O nosso mundo 'Blade Runner'

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O mundo está a ficar cada vez mais parecido com a representação de Los Angeles no filme Blade Runner, de Riddley Scott. Três pistas:

1. Poluição.O visitante de megacidades como Deli, Xangai ou São Paulo não deixou por certo de tomar consciência de uma camada de smog envolvendo os arranha-céus. Estas cidades gigantescas, densamente povoadas, envoltas em fumo e sob chuva constante, remetem para o magistral cenário criado por Ridley Scott para o filme Blade Runner, um clássico nos géneros cyberpunk e neo-noir. O filme, uma peça de ficção científica, está a tornar-se cada vez mais verdadeiro. Comecemos pelo clima: as grandes cidades "criam" a sua própria meteorologia. A conjugação de calor e emissões poluentes cruzam-se com o regime dos ventos e criam um ambiente mais quente, mais húmido e mais chuvoso.

2.Animais de estimação artificiais. Outra característica marcante do filme é a ausência de relação com o ambiente natural. O filme sugere a extinção das espécies animais, substituídas por animais artificiais muito apreciados e valorizados - lembranças de um passado inexistente. Trata-se pois de uma encenação da sociedade desnaturalizada para que caminhamos desde a emergência da era industrial. Se a ideia de animais de estimação artificiais remetia até aqui para criaturas inconsequentes como os desenxabidos tamagochi, um salto evolutivo acaba de ser concretizado. A Bio-Genica, uma empresa canadiana, acaba de lançar o conceito de genpets ("genetic pets"), pequenos robôs em estado de hibernação, os quais, uma vez acordados, podem substituir cães e gatos por um período de vida de um a três anos. Os animais imitam mamíferos e custam entre 560 e 760 euros.

3. Ética para robôs. Isaac Asimov foi o primeiro a pensar nas questões éticas trazidas pela robotização. A palavra robot foi criada no século XX pelo escritor Karel Kapec. Em checo, o termo significa trabalho forçado. Num livro de 1950, Eu, Robot (edição portuguesa nas Publicações Europa-América), Isaac Asimov apresentou as três leis da robótica:

- Uma máquina nunca deve magoar um humano (primeira lei).

- Uma máquina deve sempre seguir as ordens do humano (segunda lei).

- Uma máquina deve aprender a proteger-se desde que isso não entre em conflito com a regra anterior (terceira lei).

Na Coreia do Sul foi criado um código de ética para robôs. Tratando-se de uma das sociedades tecnologicamente mais avançadas do mundo, é também das primeiras a procurar resposta a questões como: pode alguém preferir casar com um robô em vez de com outra pessoa? Existe o risco de se ficar viciado em algum robô?

Mais que a coincidência, estes acontecimentos sugerem que a mudança não pára e que a ficção de ontem é a realidade de amanhã. Por isso, as empresas que não constroem o futuro serão eliminadas de um futuro criado pelos outros. Nem essa dimensão escapa a Blade Runner, um filme urbano repleto de néones e de publicidade futurista. Ironicamente, a maioria das empresas desta antevisão futurista faz já parte do passado. Algumas, como a Pan Am, chegaram a ser ícones do seu tempo. A extinção das megacorporações do passado é um aviso sobre os perigos do sucesso. Quanto mais alto é o voo, maior é a queda, como explicou Danny Miller no seu livro sobre o paradoxo de Ícaro - a síndrome que ataca as empresas muito bem sucedidas. Encantadas com o seu êxito, elas tornam-se mais repetitivas e menos capazes de aprender. Insistem nas receitas que conduziram à glória e tornam-se incapazes de participar activamente na destruição criativa do presente.

Em 2019, a Pan Am apenas existe nesta ficção, o que mostra que gerir significa cuidar dos resultados do presente, mas também proceder à invenção do futuro enquanto tal tarefa não parece ser estritamente essencial para a sobrevivência.

Para espreitar o futuro:

Blade Runner, de Riddley Scott, EUA, 1982.

Miller, D. (1990). The Icarus Paradox: How Exceptional Companies Bring about Their Own Fall. New York: HarperCollins.

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