Acabo de regressar da Escócia e porque férias são férias, apenas na Lusitânia é que consultei o DN para me por a par das últimas notícias sobre a crise, os incêndios e o palavreado do nosso PM sobre a infelicidade dos homens e mulheres que perderam a vida no combate aos mesmos. .Confesso que já tinha saudades de ouvir falar dos cortes, do desemprego, da Troika e da dicção do ministro da Segurança Social - sempre que fala parece que o mundo vai acabar no fim do adjetivo proferido..Na Escócia não há crise. Pelo menos não sente. Há tantas crianças de tenra idade como corvos nos parques de relva verdíssima e nas searas de trigo ainda por estes dias a amadurecer. .Parece que cada novo nado-vivo tem um lugar assegurado pelo Estado numa creche, a custo zero - é claramente um incentivo que não existe cá. A comida é impressionante: fritos, fritos e mais fritos. A quantidade de colesterol em circulação pelas cidades e vilas é também impressionante, não escolhendo os sexos. .Parece que se está a preparar uma estratégica aliança entre o fish & chipps e fast-food norte-americano. As senhoras não são nada bonitas e os cavalheiros tendem a ter uma tez cor-de-rosa durante todo o dia (...)..Por falar em parques, além de serem estupidamente verdes em pleno agosto, são percorridos por resmas de cães e respetivos donos. Nunca vi tanto canídeo a ser passeado por metro quadrado de relva. .Os autocarros não dão trocos - ou tem a quantia certa ou deixa uma gorgeta bem acima do preço do bilhete. Os condutores dos autocarros não percebem inglês pelo que não vale a pena insistir em repetir pausadamente a rua ou lugar para onde pretende ir. .Depois desta aventura já perdoei o taxista de PonteDelgade que me levou para o hotel errado, quando visitei os Açores. Os escoceses falam inglês mas não nos percebem quando falamos inglês. Também encontrei ingleses a passar férias na Escócia que não os conseguiam entender. .Um exemplo: ao pequeno-almoço pedimos café e leite para quatro, num inglês pausado. Passados alguns minutos a menina trouxe-nos dois pequenos bules com leite quente e dois jarricões de chá. .Ninguém na mesa pronunciou a palavra chá. Só à terceira é que a rapariga acertou na combinação pedida. Um sorriso? Um pedido de desculpa? Uma tentativa ainda que vá de tentar perceber um inglês a todos os níveis intendível até em Londres? Nada. Parecia um autómato: trazia, grunhia qualquer coisa, parecia que ouvia dizermos que não era o que tínhamos pedido, lá ía impávida e sem emoção, voltava, com os jarricões e esperava que nós arrumássemos a mesa para lá colocar os ditos, deixava-os e a coisa continuava. .Só filmado. Situações como esta e muito piores sucederam-se todos os dias. Pessoas que nos atendiam nas mais diversas lojas ou instituições com cara fechada, sem pinta de emoção - pareciam que estavam naquela função por obrigação, mortas por fechar as portas. .Quase tudo fecha entre as 4 e as 5 da tarde. Até parece que os turistas só servem para lhes atrapalhar a rotina: ovos estrelados, salsichas, bacon frito, feijões, cogumelos e o haggis (o nome diz tudo) logo pela manhã, trabalho, fecho da loja às 4, passear o cão, pub, cama. .Essas criaturas estranhas que se lhes dirigem e lhes fazem perguntas num idoma que não entendem são um estorvo que só servem para lhes deixar libras esterlinas e aumentar o PIB. .Chegam até a ser rudes e mal educados: aconteceu-me por duas vezes: uma vez num bar de hotel em Dundee e outra num rent a car no aeroporto de Edimburgo - sítio que jurei não mais voltar, tal foi a desfaçatez com que me trataram..O que resta: o próprio país. Belíssimo. Verdíssimo. Com belas montanhas e vales extraordinários. Lagos e mais lagos: tantos que o cérebro chega a bloquear. E claro os castelos. Para todos os gostos. .As cidades em si mesmas não apreciei. A própria cor das casas (cinzentos e ocres escuros) torna-as feias, mesmo que embelezadas por flores e jardins bem cuidados. Estradas razoáveis e sem portagens. Condutores escoceses acelerados e com condução algo perigosa: nada simpáticos na estrada e claro nem pensar em parar e perguntar direcções para aquele tal lago que não aparece nos guias..Conselho de quem lá esteve: esqueçam o Loch Ness e a cidade de Inverness e invistam no Loch Lomon e na parte oeste da Escócia. Se não gostarem de golf, fujam de St. Andrews: tem turistas a mais. .Edimburgo vê-se bem num dia. As únicas gargalhadas que dei em solo escocês foi ao assistir a um espectáculo de rua do FRINGE protagonizado por um neozelandês. As fotos que tenho de um pátrio a tocar pipe vestido a rigor com o kilt são para apagar tal era o enfado do tocador..Terei tido azar? Só apanhei pela frente pessoas mal encaradas por estarem a trabalhar em agosto? Talvez. Mas eu acho que os rankings dos povos mais simpáticos são elaborados, pelo menos no hemisfério norte, por turistas que visitaram outros países precisamente e massivamente em agosto..Parece-me que só voltarei à Escócia como turista no dia em que na Escócia não houver escoceses.