O título é uma pequena provocação que muitas vezes me é dirigida e que, à custa de ser tantas vezes repetida, ameaça tornar-se uma das verdades mais enganosas de sempre. É um mito que importa esclarecer. Falar do "poder da distribuição" é o mesmo que falar do poder da democracia ou da principal virtualidade de um sistema que privilegia a liberdade de escolha. Hoje, os portugueses sabem que a vida seria muito mais complicada se não existissem grandes distribuidores que, por força de uma competição positiva entre si, oferecem preços mais baixos e uma oferta muito mais alargada. A livre concorrência existe para dar escolha aos consumidores, proporcionando mais opções e mais qualidade..Os portugueses gastaram, em 2010, menos dinheiro em compras, mas levaram mais produtos para casa - segundo o Eurostat, o custo de um cabaz de compras em Portugal é 8% menor que a média europeia, facto só possível pelo efeito positivo da distribuição..Há 25 anos, o mercado era dominado pelos fabricantes. Existia um comércio fragmentado, pouco variado e mais caro, esmagado pelo peso da indústria fortemente concentrada. Com o nascimento da distribuição organizada, os fabricantes perderam o monopólio e uma situação de especial conforto e, compreensivelmente, reagiram..As forças foram-se equilibrando em benefício dos consumidores. Se compararmos a concentração medida através da quota de mercado dos dois principais operadores na distribuição, verifica-se que essa é recorrentemente inferior em cerca de 1/3 à mesma medida quando aplicada aos fabricantes de produtos tão diversos como cereais, leite, cervejas ou detergentes só para referir alguns casos. .O verdadeiro desequilíbrio é favorável aos grandes produtores multinacionais, que continuam a impor o seu poder. Falamos de empresas que se associam aos produtores nacionais para defender as suas marcas contra a distribuição, mas que são indiferentes (até mesmo prejudiciais) ao desenvolvimento do tecido empresarial português..Se há concentração, se há poder, este está do lado da produção e não nas mãos dos distribuidores, cujo volume de facturação não é comparável ao das grandes multinacionais industriais. São as suas marcas que tomam conta do mercado e que reduzem a possibilidade de escolha do consumidor. As marcas da distribuição estão no mercado em condições idênticas às das restantes marcas, têm de responder às exigências de um mercado concorrencial e sujeitam-se, também, ao escrutínio soberano do consumidor..As marcas próprias apostam numa imagem diferenciadora e inovadora desde o processo de produção até à comercialização, não sendo por isso de estranhar as novas gamas de produtos, informação nutricional nos próprios produtos, entre outros atributos de valor assinalável. .A distribuição só pode ser "acusada" de dar mais poder ao consumidor, em resultado da elevada concorrência no mercado do retalho, em que grandes operadores competem arduamente entre si para conquistar a preferência dos consumidores. .Os monopólios nunca lidam bem com o interesse das pessoas - essa é que é a questão essencial. Se os fabricantes se centrarem no essencial e não ficarem a olhar para trás, então chegaremos a um tempo em que todos poderemos trabalhar, sem ruído, em nome do bem comum, indo de encontro às necessidades dos consumidores.