O professor de Música que deu vida a uma ideia de Carlos Paredes

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António Eustáquio. Depois de ter passado vários anos a procurar novos caminhos para a guitarra portuguesa, o músico dedica-se agora a promover uma "nova sonoridade portuguesa", idealizada pelo mestre Carlos Paredes. Este novo som pode ser ouvido em dois discos lançados nos últimos meses

"Certo dia, em casa da Luísa Amaro e do Carlos Paredes, foi-me mostrado um instrumento que se chamava citolão, mas no fundo era uma guitarra portuguesa barítono. É aí que começa a minha história com o futuro guitolão", explica António Eustáquio, o guitarrista de 47 anos que em 2005 apresentou ao público um "novo instrumento português", imaginado por Carlos Paredes e construído por Gilberto Grácio.

O primeiro disco gravado com este cordofone foi lançado no final de 2008, por António Eustáquio. Chama-se simplesmente Guitolão. Já este ano pudemos também ouvi-lo no novo álbum de Luísa Amaro, de nome Meditherranios. No próximo fim-de-semana, o instrumento será apresentado nas lojas Fnac da grande Lisboa: "a 6 de Março no Chiado, dia 7 no Colombo, e depois no Cascais Shopping, dia 8", contou. O Quarteto Ibero-americano, que o acompanhou no álbum Guitolão, deve tocar nesta última data.

Apesar de passar muito tempo na capital, o músico que nasceu em Portalegre mora hoje em Castelo de Vide. "Gosto muito do silêncio e do ar puro", justifica. "De resto, posso sempre vir aos fins-de-semana para Lisboa, para trabalhar e ensaiar, mas sou professor de Educação Musical, no ensino oficial, em Castelo de Vide. Essa é a minha actividade principal", explica. "Depois, pelo meio, tenho os concertos, gravações, ensaios e tudo o mais."

E se é verdade que hoje António Eustáquio se dedica principalmente ao guitolão, durante muitos anos tocou apenas guitarra portuguesa, e a sua primeira paixão foi a guitarra eléctrica. "Comecei a tocar guitarra eléctrica numa daquelas bandas de rock dos tempos de liceu", lembra. "Tive depois uma grande paixão pelo jazz, e cheguei mesmo a estudar no Hot Clube. Mas já havia tanta gente, em todo o mundo, a tocar tão bem jazz e rock... Eu achei que estar a fazer mais do mesmo não valia a pena."

"Depois de ter estudado guitarra clássica, de ter tocado rock e ter estudado Composição e Piano no Conservatório", virou-se para a guitarra portuguesa. "Foi assim que nasceu o projecto Sons do Tempo, com guitarra portuguesa e um trio de cordas", lembra. "Não queria copiar aquilo que Paredes fez, mas sim aproveitar aquelas linguagens e ambientes para criar algo novo. Queria levar aquele instrumento por outros caminhos."

Depois, no início dos anos 90, conheceu o mestre Carlos Paredes. Passado algum tempo "ele ouviu na Antena 2 uma versão nossa do Verdes Anos e adorou. A Luísa telefonou- -me, para me dizer que tinham gostado muito do meu trabalho e começámos a trocar impressões. No fundo, estávamos a criar uma amizade". Uma relação que durou até à morte de Paredes, em 2004. António Eustáquio tocaria então no seu funeral.

Antes porém da morte do mestre, o compositor, que no final da década de 70 estudou música antiga em Paris, fez a transcrição para guitarra portuguesa "da obra completa de Vivaldi para alaúde". Foi acompanhado pela "Camerata Lusitana, composta na sua maioria por músicos da Orquestra Gulbenkian". Gravaram depois um segundo álbum, intitulado J.S. Bach para gGuitarra Portuguesa. "Sempre com o intuito de inovar e criar novas sonoridades", sublinha.

É essa mesma inovação que agora procura, com o seu guitolão. Passou por isso algum tempo a "fazer várias experiências com o instrumento", tocando mesmo com músicos jazz, como Carlos Barretto. |

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