O novo romance é o sexo casual

Subitamente, uma invasão de amizades coloridas em Hollywood. Dos contos de fadas para namorados passaram para o sexo. <i>Amor, Estúpido e Louco</i> estreia para a semana e é o último de uma leva de filmes que abordam as relações com sexo sem compromisso. O cinema americano está a ficar menos moralista?
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Chegámos a 2011 e os estúdios americanos começaram a romper o espectro da comédia romântica. Rasgaram uma fórmula. Aqueles filmes bem arranjadinhos, sempre cheios de mensagens humanas. As comediazinhas feitas para servir como complemento ao serão de um jovem casal numa sexta-feira à noite num cinema de centro comercial. E o abuso era muito: os filmes estavam a ficar fotocópias uns dos outros. Comédias românticas que sistematicamente promoviam a figura do príncipe encantado e do «felizes para sempre». Mesmo aquelas que a dada altura saíam da casca acabavam por recorrer ao modus operandi da fórmula: rapaz conhece rapariga, dificuldade, dificuldade resolvida e «felizes para sempre». Contos de fadas para fazer sonhar um público feminino capaz de arrastar os namorados. Só que o público começou a cansar-se. Cameron Diaz com Ashton Kucther já não convencia, Katherine Heigl e os seus tiques de princesa que ainda acredita no amor ou todas as pós-Meg Ryan deste mundo já não constituíam propriamente novidade. Havia que mudar. Filmes recentes como Padrinho... mas Pouco, com Patrick Dempsey, ou Uns Sogros de Fugir, com a dupla batida nestas coisas Vince Vaughn e Reese Whiterspoon, como que foram o toque de alarme para os estúdios. O resultados de bilheteira mornos proclamavam que o público já não reagia quando via o poster da nova comédia romântica com Drew Barrymore. E a geração que cresceu com as comédias românticas açucaradas de Meg Ryan deixou de ir ao cinema.

De repente, percebeu-se que os argumentos tinham de ter menos pozinhos mágicos de romantismo. Tinham de estar mais próximos dos paradigmas das novas relações. Em que os casais de vinte e tal ou os trintões urbanos se debatem com a alienação nos sms, no Facebook e na obsessão do carreirismo. E... o sexo sem compromisso. O primeiro com esse nome precisamente, Sexo sem Compromisso, de Ivan Reitman, estreou no começo do ano, em pleno Dia dos Namorados. Depois, neste Verão, foi a vez de Amigos Coloridos, de Will Gluck, que em Portugal, graças a um boca-a-boca positivo, fez subir o número de espectadores da primeira para a segunda semana. Agora, para o fim do Verão, estreia no dia 18 Amor, Estúpido e Louco, de Glenn Ficarra e John Requa.

Os três têm em comum o tema do sexo casual. De uma temática susceptivelmente transgressora encontrou-se maneira de se embrulhar três guiões dentro do manual da comédia romântica hollywoodesca. A questão é se a chamada ousadia do pressuposto contém, em última instância, a caução dos valores morais. Ou se, como nos anos 1970, há um olhar desafiador sobre a matéria das relações entre homens e mulheres. Em Amigos Coloridos, por exemplo, há uma citação a Bob & Carol & Ted & Alice, comédia sexual de 1969, porventura um dos títulos precursores de um cinema americano que fundia o humor e o comentário social.

Se olharmos bem para Sexo sem Compromisso, em que as estrelas eram Natalie Portman e Ashton Kutcher, percebemos que, no fundo, não se trata de uma mudança de mentalidade do chavão da comédia romântica. O filme é bem mais cor-de-rosa do que o seu tema. A história de dois amigos: uma médica e um argumentista falhado que decidem não ter uma relação e continuar a ter sexo... sem compromisso. A velha questão dos amigos que apenas vão para a cama para aliviar uma necessidade física. No começo, prometem nunca, mas nunca se apaixonarem e até, pelo meio, consentem outros parceiros. Claro, está mesmo a ver-se: sem darem por isso estão viciados um no outro. Moral da história: enquanto pensam que apenas estão a ser carnais, estão afinal a fazer amor, a cimentar uma paixão comum.

Nesse sentido, a tese de Ivan Reitman, o veterano realizador, não podia ser mais moralista: o sexo casual não existe - sempre que um casal vai para a cama há uma factura emocional a ser paga. No clímax desta comédia com muito pouco humor as personagens estão magoadas. Ela que pensava que poderia ter uma relação apenas física está de coração tomado e ele idem aspas. O que é verdadeiramente curioso no filme é que fica uma espécie de sugestão de que todas as grandes histórias de amor só podem acontecer se houver uma forte atracção física. Quem não tem química debaixo dos lençóis não se safa. E entre este casal, uma noite de sexo meio acidental - ele estava com os copos - foi quanto bastou. Sexo sem Compromisso é tudo menos libertino e causa aquela estranheza pelo facto de Ashton Kutcher ligar muito mal com Natalie Portman. Ele é demasiado ligeiro, ela é demasiado intensa. E nem vamos pelo facto de a vencedora do Óscar deste ano quase lhe ficar pelo joelho.

Quanto a Amigos Coloridos, de Will Gluck, ainda em exibição, a história é a mesma. Nos dias de hoje, um editor de arte e uma caça-talentos tornam-se melhores amigos numa Nova Iorque de todas as solidões. Mas há um dia em que ambos olham um para o outro e percebem que os seus corpos estão a precisar de satisfação sexual. Então, fazem um pacto: dormem um com o outro mas depois do sexo vão continuar amigos. E isso acontece, uma vez, duas vezes... e nunca mais acaba. Na cabeça deles, continuam a ser apenas amigos. Mesmo no meio das relações sexuais falam de disparates. O humor do filme vem mesmo desse constrangimento: às duas por três, os gags são todos sobre a intimidade: o que acontece por exemplo quando um homem pára a meio para ir à casa de banho. Sim, tem piada moderada e aquela tarifa de humor para adultos.

