de distintivo. Foi percorrendo esse caminho que chegou ao método de formação inovador que pratica no Instituto Alta Lógica, que fundou em 1998 e cujo sucesso é atestado pelo facto de ter acabado de mudar das instalações originais, na Rua de Miguel Bombarda, para as actuais, com o triplo do espaço, na Rua Andrade Corvo.

"No meu método, o foco está no formando e não no programa de formação. Como as pessoas têm diferentes objectivos, níveis de aprendizagem e capacidades, cada uma aprende ao seu ritmo, personalizado, de acordo com as suas necessidades", explica Aziz, que ao longo da sua vida teve de ser muito persistente para conseguir fazer o que gosta.

"Sou muito persistente, ao ponto de às vezes ser chato. Pondero bastante, mas quando concluo que estou no rumo certo nunca mais me desvio. Quando surgem obstáculos, salto por cima deles. O grande gozo que tenho na vida é ser capaz de vencer as dificuldades", acrescenta.

Vivia no bairro de Malhangalene e andava no Liceu António Enes quando sonhou que queria ser jornalista. Mais tarde, já com 20 anos, instalado em Benfica, teve razão antes do tempo ao projectar um jornal de bairro, de distribuição gratuita, com informação local e sustentado pelos anúncios dos comerciantes locais. Mas o pai, que prosperava com uma loja de móveis na Rua do Conde de Redondo, nem sequer considerou o projecto do filho.

"Nunca tive queda para o comércio, mas sim para escrever", diz Aziz, que em 1983 voltou a ter razão antes do tempo ao fazer um curso de programação de computadores, no INA, em Oeiras. Apesar de ter sido o melhor aluno do curso, teve de recorrer a cunhas e à sua proverbial teimosia para arranjar um estágio não remunerado no INE. O pai desesperava por o ver a oferecer-se para trabalhar de borla por conta de outrem, quando podia e devia estar a trabalhar no negócio da família. Mas ele não desistiu. Esperou até que a informática desse o grande salto, o que só aconteceria quando a IBM lançou o seu PC. Surgiu-lhe então a primeira aberta, um emprego [remunerado!] na Burótica, pioneira no código de barras, onde o reconheci- mento geral das suas capacidades como programador o estimularam a estabelecer-se por conta própria e a desenvolver o seu software de gestão, enquanto ganhava a vida dando formação e desenvolvendo soluções informáticas por medida. Não lhe faltavam clientes e a margem era boa. Mas ainda havia mais um obstáculo para vencer: o lançamento do Windows 95.

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