Aopinião publicada tem ultimamente dado a conhecer alguns indivíduos que se definem a si próprios como "liberais". Não sabemos ainda se eles constituem um movimento de opinião ou apenas uma colecção de vozes dispersas. Há quem viva num pânico medonho de a primeira hipótese se verificar - quem sabe se não estarão já a pensar entrar na clandestinidade e organizar um movimento de guerrilha para quando a praga asquerosa tomar o poder. Para além de outros menos agradáveis, um dos argumentos infalíveis deste grupo de assustadiços é o de que o liberalismo não se adequa a Portugal. Como poderiam as ideias liberais medrar num país tão cheio de funcionários públicos? Para eles, o liberalismo pura e simplesmente não faria parte das tradições portuguesas. Detesto soar a paternalista, mas talvez fosse altura de desempoeirar os livros de História portuguesa..A verdade é que não há tradição política que em Portugal seja mais sólida e bem sucedida do que o liberalismo. Que ninguém saiba já que as suas categorias espontâneas são liberais acaba por ser a melhor homenagem que se poderia fazer a essa tradição. O liberalismo foi instaurado em Portugal entre 1820 e 1834 e nunca mais de cá saiu. O liberalismo consolidado (de 1834 em diante) criou o código político português contemporâneo. Muita gente procurou destruí-lo, mas sem grande êxito. No máximo ter-se-á conseguido desvirtuá-lo. O século XX português é, precisamente, uma sucessão desses desvirtuamentos. Mas apesar de tudo a matriz liberal sobreviveu. Foram os liberais que criaram a propriedade privada moderna (contra os estranhos estatutos de posse do Antigo Regime), que redigiram as primeiras constituições, que criaram a igualdade dos indivíduos perante a lei, que criaram o hábito das eleições, que criaram a liberdade de opinião e de associação política. Mais, e mais engraçado, foram os liberais que criaram o Estado..Os regimes portugueses mais liberticidas, como a I República e o Estado Novo, nunca dispensaram o formalismo liberal, nem muitas das bases reais do liberalismo. A I República manteve intacto esse formalismo, que depois tratou de desmentir na prática: restringiu o direito de voto a níveis baixíssimos (mais baixos mesmo do que no Estado Novo), proibiu partidos "monárquicos" (uma designação bastante elástica), limitou o exercício consequente da opinião política, criou mecanismos eleitorais que excluíam permanentemente da vitória partidos diferentes do Partido Republicano Português, praticou a fraude eleitoral e a intimidação de rua. Mas sempre apoiada na ficção segundo a qual se estava finalmente a cumprir o verdadeiro desígnio liberal..Também o Estado Novo não prescindiu de se basear numa Constituição que, de resto, era quase impecável em termos de liberdade civil, religiosa e política. A Constituição de 1933 reconhecia as liberdades de expressão e associação. Depois enviava para a legislação ordinária a definição dos seus limites. Era aí que apareciam as drásticas restrições que fizeram do Estado Novo o regime autoritário que foi. No domínio dos crimes políticos, reinava a violência e o arbítrio, mas na esfera legal comum, tanto civil como criminal, foram preservados os princípios liberais. Nada como na URSS sua contemporânea, onde não existia separação entre direito civil e criminal e onde, na realidade, todos os crimes eram políticos, porque sempre praticados contra o Estado. Mesmo se tivesse poucas intenções de os respeitar e mesmo limitando-os severamente, o Estado Novo preservou tanto o princípio eleitoral como o parlamentar - em 1972, o sociólogo americano Phillipe Schmitter manifestaria o seu espanto com o facto de Portugal ter sido o país da Europa ocidental onde houvera mais eleições desde os anos 30. O ruído e a prática antiliberais do Estado Novo eram muitos, mas apesar de tudo o regime de-senvolveu uma espécie de hipocrisia liberal: segundo dava a entender, não é que quisesse exactamente coarctar as liberdades, era o estado do mundo que a isso o obrigava. Nas famosas entrevistas a António Ferro, Salazar justificou a censura e a tortura como algo que, pesarosamente, fora obrigado a adoptar. Como se o princípio normal da sociedade fosse o das liberdades, que apenas as circunstâncias não permitiam cumprir, porque umas quantas "ervas daninhas" queriam destruir o País..Também em 1975 se voltou a tentar superar o liberalismo, e de novo se fracassou, tendo-se conseguido apenas desvirtuá-lo com um enxerto de socialismo. É nesse legado que ainda vivemos. Se não abuso ao falar por todos, o que os actuais liberais portugueses querem é recuperar a nossa tradição liberal contra os diversos desvirtuamentos introduzidos ao longo do século XX. Querem preservar as liberdades civis e políticas como existem, acres- centando-lhes um pouco mais de pluralismo político e liberdade económica. É pouco? Talvez, mas pelas reacções que por aí se têm visto, até parece que é o fim do mundo.