O nosso homem em Hollywood
Numa tarde de sol de inverno, Joaquim de Almeida faz um chá na sua casa de Sintra. Mais do que nunca, é um ator tranquilo. Já se habituou às incertezas do mundo da sétima arte: em poucas semanas, teve a notícia de que as suas últimas semanas de treino para um papel de marinheiro na produção de Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso, a partir da obra de Jorge Amado, tinham sido para o boneco, com o adiamento do filme, e a sua contrária, ou seja, que o filme iria para a frente. Primeiro ficou a pensar que todas as manhãs gastas a decorar o longo texto, a barba crescida, não tinham sido para nada. Depois, o alívio de saber que afinal tudo vai para a frente em Março. «A vida de ator é isto!»
Esse vai-não-vai tem sido a constante numa carreira de quase uma centena de filmes. O nosso Quim de Hollywood - assim lhe chamou, com sarcasmo, João César Monteiro - é dos atores do cinema internacional com mais tarimba. Está habituado a atribulações. É também dos atores mais acostumados a uma câmara. São décadas sempre com uma câmara em cima ou com um guião a chegar à última hora...Não se queixa. E chega mais uma notícia que não é nada má. Nos EUA está agora em grande destaque: é a estrela convidada para um episódio de O Mentalista, em Portugal ainda na terceira temporada. Hollywood nunca se esquece dele, por muito que as suas viagens o tragam para Portugal, Brasil e, até, França.
É no paraíso da sua moradia em Sintra que retempera energias e passa tempo com a sua família, os seus filhos. Quando está em Portugal, o lar é, na verdadeira aceção da palavra, um refúgio. «Uma das razões por que troquei Lisboa por Sintra foram as festas. Quando vivia na Lapa, ao lado do Miguel Sousa Tavares, era demasiado! O pessoal invadia-me a casa, ao ponto de me ir deitar e continuarem lá em cima a curtir. Acordava e tinha pessoas a dormir na sala... Fartei-me disso!», conta. Em Sintra, ganhou o silêncio. De ouro. Há também um cheiro a verde. Intenso. Sintra e o bosque em frente ao seu portão dão-lhe a paz certa para preparar os seus trabalhos. Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso foi ali preparado. Todas as manhãs, bem cedo, sem distrações, e com o calor precioso da salamandra. Mas nem o amor a Sintra lhe dá ambições políticas, nem sonhos de um dia ser presidente da Câmara... Sintra não é Carmel (pequena localidade nos EUA que foi governada por Clint Eastwood). Além do mais, é amigo do peito de Fernando Seara.
Talvez por estar mais tranquilo há quem diga que Joaquim está com um charme mais polido. Ainda é um sedutor? É só fama? «Claro que ainda seduzo, mas agora calham-me mulheres mais velhas. É como tudo na vida... também já não me atraem as mulheres mais novas... Mas estou muito mais calmo.» Numa altura em que se assume como solteiro, o ator não tem problemas nenhuns de falar sobre a sua fama de mulherengo. «As pessoas pensam isso porque fui casado duas vezes e vivi com a mãe da minha filha. Às vezes, apareço com namoradas... mas reparam nisso porque sou conhecido. Há tipos muito mais mulherengos do que eu! Quer dizer... gosto de mulheres?! Claro, mas ainda bem... E se não tive relações que duraram mais tempo também tem que ver com a minha profissão. Não ajuda, digamos... Quando se está a fazer um papel principal não há tempo para nada! Quanto mais namoros! Agora são 12 horas por dia cada filmagem.»
Fica a sensação de que o cinema o deixa cada vez mais cansado. «É verdade, já não vou para jovem», conta. Joaquim de Almeida já tem 55 anos e na série televisiva que acabou de fazer no Brasil, Rouge Brésil, produzida em parte pelo português Leonel Vieira, suou as estopinhas. A gravação foi feita num calor sufocante e o português interpretava um navegante colonizador do século xv. As roupas de época e uma armadura pesada ainda dificultaram mais a empreitada. O próprio protagonista, o sueco Stellan Skarsgärd, já veio a público dizer que as pessoas deviam ter mais consideração pelos colonizadores e não tanto pelos índios brasileiros que estavam nus... Piada à parte, o ator de Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres não se cansou de elogiar a personalidade de Joaquim. Rouge ainda não está com exibição calendarizada na televisão portuguesa nem está fora de questão uma eventual versão para cinema. Joaquim tem sina com o calor - deve ser do ar latino. A experiência mais dura de rodagem que teve foi no plateau de O Coração da Terra, rodado em Huelva também sob um calor abrasador.