O problema é que Amigos Coloridos não deixa de vir embrulhado com todos os requisitos de comédia romântica, por muito que a personagem de Mila Kunis brinque com as comédias românticas que tanto consome (Katherine Heigl leva por tabela...). Entre todos aqueles diálogos que parecem ser oleados segundo a lógica das sitcoms televisivas, está lá a habitual historieta romântica sobre dois inadaptados que se complementam e, afinal, estão apaixonadíssimos, bem ao gosto do grande público. Quer a personagem de Mila Kunis, que no começo parecia uma mulher dos anos 2000 com todo o substrato pós-femininista, quer a personagem de Justin Timberlake, coram com a sua «pouca-vergonha».

No fim, acham que ir para a cama sem rede de relação não é possível. E o que eles querem é beijos românticos em público ao som de musiquinha pop. Qual benefícios do melhor dos dois mundos (em inglês, a expressão que se usa para esta situação é friends with benefits), qual ter sexo e evitar as chatices do rotina dos compromissos sérios. Eles querem é assentar! Não, Amigos Coloridos não é uma tese subversiva que propaga a ideia de que a atracção sexual é mais elevada quando não estamos numa relação. Antes pelo contrário, este guião foi adornado para servir um filme padrão de grande estúdio. A única diferença é que parte de uma premissa que à partida coloca questões. Claro que muitos vão identificar-se com a individualidade deste casal, ambos focados imensamente na carreira e sem estofo emocional para assumir o coração aberto. Amigos Coloridos, não se iludam, é uma comédia romântica bem tradicional.

O mais interessante desta leva é Amor, Estúpido e Louco, da dupla Glenn Ficarra e John Requa, senhores que nos tinham trazido uma comédia algo polémica em que Jim Carrey se apaixonava por Ewan McGregor, Eu Amo-te Phillip Morris. Mesmo sem ser nenhuma revolução, tem uma frescura interessante e parece querer desbravar caminhos nessa tal mudança de atitude. O ponto central da intriga é a separação de um casal de quarentões: Julianne Moore e Steve Carrell.

Ele tenta tornar-se um ladies man e ela tenta perceber se vale a pena ter uma relação com um colega com quem traiu o marido. Pelo meio, há um don juan profissional, interpretado com galhardia por Ryan Gosling, especialista no ensino de todas as manobras do engate de uma noite. E apesar de não ter experiência em conquistas em discotecas, o nosso divorciado torna-se um implacável sedutor e um campeão do sexo de uma só noite. Ao fim ao cabo, ele percebe que nunca deixará de estar apaixonado pela mulher que o traiu. E como os tiros (no cinema) saem sempre pela culatra, o professor de engate deixa a vida de sexo casual e apaixona-se pela primeira vez.

Amor, Estúpido e Louco goza com a improbabilidade de ver um respeitável homem de família nas andanças da caça à mulher de uma só noite. Está feito com um humor maduro e sob uma capa de descontracção libertina consegue aflorar temas como a solidão pós-divórcio ou a inconsequência do sexo sem compromisso na sua versão mais pura e dura. Por exemplo, uma das vítimas de Steve Carrell é uma simpática professora de liceu encalhada que fica magoada quando nunca recebe o telefonema após uma primeira noite de sexo. Ou seja, Ficarra e Requa, vindos do cinema independente, tocam em temas quase tabu em Hollywood e chegam mesmo a ensaiar uma versão melancólica do fracasso das relações modernas (aqui até os teenagers têm problemas amorosos).

Este sim é o filme que sem ser um manifesto do sexo casual é a bandeira de uma nova via da comédia americana. Honesto e sem medo de pisar o risco (quando é picante é realmente picante). Os homens vão rever-se neste conto sobre homens temporariamente sós e com cabeças no ar. Mas as mulheres também piscam o olho à personagem de Emma Stone, uma atinada advogada que percebe que não tem jeito para sexo sem compromisso e que descobre também que o tal príncipe encantado pode chegar numa one night stand.

Para breve está previsto A Good Old Fashion Orgy (em português talvez Uma Orgia à Moda Antiga), de Peter Huyck e Alex Gregory, com Jason Sudeikis, um dos novos valores da comédia americana, em que um grupo de amigos na casa dos trinta ensaia uma noite de orgia para expurgar os recalcamentos de uma juventude masculinizada e, por conseguinte, grunha. Uma noite com ordem para libertinagem extrema. Apesar da coragem da proposta, sente-se que A Good Old Fashion Orgy talvez esteja mais próximo do movimento de comédias como A Ressaca, em que o humor escatológico pontifica. Seja como for, mais um filme com sexo casual e os chamados «adultos mal comportados».

_Sexo sem Compromisso (No Strings Attached), 2011, de Ivan Reitman, com Ashton Kutcher, Natalie Portman e Kevin Kline. Nos clubes de vídeo Meo e Zon.

_Amigos Coloridos (Friends with Benefits), 2011, de Will Gluck, com Mila Kunis, Justin Timberlake, Patricia Clark. Em exibição nos cinemas.

_Amor, Estúpido e Louco (Crazy Stupid Love), 2011, de John Requa e Glenn Ficarra, com Steve Carrell, Julianne Moore e Ryan Gosling. Em exibição nos cinemas a partir de 22 de Setembro.

_A Good Old Fashioned Orgy, 2011, de Peter Huyck e Alex Gregory, com Jason Sudeikis, Leslie Bibb e Tayler Labine. Em breve, sem estreia agendada.

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