O nómadA que voltou À terrapara vender produtos da terra

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Há gente que começou a namorar nos corredores do Brio, depois de ter trocado as primeiras palavras tendo como pretexto saber qual é o melhor dos muesli à venda no maior supermercado de produtos biológicos, com uma oferta de 4500 produtos espalhados por uma área de 400 m2 que ocupa numa rua sossegada (Azevedo Gneco), em Campo de Ourique.

"Estamos a democratizar o acesso a produtos biológicos a preços competitivos, desmistificando a ideia de que eles são só para elites. Vem cá muita gente de fora, mas somos também uma loja de comércio de bairro. Fazemos parte da vida das pessoas. Os clientes tratam-nos pelo nome e temos a chave de casa de alguns", conta Carlos, o tipo alto e simpático que teve a ideia de fazer este supermercado e que, se ouvirmos com atenção, tem no fundo do seu português correcto e fluente um ligeiro sotaque que denuncia uma vida pontuada pelos elementos básicos da Odisseia: a partida, a viagem e o regresso.

Carlos nasceu em Alcobaça, filho de uma camponesa e de um taxista, numa família que vivia da agricultura de subsistência. Cresceu trepando a pessegueiros, no meio das ovelhas, porcos e galinhas, alimentando-se das couves, do milho e do trigo que a terra dava. Sentia-se bem no campo, mas quando tinha sete anos, o pai resolveu emigrar para a Alemanha, para tirar a limpo se eram verdadeiras as histórias que os clientes lhe contavam durante as viagens de táxi até ao aeroporto.

Instalaram-se em Osnabruck, a uns 45 km de Colónia, onde o pai começou por trabalhar dois anos numa fábrica de automóveis da Karmen Ghia antes de se mudar para a fábrica de electrodomésticos da Míele. A princípio, Carlos estranhou. Era mais frio e tinha menos liberdade. O pátio alemão era um horizonte mais curto que os campos do Oeste. Por ser o mais novo da família (o irmão é cinco anos mais velho), foi o mais rápido a aculturar-se.

Apesar de ter passado 29 anos a repetir que no ano seguinte regressavam a Portugal, o pai investiu na sua educação e no final do secundário ele tinha média para entrar na faculdade que quisesse. Escolheu Gestão, atraído pela publicidade e o marketing, no final de uma adolescência em que revelou ser um rapaz poupado e que não virava a cara ao trabalho. Os primeiros marcos ganhou-os aos 14 anos, num emprego em part-time a encher de borracha as lagartixas na fábrica de tanques Panzer. Aos fins-de-semana, mesmo nos dias gelados de Inverno, lavava táxis a partir das sete da manhã. E o seu futuro próximo começou a desenhar-se quando passou as férias de Verão a empacotar fraldas numa fábrica da Procter & Gamble (P&G).

Com a noção de que "o mundo é maior do que o sítio onde moramos" iniciou, no final do curso, em Colónia, como gestor júnior de escovas de dentes da P&G, uma peregrinação de 16 anos pelo mundo ao serviço de multinacionais. Ocupou-se do óleo Mazola em Estugarda. Os caldos Knorr levaram-no a viver em Londres e a atravessar o Atlântico até Nova Iorque onde foi coordenador do produto para toda a América Latina. Em São Paulo tratou da maionese Helman. Até que, após dois anos no quartel-general da Unilever em Roterdão, foi finalmente destacado para Lisboa, como responsável pela Iglo/Olá - ervilhas e gelados. Quando em 2007 o mandaram fazer de novo as malas, resolveu ficar. Cansado de ser nómada e das multinacionais, abriu um negócio ligado a produtos da terra, na terra de onde tinha partido com sete anos.

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