O mito Kumba Ialá

Publicado a
Atualizado a

O mito Kumba Ialá começa pouco tempo após o seu nascimento, há 61 anos, na região de Bula. Reza a lenda que um dia uma mulher foi com o seu filho recém-nascido lavar roupa ao rio. Pousou a criança no capim e afastou-se para cumprir a sua tarefa. Quando voltou, a criança já lá não estava. Sete ou oito anos mais tarde, um caçador descobriu no mato uma criança que estava a ser criada por um porco e cada tabanka por onde passava relatava o facto na tentativa de perceber se alguém tinha perdido uma criança há já algum tempo. Note-se que perguntei à minha interlocutora em Bissau, que me relatou este episódio, se não seria antes uma porca, já que assim consolidaria sempre a hipótese da amamentação. Mas não, parece que foi mesmo um porco que raptou a criança deitada à beira do rio e dela tratou. Esta estória foi explorada à exaustão pelo próprio falecido, durante a campanha eleitoral de finais de 1999 e início de 2000. Kumba Ialá apresentou-se ao eleitorado como o protagonista principal daquilo que se foi tornando um mito ao longo dos anos, já que a população local e a sua própria mãe confirmam toda a narrativa. Formou-se em Teologia e Filosofia na Universidade Católica de Lisboa, foi professor e presidente da Guiné-Bissau, entre 2000 e 2003, altura pela qual também publica Pensamentos Políticos e Filosóficos do Dr. Kumba Yalá, cuja leitura recomendo, para se perceber de quem realmente se trata! Kumba Ialá morreu, paz à sua alma, mas talvez nem na morte os guineenses se livrem da sua sombra, já que o seu médico e sobrinho, Dr. Martinho Nhanca, que o assistiu nos momentos finais, diz que o seu tio lhe pediu que apenas fosse enterrado após as eleições gerais, que estão marcadas para o dia 13 de abril. Ora aqui está um dado novo, que poderá baralhar um jogo, que até agora até nem estava a correr mal.

* Investigador do Observatório Político

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt