Christian Louboutin iria avançar a passo de tartaruga se por acaso tivesse insistido em pintar toda a sola com aquele frasco de verniz encarnado da colega. Assim, demorou apenas o tempo suficiente para perceber que o que tinha em mãos era diferente, uma ideia carregada de potencial que daria aos sapatos um cunho de personalidade e arrojo, e decidiu-se a enfrentar o destino como o legítimo sucessor de Manolo Blahnik, trabalhando para que os seus modelos ensandecessem as mulheres mesmo em tempo de crise - não é por acaso que as vendas dispararam em período de finanças conturbadas a nível mundial - e as fizesse enfrentar o mundo com outra confiança do alto dos seus saltos vermelho-sangue.«Metade das minhas clientes procura um sapato que lhes dê um aspecto algo libertino, a outra metade são grandes mulheres que querem um sapato com classe», revela o criador de 46 anos e íntimo das fãs que o calçam, sublinhando que em ambos os casos «o sapato completa a mulher», fornece-lhe o elemento que falta ao conjunto. «Desde o início que tentei criar algo que quebrasse as regras e fizesse as mulheres sentirem-se confiantes e poderosas», diz Louboutin, considerando que o comprimento dos saltos não é problema e existe diferença entre sofrimento e desconforto: «De sapatos de saltos altos não se anda como de pantufas, mas dá um prazer tão grande...»Tempos houve em que era o estilista espanhol Manolo Blahnik o favorito da personagem Carrie Bradshaw em Sexo e a Cidade e a própria Madonna garantia que calçar um Manolo era melhor do que sexo. Agora é Louboutin quem mais abrilhanta os pés femininos e Sarah Jessica Parker, a shoeholic Carrie da série, foi frequentemente vista com os seus durante as gravações do segundo filme de Sexo e a Cidade, onde aparece calçada com os modelos Gino, Pigalle Strass e Bridget Strass..O melhor amigo gayChristian Louboutin convive de perto com as famosas, escuta-lhes as confidências e é o homem mais desejado por todas, o melhor amigo gay de divas de Hollywood, top models, best sellers da literatura e membros da realeza. Elas, as mulheres, enervam-se, desejam, têm insónias em véspera de lançamento de colecções e não hesitam em pagar pequenas fortunas para calçarem os desenhos do mestre e sentirem-se princesas por umas horas naqueles sapatos que muitas querem, mas apenas poucas se podem dar ao luxo de comprar.Simplesmente, não há segredos obscuros que o desenhador não consiga imaginar e transformar em elegantes peças de colecção de acabamentos perfeitos, os saltos impossíveis e as solas vermelhas convertidos na sua imagem de marca pessoal, apesar de também fazer sapatilhas para mulher e homem, e sabrinas, plataformas e sapatos de salto médio para as viciadas que não se equilibram em agulhas. O único defeito a apontar é mesmo o preço, já que dificilmente se encontra uns Louboutin por menos de quinhentos euros e o mais certo é o modelo da nossa perdição ultrapassar os mil. Ainda assim, os números do negócio do estilista francês cresceram dois dígitos durante a crise generalizada do consumo em 2009, a marca vende actualmente mais de 340 mil pares de sapatos por ano e o custo mínimo de um modelo mais básico nunca fica em menos de 370 euros, havendo edições - como a inspirada em Maria Antonieta e limitada a um total de 108 pares em tons de azul, amarelo brilhante e rosa bailarina - que ascendem a perto de cinco mil euros..Um sapateiro nada remendãoO fascínio de Louboutin pelo calçado feminino começou muito cedo, tinha ele 12 anos e o hábito de escapar da escola para ir espreitar as showgirls dos clubes nocturnos de Paris, completamente embasbacado com o glamour dos corpos pouco vestidos e das pernas que pareciam alongar-se