O mundo difícil e privilegiado das escolas para os ricos

Para entrar é preciso bons contactos e uma conta bancária recheada. Os colégios mais elitistas do País têm regras apertadas e dão uma educação à antiga. Alguns têm lista de espera de três anos
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Às 8 horas da manhã o corrupio de carros topo de gama a largar crianças à porta do colégio St. Julian's, em Carcavelos, é impressionante. Atrás dos portões de um magnífico palácio do século XVIII, com vista para o mar, estudam as crianças mais privilegiadas do País. O colégio tem campos de ténis, outros tantos de futebol, palmeiras e jardins primorosamente cuidados. Com uma anuidade que pode chegar aos 17 mil euros - fora preço da jóia, matrícula e alimentação - o colégio inglês de São Julião é o mais caro do País, mas isso não impede que tenha uma lista de espera que chega a três anos. Rigorosas e implacáveis, as regras desta escola internacional são bem claras: quem for apanhado a fumar ou a beber álcool é logo suspenso e pode ser expulso, pírcingues são proibidos, unhas pintadas também. Chinelos e ténis nem vê-los.

Mais tradicionalista, menos caro, mas igualmente exigente nos critérios de admissão, o colégio São João de Brito - escola de padres jesuítas instalado no Lumiar, em Lisboa - foi e continua e a ser frequentado pelas elites. Os empresários João e Vasco Pereira Coutinho foram alunos, Miguel Pais do Amaral e António Horta Osório também. Os infantes, filhos de D. Duarte e Dona Isabel, frequentam a instituição actualmente. Além de espaço com fartura, a escola da Companhia de Jesus oferece aos alunos um centro de fitness, um instituto de línguas e vigilância apertada por parte dos padres e educadores. A admissão é rigorosa e a prática religiosa conta muitos pontos no critério de selecção de novos alunos. Se os pais forem ateus ou quiserem libertar os filhos das responsabilidades religiosas, como estudar catequese ou ir à missa, o melhor é procurarem outra escola: no colégio São João de Brito ir à missa, fazer a primeira comunhão e frequentar aulas de religião é o mínimo que se exige das crianças.

Para entrar neste exíguo e privilegiado mundo não é necessário apenas uma conta bancária recheada. Como o número de vagas é bem menor do que as candidaturas, os conhecimentos e as cunhas jogam um papel importante.

"Quando tentei pôr o meu filho mais velho num colégio privado percebi que ou arranjava uma cunha ou nunca seria possível sair do liceu. Percebo agora que os conhecimentos que arranjei não eram suficientemente importantes para desbloquearem a situação", contou ao DN Maria Ana Martins, uma bancária de 42 anos que há dois anos tenta colocar os filhos num famoso colégio particular do Porto. Nas escolas particulares de Lisboa a história é a mesma. Ter pais ou irmãos como antigos alunos ajuda, mas mesmo assim a entrada não é garantida. No último ano, no entanto, a situação começou a mudar. Com a crise a afectar o orçamento das famílias de classe média, muito colégios estão a perder alunos por impossibilidade de pagamento das propinas.

Em Cascais, há uma escola que prepara crianças da primária pa- ra serem damas e cavalheiros. Na escolinha Tia Ló os meninos tratam directora e professoras por tias. Dos três anos de idade até ao 4.º ano, os alunos aprendem boas maneiras, a comer com a boca fechada, a tirar cotovelos da mesa e a dirigirem-se aos mais velhos na terceira pessoa. O rigor da educação na escola continua a atrair pais da alta sociedade cascaense que juram pelas boas maneiras ensinadas na escola primária mais exigente do País.

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