Na última edição do festival Olhares do Mediterrâneo, em Lisboa, houve um documentário vencedor - Room Without a View, de Roser Corella - que mostrava como na sociedade libanesa se consente uma forma de escravatura moderna na qual jovens mulheres africanas e asiáticas são contratadas dentro de um sistema, a kafala, que as torna praticamente prisioneiras dos seus empregadores, reduzidas ao esforço diário de limpeza da casa e quase sem contacto com a respetiva família. Essa dura realidade surge, sem dramatismos mas com eficácia demonstrativa, em Dirty Difficult Dangerous - Sujo Difícil Perigoso através da protagonista feminina, Mehdia, uma imigrante etíope que trabalha como empregada doméstica, ocupando-se sobretudo de um velho coronel aposentado que tem acessos de loucura noturna com laivos cinéfilos: dá-lhe para encarnar o Nosferatu de Murnau e atirar-se ao pescoço da pobre rapariga. É mais divertido do que parece....Durante o dia, nos seus passeios higiénicos com o patrão, ela fica atenta ao mantra "Ferro, cobre, baterias!" que se ouve na rua, dito pelo amante, Ahmed, um refugiado sírio que vai sobrevivendo em Beirute como sucateiro, à mercê de alguma bondade alheia inesperada, como aquela do dono da mercearia que lhe oferece uma laranja. Em pequenas escapadelas, e escondidos dos olhares exteriores, eles vivem o romance como uma luz alternativa nas suas vidas miseráveis, dando-se também o caso, neste cenário pouco auspicioso, de o corpo de Ahmed estar a sofrer uma mudança estranha e progressiva. Algo relacionado com a memória de uma bomba em Alepo, que o transforma lentamente num homem de lata. Ou quase..Ora, é nestes detalhes de fantasia e aventura romântica, tão cheios de uma verdade profunda, que o filme do libanês Wissam Charaf começa por surpreender, deitando por terra aquele preconceito de que o cinema de olhar social tem de ser uma desgraça pegada, assente num realismo maciço, a fim de tocar consciências. Entenda-se: Dirty Difficult Dangerous, sendo inequivocamente cinema político, não vem pregar sermões a ninguém nem fazer de um "tema" a justificação da sua existência. É antes um filme que se ergue pelo próprio charme da sua conceção, com um trabalho de cores almodovariano e uma falsa leveza de tom que permitem sorrir perante a coragem desafetada destes amantes sem recursos, que a certa altura ousam ter esperança num futuro que por princípio lhes está vedado..Não apenas por este olhar gentil sobre as personagens desamparadas da migração, mas em particular pela comédia discreta que se desenha através de um estilo seguro, há aqui uma verve à la Kaurismäki - e também pozinhos de Chaplin, se pensarmos no par romântico de Tempos Modernos - que homenageia, sem alarido, o poder simples do dispositivo cinematográfico. Um modo de encenar a realidade segundo a lógica da candura e do foco humano, que não busca a lágrima fácil. A lente modesta de Wissam Charaf atravessa o caos da vida num registo de graciosidade só compatível com a magia dúbia do grande ecrã.