"O problema é ouvir-se música em abundância sem pagar"

Este sábado, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, os The Black Mamba prometem um "show lindo" com convidados especiais: Silk, Aurea, Miguel Araújo, Mariza Liz, Tiago Pais Dias e Skyler Jett. Depois, é voltar a estúdio, há álbum novo antes do verão.
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Foi no palco em que se estreiam sábado, 3 de fevereiro, que Pedro Tatanka e Miguel Casais contaram ao DN as histórias dos primeiros tempos embalados pela euforia dos dias novos, passando pela escolha do nome do grupo - Black Mamba, sugestão do antigo baixista depois de ter visto um documentário em que se falava sobre uma das cobras mais perigosas de África. O nome colou-se-lhes à pele batizando a banda e o disco de estreia.

Chegar a este palco é o assentar de alicerces de oito anos de carreira?

Miguel Casais (M.C.) - É um marco na nossa carreira, sim, nós temos vindo a cimentar aos poucos, na verdade, sem grandes ilusões e sem dar o passo maior que a perna, portanto, acho que estarmos aqui resulta em estarmos preparados para enfrentar o desafio.

O que prendeu as pessoas aos The Black Mamba?

Pedro Tatanka (P.T.) - Estávamos a fazer um estilo de música com muita qualidade e com muita honestidade ainda pouco explorado aqui, de uma forma genuína, eu quero acreditar que nós temos essa cena, porque as pessoas gostam de nos ouvir, sem termos talvez o mainstream que muitos artistas têm.

O que é preciso ter para entrar no mercado discográfico?

P.T. - Acho que há duas maneiras. Há aqueles que não valem um chicote, não têm voz, não conseguem cantar, em estúdio afinam-lhes tudo, são as fraudes e há muitos por aí agora, são os que enganam as pessoas, essa é uma maneira. Ou então tens qualquer coisa de que as pessoas gostam. São coisas que não se explicam. Porque é que eu vou sair de casa numa noite de inverno e pagar para ver um maluco ou uma maluca cantar? Tens o caso dos Nirvana, é impossível esquecer o primeiro momento em que ouves aquela música.

E quem mais vos inspira?

P.T. - Eu tenho de pensar no Bob Marley como o primeiro nome que me vem à cabeça, era a cena que eu curtia mais com as primeiras bandas. Antes, com 6 ou 7 anos, adorava os Doors e obriguei os meus pais a ir ao [cemitério de Paris] Père-Lachaise para ver a campa, mascarei-me de Jim Morrison e tudo [risos]. Também oiço Pink Floyd e Beatles, Frank Zappa, Sly and The Family Stone, Parliament-Funkadelic e George Clinton, James Brown, Al Green. Os blues antigos do Delta são os meus preferidos, partilho parte dessas influências.

O digital continua à frente mas há sempre quem prefira ouvir música como antes. O que sentem enquanto músicos?

Não me choca a música ser ouvida digitalmente, na altura, nós tínhamos de esperar para pôr a cassete a gravar as nossas músicas preferidas na rádio. Hoje é tudo muito fácil e muito gratuito, o grande problema é ouvir-se música em abundância sem pagar, o que eu gostaria era que as pessoas ouvissem a música até ao fim, seja em que formato for. 60% das pessoas não ouvem até ao fim, mudam, porque têm acesso a milhões de músicas na mesma hora, e nós, músicos sentimos isso.

O que foi mais difícil para vocês?

P.T. - Pensando mais a fundo... eu diria a língua, talvez as portas se tenham fechado mais à língua inglesa e aberto à língua portuguesa e confesso que me sinto orgulhoso disso, acho isso superbonito, dar mais prioridade à nossa língua, sou muito a favor do nosso amor próprio e de um certo patriotismo. Eu curto cantar nas duas línguas, mas os sons são diferentes com a mesma melodia.

M.C. - Quando saímos dos grandes centros, das principais cidades, talvez seja mais difícil chegar às pessoas. As pessoas gostam mas pode ser mais difícil conquistar a audiência.

Já em Filadélfia foram populares...

M.C. - Foi incrível mesmo! Na verdade, foi uma oportunidade que surgiu por uma cantora de Filadélfia, que fazia um intercâmbio entre Lisboa e Filadélfia. Tocámos com ela cá, ela adora Portugal e fomos convidados pela comunidade portuguesa. Fomos tocar a um clube famosíssimo, a receção foi espetacular, um jornalista da Rolling Stone adorou a banda. Lembro-me de um booker perguntar se éramos de Nova Iorque ou Filadélfia, ou de Nova Jérsia.

É um elo forte que querem manter, estas raízes da música negra?

M.C. - Não digo que não possamos experimentar outros estilos, mas esta é a nossa base mais old school, e neste novo disco estamos a tentar isso mesmo, complementar uma estética mais moderna que se está a fazer atualmente e fundir com o old school.

Vão tocar músicas novas amanhã?

P.T. - Na verdade já temos tocado muitas músicas que vão estar neste novo disco. O Still I"m Alive, por exemplo. As pessoas perguntam muito por esse tema, umas músicas já saíram, outras entraram com arranjos diferentes e que vão ter ainda outros no disco. Estamos a preparar este concerto de uma forma muito cuidada e meticulosa, vai ser bom.

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