O piloto luso-africano Lope Martim de Lagos e a primeira torna-viagem do Pacífico, 1564-1565

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Pouco conhecido em Portugal e com os espanhóis a usurpar-lhe (como de costume) a nacionalidade lusa, o excelente piloto Lope Martim de Lagos foi o primeiro a concluir uma das últimas grandes viagens dos Descobrimentos marítimos: o regresso das Filipinas ao México. Da sua vida endiabrada e desventuras cinematográficas ao serviço da Coroa espanhola, aqui fica um resumo: desde o limiar da sobrevivência navegando no patacho San Lucas através do Pacífico, a motins e assassinatos no galeão San Jerónimo, na viagem de 1566 às Filipinas.

Magalhães abriu o Pacífico aos espanhóis, que tentaram chegar às ilhas das especiarias, partindo da Europa ou da Nova Espanha, de que fazia parte o atual México. Os tratados de Tordesilhas (1494) e de Saragoça (1529) forçaram, porém, os espanhóis a encontrar uma rota de regresso que não entrasse em territórios portugueses - a almejada torna-viagem do Pacífico.

Chegar às ilhas das especiarias não era o mais difícil, como fizeram as frotas de Loaysa (1525-1526), de Saavedra (1527-1529), de Grijalva (1536-1539, morrendo na viagem o seu piloto-mor, o português Martim da Costa, do Porto) e de Ruy de Villalobos (1542-1546), esta última preparada por Cabrilho e tendo como piloto-mor o também português Gaspar Rico. Como outros antes dele, Villalobos falhou o envio do seu navio San Juan de Létran de regresso ao México, lutando com ventos e correntes contrárias, acabando os sobreviventes (invariavelmente...) às mãos dos portugueses nas Molucas e ilhas adjacentes.

Tudo mudou com a viagem comandada por Legazpi, em desonrosa e flagrante violação do Tratado de Saragoça, assinado com Portugal, apoderando-se finalmente das Filipinas, batizadas por Villalobos. Sob orientação do frei e navegador basco Andrés de Urdaneta (sobrevivente da expedição de Loaysa), que se opôs, em vão, à entrada ilegal em território português, a expedição tinha o mulato Lope Martim de Lagos como piloto do San Lucas, um navio mais leve e ágil, que foi o primeiro a chegar às Filipinas e a regressar ao porto de Navidad, no México.

As cartas de Juan de Borja y Castro (o embaixador espanhol em Portugal), são ricas em detalhes únicos, dado o seu acesso a informação privilegiada de fontes portuguesas. Uma dessas cartas, datada de 1570 (ou posterior), guardada nos Arquivos Gerais das Índias (em Sevilha), indicia a nacionalidade lusa de Martim, pois Borja refere a viagem do San Lucas, que levou apenas "três meses na viagem de regresso, passando por grandes frios" indo como piloto "Lope Martín de Lagos".

Na relação da viagem feita por Alonso de Arellano, capitão do San Lucas, lê-se que o piloto era "Lope Martín vecino de Ayamonte". Na relação de Juan Martínez (soldado do San Jerónimo), datada de Julho de 1567, lê-se que Lope Martim era descendente de Portugal (por isso levou alguns marinheiros portugueses no San Jerónimo), deduzindo-se ainda que se casou em Aiamonte. Os espanhóis conheciam-no sobretudo como "Lope Martín de Ayamonte", ainda hoje insistindo erroneamente que, sendo natural de Aiamonte, era espanhol.

Com 40 toneladas e apenas 20 homens, o San Lucas era dos navios mais pequenos numa frota de cinco capitaneada pelo galeão San Pedro (de 550 toneladas), onde viajaram Legazpi e Urdaneta.

Partindo do porto de Navidad a 21 de novembro de 1564, dez dias depois, numa tempestade, o San Lucas perdeu-se do resto da frota, nunca mais a avistando. As condições do mar explicariam tudo, ou terão Arellano e Martim começado deliberadamente uma corrida pela cobiçada torna-viagem?

A 5 de janeiro de 1565, o patacho evitou por pouco uma colisão com um atol, roçando contra os corais. Martim salvou-se agarrando uma corda, quando o mar o levou da proa, onde tentava, na escuridão da noite, abrir caminho pela baixa profundidade das águas. A 29 de janeiro chegaram a Mindanau, a segunda maior ilha filipina, onde parte da tripulação se veio a amotinar, tentando fugir. Martim controlou a situação, resolvendo-a pelo melhor. No fim de abril, procurada em vão a restante frota nas Filipinas, decidiram voltar ao México, em vez de se renderem aos portugueses nas Molucas.

Com água e abastecimentos exíguos, parte da tripulação não gostou da ideia, evitando-se a revolta total ao planear-se reabastecer no Japão, o que nunca aconteceu. O San Lucas atingiu os 31º N, mas já muito arrastado para oriente no Pacífico. Apanhando as águas quentes da "Corrente Preta", ou Kuroshio (em japonês), a corrente mais forte do Pacífico levou o patacho ao encontro das águas subárticas, zona onde aflora muito plâncton e de grande abundância animal, com leões ou lobos-marinhos e pardelas pretas a seguirem o navio. Chegando aos 43º N, as águas gélidas vindas do Mar de Bering trouxeram muito frio e neve, congelando o óleo dos candeeiros, e encobrindo o céu durante um mês, sem poder medir-se a altura dos astros. Estavam quase perdidos, mas Don Arellano tinha muita confiança em Martim, de quem dizia saber ler não só a latitude, mas também a longitude com base no comportamento das agulhas e declinações magnéticas.

Com as velas a desfazerem-se, remendadas com cobertores e a própria roupa do corpo, e com uma praga de ratos a morrer de sede e a roer desesperadamente os poucos barris de água, tardava a chegada à costa "das Califórnias". No fim de junho, com a aproximação ao continente, o vento finalmente mudou de direção. A meio de julho estavam nos 27º N, em frente à Ilha de Cedros (Baja California).

A 28 de julho, uma tempestade rasgou a vela principal. O navio adornou e meteu muita água, ficando apenas com o traquete, a vela do mastro da proa. Sem bússola, com o navio a afundar-se, a tripulação desnuda e com sede, fome e escorbuto, com a única vela funcional remendada com cobertores, Lope Martim regressou ao porto de Navidad a 9 de agosto de 1565. A sua odisseia (em sentido oposto à de Magalhães) durou três meses e 20 dias, batendo Urdaneta, que regressou no San Pedro cerca de dois meses depois.

Recebidos como heróis, pois conseguiram o equivalente à volta do Atlântico, a tripulação do San Lucas abrira a rota dos galeões de Manila, que durante séculos compraram especiarias e sedas e porcelanas da China, com quantidades épicas de prata do México e de Potosí.

As honrarias acabaram logo depois da chegada de Urdaneta, a 1 de outubro de 1565, incrédulo ao saber que o pequeno patacho tinha chegado primeiro, trazendo seda, porcelana e canela do sudoeste asiático. A 7 de novembro, o representante legal de Legazpi processa Arellano e Martim por deserção e traição, ao abandonarem a frota em dezembro de 1564. Inocentes, mas presos temporariamente, a fidalguia de Arellano permitiu-lhe continuar a reivindicar benesses pela torna-viagem; já um destino bem diferente esperava Martim. Organizava-se uma nova expedição de apoio a Legazpi, que ficara nas Filipinas, e Martim, apesar do receio de ser enforcado por Legazpi, foi convencido, com enorme quantidade de dinheiro, a comprar um navio grande e contratar a sua tripulação. O piloto e companhia, boémios, esbanjaram os fundos, escreveu Borja, e Martim foi preso por defraudar o tesouro público. Saiu da prisão apenas na condição de ser o piloto-mor do San Jerónimo, sob o comando de Sánchez Pericón, que levava a ordem final secreta dos tribunais para Legazpi: enforcar Martim ao chegar às Filipinas! O "segredo" logo chegou aos ouvidos do piloto, agora em missão de sobrevivência e vingança.

O San Jerónimo saiu de Acapulco a 1 de maio de 1566. A tripulação não gostava de Pericón e Lope Martim tinha de o eliminar para salvar a sua própria vida, começando a conspiração ao ameaçar matar o precioso cavalo do comandante, que bebia água por 20 homens. A 25 de Maio o cavalo estava morto e nove dias depois Pericón e o seu filho morriam também às mãos dos amotinados, liderados pelo sargento Ortiz de Mosquera, agora no comando do galeão que, mesmo assim, queria fazer chegar às Filipinas. O xadrez era outro e Mosquera mais difícil de eliminar, mas Martim, em menos de três semanas, urdiu novo motim. A 21 de junho, Mosquera foi acorrentado e atirado vivo ao mar por Martim, ironicamente sob a acusação de ter matado Pericón.

Martim, agora no comando, poderia ir com a tripulação onde as mercadorias os fizessem mais ricos. A partir de julho a sua "sorte" começou, porém, a mudar. Aproximando-se perigosamente do atol de Ujelang (o mais ocidental das Ilhas Marshall), o galeão roçou nos corais e ancorou numa lagoa interior. Martim percebeu que era o momento de contar espingardas, entre os seus amotinados, os ainda leais a Mosquera ou à Coroa Espanhola, e muitos indecisos. Mandou todos os homens para terra, para carenar o galeão, levando com ele também as velas principais, mapas e bússolas. Martim ganhou a confiança de mais alguns homens, mas, liderados pelo contramestre (que fora leal a Mosquera) e pelo capelão, outros rebelaram-se e tentaram fugir com o galeão, com muitos a serem chamados para bordo, nadando da lagoa para o galeão no caos gerado. Os rebeldes lideravam a situação, mas deixaram precipitadamente amigos e inimigos em terra e o San Jerónimo não conseguiu sair da lagoa com poucas velas a bordo. Sem domínio total, os diferentes grupos tiveram de negociar. Martim devolveu as velas e instrumentos ao galeão e recebeu comida em troca para ele e mais 26 homens, entre eles o português João Eanes, amigo íntimo de Martim e contramestre do San Lucas. Por fim, a 21 de julho, o galeão saía do atol, encontrando Legazpi, a 15 de outubro, na recém-fundada colónia espanhola de Cebú.

Abandonado nas Ilhas Marshall, nada mais se soube de concreto sobre Martim. Tendo comida e água, armas e vasta experiência marítima, há indícios de que Martim terá sobrevivido após alguma visita dos ilhéus vizinhos nos seus pequenos barcos.

Pendurado em cordas na proa dos seus navios, a rasar recifes e baixios, Lope Martim de Lagos ainda deve andar hoje a desafiar a morte pelas ilhas do Pacífico...

Investigador de História, vive nos Estados Unidos

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