O inverno de 1952 tinha sido rigoroso, mas a primavera decidiu chegar mais cedo e, em fevereiro, começara o degelo. Era uma circunstância grave, muito grave. Em Oslo, a organização dos Jogos Olímpicos de Inverno tentava a todo o custo evitar o embaraço de ter de cancelar algumas das provas. «A primeira neve que derrete é a que está no chão, a que fica nas árvores aguenta-se mais tempo», lembra Duarte Espírito Santo Silva que correu nesse ano a prova de Downhill e terminou na 69.ª posição, à frente de um argentino, um australiano, um grego e de nove outros atletas que foram eliminados. «Então, os noruegueses puseram milhares de militares agarrados às pás a tirar a neve que havia nos ramos e a levá-la para as pistas. Safaram-se assim.».Espírito Santo, hoje com 87 anos, foi o primeiro português a participar numas Olimpíadas de Inverno. Apesar de ser preciso esperar 36 anos para voltar a ver cidadãos nacionais na prova, o facto é que o seu feito permaneceu discreto durante sessenta anos. Os jornais da época noticiaram a sua presença nos Jogos de Oslo, mas nada esclarecem sobre a sua prestação. O Diário de Notícias de 14 de fevereiro de 1952, dia de arranque das provas, publica inclusivamente um erro - que Portugal estava representado por Duarte Espírito Santo e Carlos Gonçalves. «De facto, tínhamo-nos inscrito os dois», diz agora o pioneiro dos Jogos de Inverno. «Mas ele roeu a corda ainda antes de embarcarmos para Oslo.».A decisão de participar nas Olimpíadas tinha sido tomada um ano antes. Gonçalves e Espírito Santo eram bons amigos e tinham uma paixão mútua pelo esqui alpino, que os levava a fazer temporadas anuais na Suíça e na Áustria. «Mas foi cá em Portugal, na serra da Estrela, que conhecemos o Raymond Noelke, um instrutor de esqui austríaco que nos desafiou a participar nos Jogos.» Nessa altura, não havia provas de apuramento, cada país tinha direito a preencher as suas quotas. «O Noelke é que contactou o Comité Olímpico de Portugal e tratou de tudo. Nunca tivemos nenhum delegado presente, como era habitual nas Olimpíadas de Verão.» Os homens decidiram que o mais acertado seria participar na prova de Downhill, uma modalidade do esqui alpino que consiste em descer uma montanha em velocidade, no mais curto espaço de tempo. Espírito Santo faria a prova em 3h58 , mais 1h27 do que o italiano Zeno Colò, vencedor da corrida..Sem neve nem pistas de esqui em Portugal, o treino foi tudo menos adequado. «Eu sempre adorei golfe e jogava muito. Também praticava ginástica no Ginásio Clube Português. Mas estava com 27 anos, tinha acabado o curso há pouco. Trabalhava há três anos no banco da minha família e, ainda por cima, casei nesse ano. O meu tempo de preparação era muito limitado.» Pagou do seu bolso as custas da inscrição e a viagem para a Noruega. Quando entrou no avião, o seu objetivo era apenas este: terminar a descida..As provas de esqui alpino decorriam em Norefjell, a 113 quilómetros da capital norueguesa. Duarte Espírito Santo desfilou em Oslo com a bandeira portuguesa a 14 de fevereiro e no dia seguinte rumou às montanhas. Pela primeira vez, tinha sido construída de raiz uma aldeia olímpica. «Isso permitiu um grande convívio entre os atletas, que partilhavam o mesmo espaço dia e noite. Ao contrário do que seria de esperar, ninguém ficou pasmado por ver ali um português - um país onde a neve é escassa e os desportos de inverno não tinham qualquer tradição. Eu era apenas mais um esquiador.» .No dia 16, à uma da tarde em ponto, foi dado o tiro de partida e Duarte Espírito Santo Silva conseguiu alcançar o seu objetivo. O Comité Olímpico de Portugal, por não ter qualquer delegado em Oslo, não documentou a participação portuguesa, nem em texto nem em imagem. Nenhum jornal português deu sequer conta dos resultados nacionais. O próprio Espírito Santo há muito que perdeu as fotografias da sua «aventura estupenda», como lhe chama. .O único registo que existe da participação portuguesa nas Olimpíadas de 1952 é uma carta enviada pelo Comité Olímpico ao ministro da Educação Nacional, pedindo que o esquiador fosse reembolsado em dez contos pelas despesas que havia feito do seu próprio bolso, porque, «ainda que não tivesse alcançado qualquer classificação, fez uma prova em que deixou competidores atrás, e fê-la com uma coragem notável, porque o estado da pista era lastimável e provou inúmeras quedas perigosas e desclassificações.» O dinheiro do reembolso, esse, nunca chegou. «Na verdade», recorda seis décadas depois, «eu era um bocado aselha.».Todos os anos, os pais de Duarte Espírito Santo viajavam para Saint Moritz, nos Alpes suíços, e de cada vez levavam consigo um dos filhos. A ele, que era o mais novo, calhou-lhe a sorte em 1932, quando tinha 7 anos. «Foi amor à primeira vista» e não consegue deixar de se comover quando olha agora para uma foto sua dessas férias. «Nesse tempo, quando se viajava, levava-se o cão, a empregada, tudo e mais alguma coisa. Demorámos dois dias de comboio, mas assim que peguei nuns esquis pesadíssimos de madeira percebi que ia divertir-me muito.».A paternidade continuava a impor um sistema de rotatividade nas viagens à neve, mas Duarte conseguiu arranjar maneira de continuar a praticar o desporto no inverno. «Eu era aluno interno do Colégio Infante de Sagres e o diretor tinha construído uma casa na serra da Estrela. Ele tinha 12 filhos, eu era amigo de alguns e, de vez em quando, alguns alunos eram convidados para passar o fim de semana com a família.» O comboio demorava toda a noite até chegar à Covilhã, depois era preciso subir a serra a pé. «Mas eu ia sempre e levava sempre os esquis comigo.».Em fevereiro nunca abdicava de uma temporada na neve, estivesse na faculdade ou já a trabalhar no Banco Espírito Santo. Acabou por contagiar a mulher, e mais tarde o filho, e às tantas decidiu mesmo comprar uma casa em St. Anton am Arleberg, na Áustria, que manteve até há três anos. Continuava a praticar golfe o ano todo (foi três vezes campeão nacional e a sua casa lisboeta está cheia de troféus dessa modalidade), mas nunca abdicou de três ou quatro semanas de esqui por ano. «Pratiquei sempre, até aos 84 anos. Mas em 2009 dei uma queda e parti a bacia, deixei de poder praticar. Tenho muita pena. Se pudesse, continuaria a esquiar sempre.».Há uma nova promessa portuguesa no esqui.A notícia apanhou toda a gente de surpresa. Pela primeira vez na história do esqui português um atleta subiu ao pódio de uma competição internacional. Aconteceu no final de janeiro, em Andorra, e logo por quatro vezes. Aos 12 anos, Andrea Bugnone, um luso-descendente a viver na Suíça, conquistou o primeiro lugar nas provas de Gigante e Super-Gigante, e foi segundo em Slalom e Combinado, na categoria de Infantes. Foi o melhor atleta do Troféu Borrufa, um dos mais prestigiados nas camadas jovens (é direcionado a esquiadores entre os 11 e os 14 anos). Nesta edição, participaram 24 países, e Portugal alcançou a décima posição na geral, à frente de potências como a Dinamarca ou os Estados Unidos.