até ao infinito. A mãe e as duas irmãs compunham o seu pequeno harém privado, os caprichos das mulheres não lhe eram desconhecidos e uma ida ao Museu de Arte Africana e Oceânica deixou-o a desenhar compulsivamente sapatos nas margens dos cadernos, após ter visto a imagem de um com salto agulha riscado a vermelho num placard em sinal de que os stiletti eram proibidos no museu para não riscar o soalho. Quando, por acaso, viu na televisão uma entrevista em que Sophia Loren apresentava a irmã, dizendo que tinha desistido da escola aos 12 anos mas que aos 50 tirara o curso e todos aplaudiram, não precisou de outro incentivo para largar, também ele, a escola, convencendo-se de que se as coisas falhassem pelo menos seria como a irmã da estrela.Aos 15 anos, profundo conhecedor da noite parisiense, o jovem começou a conceber sapatos para vender às dançarinas dos clubes, que muitas vezes os recusavam alegando não terem dinheiro. No final da década de 1980 desenhava por conta própria para casas como a Yves Saint Laurent ou a Chanel e idealizava conceitos para os desfiles de Givenchy, Lanvin, Chloé ou Jean-Paul Gaultier. Em 1992 abriu a sua primeira loja oficial em Paris, teve a ideia revolucionária de pintar as solas de vermelho (quando viu uma funcionária a cuidar das unhas e quis experimentar o verniz nos sapatos para lhes dar mais energia) e passou a andar nas bocas do mundo a partir do momento em que uma jornalista ouviu casualmente a princesa Carolina do Mónaco a discutir os sapatos da boutique Louboutin com uma amiga, ambas eufóricas. Dois anos depois, abria a loja de Nova Iorque e via o seu nome ser oficialmente inscrito entre os incontornáveis da moda.Em Março de 2007 o estilista registou a patente das suas solas encarnadas, mas nem por isso se impediu de experimentar também umas em azul-bebé, disponíveis durante um curto período de tempo para que as noivas que o calçassem pudessem levar consigo a tradicional «coisa azul». Hoje é o eleito de celebridades que aprenderam a deslizar como cisnes sobre os seus stiletti impossíveis: é o caso, entre outras, de Angelina Jolie, Oprah Winfrey, Nicole Kidman, Heidi Klum, Katie Holmes, Sarah Jessica Parker, Victoria Beckham, Kirsten Dunst, Kate Winslet, Nicole Richie, Kate Blanchet, Gwyneth Paltrow, Dita Von Teese, Tina Turner, as gémeas Olsen, Gwen Stefani, Danielle Steel (a escritora americana tem mais de seis mil pares de sapatos da marca), Cameron Diaz, Beyoncé, Jennifer Aniston, Luciana Gimenez ou Catherine Deneuve. A todas elas Louboutin consegue dar a certeza de serem atraentes, já que a beleza é uma questão de atitude e as inconfundíveis solas vermelho-sangue, os materiais nobres dos sapatos, os pormenores milimétricos e o requinte dos acabamentos são sinónimo de elegância e poder no feminino.Por todo o mundo se multiplicam as apaixonadas pelo trabalho do designer: Depois das lojas em Paris, Nova Iorque, Califórnia, Las Vegas, Miami, Dallas, Londres, Hong Kong, Singapura, Jacarta ou São Paulo (na Austrália os sapatos são vendidos nas lojas David Jones de Melbourne, Brisbane e Sydney), até ao final de 2010 a marca terá 32 estabelecimentos espalhados pelo mundo, incluindo um novo em Madrid - um crescimento significativo face aos 19 do ano passado. A Portugal, os Louboutin chegaram recentemente em venda exclusiva nas lojas Fashion Clinic de Lisboa e do Porto, com a directora, Isabel Costa, a justificar a aposta pelo facto de os sapatos serem «lindos, irreverentes e sensuais», além de a escolha ser uma evolução natural numa loja que já tinha as principais marcas internacionais de roupa.