No início do século XVIII, Inglaterra rendia-se à verve daquele que se apresentava como o primeiro nativo da Formosa (Taiwan), a visitar a Europa e a aqui deixar testemunho da ilha asiática onde nascera. George Psalmanazar, nado em 1679, gabava-se da sua fluência em latim, que afirmava dominar desde os 8 anos. Fundando o seu discurso em relatos de missionários na Ásia Oriental, Psalmanazar viajara por França, Itália e Países Baixos para, finalmente, aportar às Ilhas Britânicas. Aí, já se apresentava como um natural da Formosa e afirmava-se um pagão convertido ao anglicanismo. Face ao entusiasmo dos seus relatos, nomeadamente em círculos literários, Psalmanazar publicou em 1704, a sua obra inaugural, An Historical and Geographical Description of Formosa, an Island subject to the Emperor of Japan. O relato fornecia detalhadas descrições da história, geografia e modos de vida na ilha no Oceano Pacífico, cuja capital seria Xternetsa; narrativa rica em relatos sobre canibalismo, poligamia e sacrifícios em massa, em breve traduzida para o francês e alemão..Na realidade, o texto de Psalmanazar não passava de uma miscelânea de fontes, nomeadamente relatos das civilizações Inca e Azteca do Novo Mundo. A obra, tal como a vida do seu autor, nascido no sul de França, era um embuste. Um logro que, em 2005, forjou algumas das páginas do livro do escritor islandês Magnus Magnusson..Em Fakers, Forgers and Phoneys - Famous Scams and Scamps, o autor debruça-se sobre 16 imposturas dos últimos séculos. Entre elas, a de duas crianças do início da centúria de XX que engendraram, no ambiente bucólico de um jardim inglês, um logro a envolver fadas, fotografia e uma das figuras mais proeminentes da sociedade inglesa da época, Arthur Conan Doyle. O escritor e médico escocês, "pai" do detetive ficcionado Sherlock Holmes, afirmava-se um confesso apaixonado pelo Espiritualismo..O episódio das Fadas de Cottingley, localidade em Yorkshire, iniciado em 1917, prolongar-se-ia nos 100 anos seguintes à boleia de meios como a fotografia, a imprensa, a televisão e o cinema. Uma revelação de fenómenos psíquicos que acolheu um misto de ceticismo e aceitação por parte do público e a atenção crítica da imprensa.."As Fadas de Cottingley é uma das histórias mais duradouras do passado da fotografia. Até hoje, a narrativa está envolta em especulação e mistério", sublinha a página online do National Science and Media Museum, em Bradford, Reino Unido, instituição que acolhe no seu acervo os artefactos envolvidos no episódio em Cottingley..No verão de 1917, Elsie Wright, de 16 anos e a sua prima, Frances Griffith, de 9 anos, embrenharam-se no bosque, portadoras de uma máquina fotográfica, para dali regressarem em euforia..Fotógrafo amador, Arthur Wright, pai da jovem Elsie, revelou as fotos na câmara escura de sua casa. Da penumbra emergiu, impressa, na placa fotográfica, a imagem de uma dança onírica ensaiada por um quarteto de fadas a rodear Frances. Na tarde estival nascia a história das Fadas de Cottingley..Nos anos seguintes, suceder-se-iam fotografias de fadas e gnomos, captadas nos remansos do bosque. Arthur mostrava-se cético, a esposa, Polly, revelava-se crente na magia crescente do seu jardim. Um entusiasmo que encaminhou Polly para uma das sessões da Sociedade Teosófica de Bradford..Na sua essência, a Teosofia reúne um conjunto de doutrinas filosóficas, místicas, ocultistas na procura do conhecimento dos mistérios da vida e da natureza, da origem e do propósito do universo. "A mãe de Wright visitou a Sociedade Teosófica para assistir a uma palestra sobre a vida das fadas, onde apresentou as duas fotografias. E assim começou mais de um século de debate sobre a existência de fadas", sublinha a fonte já referida..As fotografias das primas Elsie e Frances foram, possivelmente, exibidas posteriormente na conferência da Sociedade Teosófica de Harrogate, onde receberam a confirmação de genuínas e a atenção de Edward L. Gardner, escritor e teosófico. Ao olhar para as imagens, Gardner acreditou que um novo ciclo de evolução da sociedade estaria em movimento. Assim o detalhou no seu livro de The Cottingley Fairies and Their Sequel..Na época, Arthur Conan Doyle, fascinado com as fotos que expunham aos seus olhos um mundo de fadas contactou Gardner. O duo iniciava uma parceria que se manteria nos anos seguintes. Conan Doyle traduziu na sua escrita o novo mundo desvendado num jardim do Yorkshire..As páginas da Strand Magazine de dezembro de 1920 exultavam com o artigo escrito pelo escocês. Fairies Photographed expunha em sete páginas a descoberta das fadas e ulterior confirmação da veracidade das fotografias. A imprensa da época reagiu com perplexidade. "Para a verdadeira explicação dessas fotografias de fadas, o que se deseja não é o conhecimento dos fenómenos ocultos, mas o conhecimento das crianças", escrevia o australiano jornal Truth..Numa outra esfera da realidade, Gardner enviara as impressões e os negativos originais à verificação do especialista em fotografia Harold Snelling. "Os dois negativos são fotografias inteiramente genuínas, não-falsificadas (...) nenhum vestígio de trabalho de estúdio a envolver modelos de cartão", referiu Snelling, citado na obra Fakers, Forgers and Phoneys..Em paralelo, Arthur Conan Doyle enviou as fotografias à apreciação de especialistas da norte-americana Kodak. Uma segunda opinião que afirmou: "As fotografias não revelam sinais de falsificação, embora isso não possa ser considerado uma evidência conclusiva de que são fotos de fadas." A empresa recusou-se a emitir um certificado de autenticidade. Também o químico Oliver Lodge se mostrou descrente quanto à veracidade das imagens. O penteado das fadas era "distintamente parisiense", refere Magnus Magnusson no seu livro ao citar Lodge..Até 1920, cinco fotografias com fadas saíram dos jardins da família Wright, pretexto para um segundo e terceiro artigos na Strand Magazine da lavra de Arthur Conan Doyle e o livro de 1922, The Coming of the Fairies. Com o ano 1921, o entusiasmo em torno das Fadas de Cottingley esmoreceu..Quatro décadas depois, em 1966, o jornal britânico Daily Express entrevistou a então sexagenária Elsie Wright que deixou em aberto a possibilidade de 50 anos antes ter fotografado os seus pensamentos. A história ressuscitava para se submeter ao crivo dos media nas décadas subsequentes. Em 1983, Elsie e Frances admitiam na revista The Unexplained a falsificação das imagens. As fadas dançantes haviam saltitado do livro infantil Princess Mary"s Gift Book, de 1914. As pequenas criaturas das fábulas não passavam de recortes de cartão. A história de Elsie e Frances chegaria ao cinema em 1997 no filme Fairy Tale: A True Story..Dos idos de 1920, ficariam as palavras do criador de Sherlock Holmes: "O reconhecimento da existência delas [fadas] vai sobressaltar a mente material do século XX, resgatando-a às suas rotinas pesadas, e irá fazê-la admitir que existe um encanto e mistério na vida. Ao descobrir isso, o mundo não vai achar tão difícil aceitar essa mensagem espiritual, apoiada nos factos físicos que foram colocados à sua frente". Até ao final das suas vidas (Elsie faleceu em 1988, Frances em 1986) as duas primas sustentaram a veracidade da quinta foto captada no verão de 1920, intitulada Fadas e o Seu Banho de Sol..dnot@dn.pt