Para já, Joaquim de Almeida tem confirmada, ainda que sem data de estreia em Portugal, a participação em Missing, nova série americana onde contracena com Ashley Judd. Para já, só rodou um episódio mas a sua personagem francesa, da secreta francesa, vai voltar a aparecer. «Gostei muito de trabalhar em Missing. Está muito bem escrito!», diz ao olhar para o seu enorme jardim. Sente-se que adora estar na tranquilidade do seu refúgio. A floresta que circunda a sua casa é um bálsamo que o fará querer sempre regressar. Em Santa Monica, onde vive em Los Angeles, abre a janela e tem o mar. Aqui, tem o sossego misterioso de Sintra e a proximidade com os seus filhos. Esta casa que o transformou num homem caseiro foi criada para estar com os filhos. Há tesouros assim e este homem sabe disso. Mas também sabe que há sempre um aeroporto à sua espera.
A vida entre Los Angeles e o resto do mundo pressupõe uma maratona de milhas. E este homem é um pouco um condenado a aeroportos - por escolha própria. «Por muito que isso das viagens canse, preocupo-me quando não tenho um aeroporto para estar em breve. É sinal de que não está a aparecer trabalho. Seja como for, isso da canseira dos aviões é algo para o qual já estou mentalizado! Foi até antes de uma viagem para Los Angeles que decidi deixar de fumar», diz.
Numa altura forte da sua carreira, depois do hype do seu vilão em Velocidade Furiosa 5, um dos maiores sucessos de bilheteira de 2011, Joaquim de Almeida gere a carreira. Em Hollywood há sempre a alternativa das propostas televisivas. E há sempre a tentação da Europa. Em Espanha, por exemplo, é uma figura pública. E o cinema português também o tenta. Foi em Portugal que conseguiu alguns dos seus melhores momentos. Elege os papéis em Retrato de Família, de Luís Galvão Teles, e Tentação, de Joaquim Leitão, como os seus preferidos. Agora, surpreendentemente, aceitou aparecer como guest star na novela da SIC, Rosa Fogo.
Joaquim de Almeida numa telenovela?! Sem preconceitos, diz ele. «Achei engraçado e como eram só dois dias de gravação na Argentina, decidi fazer... Aquelas cenas foram filmadas à cinema, com apenas uma câmara. Mas ninguém pode dizer que fiz uma telenovela! Caramba, foram só dois dias! Apesar de o meu nome estar diariamente no genérico, lembro que apenas apareci no primeiro episódio! E não pensem que aceitei isto para não parecer snob. Sinceramente, não gosto de fazer novelas. Aliás, se estivesse numa telenovela a sério, o meu cachet inflacionava o orçamento». E nem como espetador o apanham. «São todas um dramalhão pegado! Não sai da mesma coisa e é tudo muito interior. Quase não tem exteriores para não ficar caro. Não, não gosto, mesmo que compreenda que agora estão a ser feitas com maior qualidade. Até já ganhamos Emmys e tudo...Mas ganhar um Emmy numa novela portuguesa é um prémio que dispenso.»
Numa altura em que o efeito Daniela Ruah faz que muitos atores emigrem para os EUA, Joaquim assiste a esse fenómeno tranquilo. Ao contrário da atriz, recusa ter uma entourage de publicists. «Não preciso nada disso, isso é para meninas bonitinhas. Ela precisa porque é mulher e está a começar. Não tenho paciência para publicists. Sobre a Daniela acho mesmo porreiro ela estar a tentar uma carreira em Hollywood. Mas está lá como americana. Tem é de fazer mais trabalhos ao mesmo tempo que a série. É que depois de sete anos presa à série, é complicado. E cada vez mais vão surgir outras Danielas. Os atores em Portugal não se safam!»
Será o Brasil uma via também para os nossos artistas? A resposta não é tão líquida. O ator português queixa-se de que tudo está muito caro no país irmão e que, apesar de haver mais dinheiro, é preciso refrear a ilusão. «Não sei se, por exemplo, era capaz de lá viver, ainda que surgissem projetos giros de cinema. Sou sempre muito bem recebido pelos brasileiros. Mas um ator lá tem de fazer novela. Não sou um ator de telenovelas. Acho que o Ricardo Pereira está melhor lá a fazer novela do que cá, onde estaria também a fazer o mesmo. Pelo menos, deve ganhar melhor e não apanha a má onda da nossa crise.» Joaquim gosta do Rio de Janeiro. «É uma cidade muito mais civilizada do que dantes. Já não se sente aquele perigo de antigamente e as pessoas estão mais simpáticas. Depois do Velocidade Furiosa 5 não posso andar na rua, todos me reconhecem!»