«O que os Louboutin têm de tão poderoso que faz que as mulheres cheguem a passar uma vida inteira a desejá-los tem que ver com o design, os saltos vertiginosos, a sola vermelha que se reconhece a quilómetros e também o preço e a exclusividade», sustenta Ana Garcia Martins, jornalista que assina na blogosfera como A Pipoca Mais Doce e se tornou um fenómeno de popularidade ao escrever sobre o dia-a-dia de uma mulher cosmopolita viciada em sapatos. «Os Louboutin são objectos de desejo, são uma daquelas coisas pelas quais é realmente preciso perder a cabeça. Não se compram porque nos está mesmo a fazer falta um par de sapatos assim ou assado: é mesmo pelo desejo de os ter, de olhar para eles, de os usar em ocasiões especiais e sentir que se tem o mundo nos pés. E aos pés», afirma.A jornalista Judite de Sousa foi presenteada com um par por Marta Leite Castro quando a apresentadora a convidou para participar no seu programa Só Visto - uma gentileza que terá feito muita gente cair no pecado mortal da inveja. Paula Amorim, a proprietária das lojas Fashion Clinic, disse já por diversas vezes que os sapatos Louboutin são intemporais e uma das suas marcas favoritas de sempre, a par dos ténis All Star e das carteiras Chanel.A própria Pipoca inveja quem pode sair à rua com uns calçados e viu uma petição ser lançada online por uma leitora para que lhe fossem oferecidos uns a estrear no dia do seu casamento. «Acabei por me decidir por uns Manolo Blahnik. Sempre me tinha imaginado a casar de Manolo, apesar de cada vez mais se falar nos Louboutin e menos nos Manolo», confessa. E não há dúvida de que aqueles não são uns sapatos quaisquer: «Todas as celebridades andam com os seus Louboutin calçados e é claro que isso fomenta o desejo de se ter uns.» Custe o que custar..Preto e vermelho também nas unhasA misteriosa sola vermelha combina com toda a gama de tecidos e tonalidades que o estilista decida pôr-lhe em cima, mas são os sapatos pretos aqueles que mais despertam o desejo das mulheres. Disso mesmo se deu conta a londrina Miss Zoe Pocock, especialista em vernizes no salão Charles Worthington, antes de inventar a sua manicure Louboutin: unhas compridas com tinta preta por cima e vermelha por dentro, de modo a conseguir aquele efeito de base encarnada que faz as mulheres sentirem-se poderosas e os homens loucos de vontade de alcançá-las no alto do seu pedestal. Atendendo a que a primeira sola de Christian foi pintada precisamente com um verniz de unhas, a derivação da ideia faz sentido, é confortável, carrega o mesmo charme ímpar dos sapatos e tem a vantagem de ser acessível a todas as carteiras sem danificar a coluna..Aguilera é capa de revista «vestida» com Louboutin >À semelhança das dançarinas dos cabarés de Paris que inspiraram Christian a dar os seus primeiros passos no design de calçado (dizia ele que «as mulheres até podiam ficar sem roupa, mas pelo menos continuavam calçadas»), também a cantora Christina Aguilera deixou o público masculino sem fôlego ao aparecer nua na capa da edição de Junho da revista GQ alemã. As revistas de fofocas e social consideram que a cantora norte-americana está capaz de tudo para ganhar a Lady Gaga na disputa pelas atenções do público e o que é certo é que Aguilera aceitou posar para a lente do fotógrafo Alix Malka calçando unicamente umas luvas compridas de diamantes e um par de botas Louboutin de cano alto que não substituíram a falta de roupa. Christina apelida Gaga de ridícula e exagerada na imagem e, não fosse dar-se o caso de alguém poder duvidar dos seus atributos em detrimento dos da rival, apelou à sua ousadia para a produção alemã, depois de ter beijado uma mulher e sido apalpada pelos dançarinos (homens e mulheres) no vídeo de apresentação da nova música Not Myself Tonight, do álbum Bionic.