Há um mundo inteiro a falhar no Afeganistão, a começar nos próprios afegãos. Num país com bem mais de 30 milhões de habitantes, pouco mais de um milhão votou nas eleições presidenciais de há dois anos. Democracia também não é isto..A resignação com que o exército afegão, milhares de horas de treino depois e com biliões de dólares em material militar, brindou a sua população é muito parecida com a resignação com que olhamos para aquele lado do mundo. Partimos do princípio que não há nada a fazer. De facto, se olharmos para o que os Estados Unidos e os seus aliados foram capazes de contribuir para mudar a sociedade afegã (quase nada ou coisa nenhuma), não fazia sentido continuar a impor a presença militar mais um ano, dois ou outros vinte. A invasão aconteceu para vingar o 11 de setembro e com a morte de Bin Laden, no vizinho Paquistão, há dez anos, tinha sido uma boa altura para começar a retirar..A lei islâmica (sharia), que entre outras coisas considera a homossexualidade um pecado, logo um crime, é aplicada em países como a Arábia Saudita, a Indonésia (na província de Aceh), o Sudão ou o Qatar (onde se vai realizar o próximo mundial de futebol). No Afeganistão a lei geral já era baseada na sharia, que agora volta a ter a interpretação dos talibã, para nos lembrar a todos que a realidade é muito volátil. Um sopro mais forte e rebenta-se a bola de sabão. As imagens das eleições com locais de voto para as mulheres separados dos locais de voto para os homens, revelando um longo caminho que continuava por fazer, desaparecem como desaparece o direito ao voto. Mais agrave ainda, as mulheres voltam a ser feitas prisioneiras debaixo das suas burcas..Contando que os talibã não queiram ajudar a ressuscitar a Al-Qaeda, levando o terrorismo a outras latitudes, o novo regime de Cabul será, sobretudo, uma desgraça para os afegãos e um perigo para os vizinhos. Os especialistas em geopolítica rapidamente apontaram o trio de países que mais pode influenciar o futuro do Paquistão, com a China à cabeça, mas incluindo igualmente a Rússia e a Turquia. O que parece ser uma vitória destes países, por ser uma derrota do Ocidente, traz consigo uma grande dose de risco e pode acrescentar instabilidade naquela zona do globo..Não se pense, portanto, que se pode dar como adquirido o quer que seja. Na discussão sobre a atribuição de culpas para o que agora vemos acontecer no Afeganistão, neste espaço de liberdade que temos a sorte de habitar, gastamos muito energia a discutir-nos a nós próprios, ficando claro que não falta gente "muito democrática" cheia de vontade de viver numa autocracia. Não há nada, nada, neste mundo, seja a oriente ou a ocidente, que escape a este combate tribal. Quando tentamos perceber o mundo olhando para o nosso umbigo, o mais que conseguimos ver é um mundo pequenino, tão pequenino que não o concebemos como um espaço onde os outros possam ter razão.