O que muitos não sabem é que nessa milionária produção de Hollywood filmada no Rio, houve algum amadorismo. O guião foi enviado a Joaquim em inglês com indicação para ser ele a traduzir para português as suas falas e havia outros atores que interpretavam brasileiros que nem uma palavra de português falavam. Mesmo assim, o seu vilão tinha alguma credibilidade. Havia ali uma «sacanagem» genuinamente carioca. «Fui escolhido para ser este mau-da-fita brasileiro porque pensavam que os portugueses falam com o mesmo sotaque que os brasileiros...». O brutal sucesso de bilheteiras deste filme vai fazer que num futuro próximo venham mais propostas de projetos de grande estúdio, embora Joaquim reze a todos os santinhos que nem tudo sejam convites para ser mais um mauzão latino. «Queria poder fazer outro tipo de papéis! A minha vantagem é que não me limito só a fazer filmes em inglês! Houve anos em que fiz quatro filmes em línguas diferentes.» Um ator internacional é isto: filma em italiano, português de Camões e brasileiro, inglês, francês e castelhano. Da sua geração, no panorama mundial, é o único. E entre críticas positivas, negativas (há quem o chame de cabotino e comente a sua dicção difícil) e prémios em festivais internacionais, não tem efetivamente parado.
Para um futuro próximo, em Maio, tem na sua agenda novo desafio: interpretar um emigrante português em França em La Cage Doré, um filme francês sobre duas gerações de emigrantes portugueses. Rita Blanco é a protagonista confirmada e Joaquim confessa que está com muita vontade de fazer este filme. Cinema português para agora... é que nada. Num ano em que o governo fechou drasticamente o financiamento, Joaquim é polémico. «Já me deixei de me preocupar com o cinema português. Para quê estarem a lamentar-se? Acho muito mais interessante os produtores portugueses que se expandem lá para fora. Quando me dizem que temos prestígio no circuito dos festivais, rio-me: o cinema não vive de prestígio... Pergunto, as pessoas vão ver um filme só porque esteve num festival internacional? O público português só vê novelas. Fora dos festivaleiros, ninguém conhece o cinema português no estrangeiro. E há cineastas portugueses que em vez de estarem a preparar o próximo filme, vão passear pelo mundo fora nos festivais...»
Este tema abre a sua veia resmungona sobre a política portuguesa. No anterior governo nunca se fartou de lançar farpas aos governantes, e agora o seu discurso não suavizou. «É engraçado! Estamos numa crise e continua aí toda aquela gente que andou a roubar em anos anteriores. Os ex-políticos do Cavaco são do pior, foram os que mais roubaram neste país e continuam aí! Este país não vale a pena! Ninguém vai preso! São todos amigos uns dos outros - não há justiça que funcione. Por essas e por outras, nunca ponho o meu dinheiro em bancos portugueses.» Como cidadão americano, não abdica do direito ao voto. Nas últimas eleições apoiou e votou em Obama, este ano prepara-se para fazer o mesmo, embora se confesse algo desiludido com o seu primeiro mandato. «Ele devia ter mais tomates. No segundo mandato, como já não tem de ser reeleito, tem de demonstrar mais coragem e deixar de ser um tipo porreiro para os republicanos». Eis um ator português... e do mundo.
EXERCÍCIO DE MEMÓRIA
Momento mais insólito
«Estar a pôr a mão no rabo da Gal Gadot em Velocidade Furiosa 5 e o marido a ver...»
Pior experiência de plateau
«Robosapien Rebooted. Que estupidez estar a atuar com robots! Perguntei a mim mesmo o que estava ali a fazer.»
Primeiro beijo no cinema
«Foi à Désirée Nosbusch em Bom Dia Babilónia e meteu logo maminhas e o resto...»
A atriz com quem teve mais química
«Vitoria Abril em Sandino. As espanholas eram sempre menos chatas do que as francesas...»
Defeito de juventude
«Falta de paciência.»
Paixão vermelha
Benfiquista fanático, mesmo quando está em Los Angeles não perde um jogo pela parabólica. Joaquim de Almeida é presença assídua na Luz quando está em Portugal. Como treinador de bancada, garante estar satisfeito com a época presente: «Graças a Deus e a Angola, comprámos bons jogadores e está a correr bem! A época passada não correu tão bem pois um treinador depende muito da qualidade do seu plantel. Ter um plantel como este ajuda muito. E com o Benfica forte o campeonato fica muito melhor. O que se passou a época passada com o sucesso do Porto tira toda a graça ao campeonato. Este ano a luta com o Porto está mesmo ferrenha e assim é muito bom.» Porém, com a idade, diz que já sofre menos. Nem mesmo a eliminação da Taça o desanimou por aí além. «Vibro mesmo é com a Liga dos Campeões. Foi muito simpático termos sido os primeiros do grupo! Vamos lá ver como será com o Zenit, era muito bom continuarmos e irmos à final!

