O politicamente (in)correto

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Não há justificação possível, não há outra palavra para o que aconteceu nesta semana com Jaime Nogueira Pinto. Foi censura, pura e dura, o que levou ao cancelamento da palestra do escritor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova. Temperada com uma boa dose de ignorância, da estupidez típica dos jovens que acreditam que eles e só eles estão certos sobre tudo - a mesma que os leva a desconfiar que tudo quanto os pais dizem e fazem está errado. E com um pouco daquela cegueira que move as multidões em empreitadas irracionais. Mas isso nada desculpa.

Houve também aqui qualquer coisa de cobardia. Um diretor de faculdade que invoca razões de segurança para anular - ele diz adiar - uma conferência na sequência de ameaças impensáveis, irresponsáveis, de um grupo de alunos ao orador revela o pior: que não tem controlo sobre o que se passa na sua casa, que é incapaz de fazer aquilo que lhe compete. Como reagirá amanhã, se a alguns estudantes não agradar a exigência dos professores ou o preço da comida na cantina?

Foi censura, nada mais. E com a conivência de quem deveria deitar água na fervura, primeiro, e se isso não resultasse agir de acordo com o que são as suas responsabilidades. Mas nada disso aconteceu e a justificação para este triste episódio vai muito além do que está à vista.

Aos que quiseram - e conseguiram - impedir que ali se falasse sobre populismo interessava, mais do que calar Jaime Nogueira Pinto, silenciar uma corrente de colegas que pensam de maneira diferente da sua. Um grupo de alunos de direita, que os restantes veem como um perigo pela simples razão de terem ideias distintas das do resto.

Esta intolerância básica é o melhor caminho para destinos obscuros. O cancelamento da palestra de Jaime Nogueira Pinto é um caso entre muitos que nem chegam a ser conhecidos, que não fazem notícia. E a ausência de consequências para atos graves como este ainda legitima este tipo de atitude.

Porém, nos dias que correm, aparentemente só deve ter espaço e visibilidade quem concorda com determinada corrente de pensamento, alinhada à esquerda. Os demais são patifes - deixemos passar o eufemismo - que importa silenciar a todo o custo. É esta a verdade não proferida mas aceite, a crença generalizada. Basta ler as caixas de comentários dos sites de informação, ver os posts deixados pelas redes sociais para ver que é assim mesmo (se ainda não teve o prazer, experimente passar pelo online do DN daqui a dois ou três dias e ler o que dizem desta prosa). Pensamentos divergentes são para arrumar na gaveta da escumalha direitista, que deve ser achincalhada porque toda a gente sabe que quem não alinha à esquerda é um perigoso fascista ou um criminoso capitalista que sonha ver todos os outros agrilhoados em trabalhos forçados, despidos de qualquer tipo de direitos ou privilégios. E o 25 de Abril, que mais de 40 anos depois continua a ser invocado a qualquer pretexto, aqui não conta nada - ao contrário do complexo residente dos tempos de Salazar.

Eu sou de direita e não vejo porque tenha de escondê-lo. Eu penso, leio, tiro conclusões e discordo de muito do que a direita portuguesa faz, mas são muito mais as coisas com as quais concordo.

Jaime Nogueira Pinto ia à Nova falar sobre o brexit, Trump e Le Pen - temas que marcam a atualidade, que merecem reflexão profunda - e, como acontece em todas as suas intervenções, estava decerto preparado para ouvir e debater argumentos divergentes dos que defende. Talvez o faça na Associação 25 de Abril, conforme ofereceu o próprio Vasco Lourenço. Uma das poucas vozes desta maioria de esquerda que repudiaram o que se passou. Do PS, do Bloco de Esquerda, do PCP, do governo, do primeiro-ministro, só há silêncio

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