O Presidente no papel de rei Salomão

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Ao lembrar-nos que "é como é" e que, por isso, recebeu Paulo Rangel em cortesia, faltando na dita aos líderes partidários por não ter discutido primeiro com eles a data das eleições, o Presidente pôs-se a jeito para ser acusado de estar a interferir na vida do seu partido de sempre. Todos sabemos que o Presidente é como é e sempre foi, apaixonado pela intriga e criador de factos políticos. Uma das especialidades de Marcelo é, aliás, montar armadilhas para ele próprio desarmadilhar.

Para percebermos os dias de hoje, convém regressar ao tempo em que era líder do PSD e o amigo António era primeiro-ministro. Rebelo de Sousa tinha viabilizado um orçamento a Guterres e estava sem espaço para viabilizar o seguinte sem ter um ganho político. Combinaram secretamente que esse ganho seria o fim da colecta mínima, acertando que o governo não cedia até ao momento certo. O PSD encheu o país de cartazes com o slogan "pena máxima para a colecta mínima", desmentiram quando foram apanhados, para confirmarem mais à frente quando a mentira era insustentável. E assim se montou um enredo para se chegar onde Marcelo queria.

A história com Paulo Rangel tem todos os ingredientes que costumavam ter as histórias com Marcelo. O Presidente apontou as eleições para a primeira quinzena de Janeiro, quando os apoiantes de Rangel viram que não era a data mais favorável aos seus interesses, enviaram o candidato para falar com Marcelo. Por ter sido em Belém, essa "visita de cortesia" tem de ser registada e foi comunicada. Uns dias depois, Rangel avança com a estapafúrdia ideia das eleições serem no final de Fevereiro. Belém faz saber, no Expresso, que as datas mais prováveis para as eleições são os dias 30 de Janeiro ou 6 de Fevereiro. Argumento? Assim não favorece nem Rangel, nem Rio. Tão básico que não chega a ser gato escondido com o rabo de fora, é mais gato à vista com o rabo escondido.

O PSD escolhe o seu candidato a primeiro-ministro no dia 4 de Dezembro e o que se joga é a influência que tem nessa escolha saber quem prepara a lista de deputados. O partido ser assim, tão previsível e tão dependente de gente falha de princípios, gente que troca apoios por lugares, deveria evitar que o Presidente de todos os portugueses se metesse no assunto. Se uma larga maioria dos partidos com assento parlamentar defende o dia 16 de Janeiro como data certa, Marcelo arrisca demasiado prosseguir no caminho que escolheu. Talvez, sendo o árbitro, possa fazer o que fazem os árbitros quando a bola bate neles. Mandam-na ao solo. Ou seja, não marca as eleições, nem para 16 como querem quase todos, nem para final de Fevereiro como quer Rangel, nem para 30 de Janeiro como ele próprio passou a querer, marca-as para 23 de Janeiro. Vai de Presidente a rei Salomão e parte as vontades às postas.

No final, se acabar mesmo por marcar para 30/01 ou 06/02 e o PS de António Costa nada disser, então saberemos que há uma alta probabilidade de fazerem parte da moscambilha. Ficaria explicado porque é que Costa não é demitido, quando há razões para utilizar a mais poderosa das bombas, a que faz cair o Parlamento e antecipar eleições. Há uma crise que faz dissolver a Casa da Democracia, mas o Presidente permite ao primeiro-ministro escolher a forma como fica a governar? Isto faz sentido? Nenhum! O constitucionalista Bacelar Gouveia considera que é um erro da Constituição não prever este automatismo, quando se dissolve a Assembleia, o governo deveria igualmente ser demitido e entrar em gestão.


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