Às vezes, Vasco Palmeirim é apenas um locutor do programa da manhã da Rádio Comercial. Outras, pega na sua guitarra e transforma-se em humorista: inventa letras hilariantes para canções que já existem. E, como todos os que fazem humor, usa a matéria-prima nacional: a demissão de José Sócrates no ano passado deu-lhe pano para mangas. Mas foi com o estranho nome da filha de Luciana Abreu e Djaló que obteve o seu maior sucesso. Como Se Escreve o Nome da Criança foi um tal êxito que a Vodafone passou a vendê-lo como toque do telemóvel. .É esta sua faceta que o diferencia no cheio panorama radiofónico português, sobretudo, de manhã. Como as emissões da Comercial são filmadas, já se criou um culto das músicas de Vasco no YouTube e há repercussão através de podcast, além do contágio via Facebook - onde Vasco Palmeirim já tem mais de 13 mil fãs. Há também extensões na TV, no canal Q, onde, durante o programa A Rede, Palmeirim usou a sua improvisação à guitarra. O poder de improviso do animador de rádio tornou-se num fenómeno nacional. .Vasco Palmeirim sempre teve o sonho de ser homem-espectáculo, à medida dos que apresentam os talkshows da noite americanos. Foi com o sonho de ter um talkshow televisivo igual ao de Conan O"Brien, o seu ídolo, que decidiu meter-se num curso de Comunicação da Católica. A rádio surgiu quase por acidente. E as cantorias na rádio... também. «No outro dia um amigo meu, que já não via há muito, dizia-me que já fazia estas coisas no liceu. Se calhar são os genes do meu pai, maestro, a vir ao de cima», diz. Vasco é filho de Manuel Peres Newton. .O jeito para improvisar já vem de longe. «Punha o Achtung Baby dos U2 na aparelhagem e tentava tocar com a minha guitarra por cima... De vez em quando, dava por mim a cantar letras diferentes das dos U2 com a mesma melodia... Enfim, sempre tentei versões alternativas e desde que me lembro sempre gostei de Monty Python e de Herman José... Às vezes, também acontece pegar nas letras originais e criar uma composição minha, isto sempre respeitando os direitos dos autores. E, claro, eles não vão levar a mal pois não ganho nenhum tostão com isto. O sucesso de toda esta brincadeira é a difusão através da net... E para os fãs da rádio só o som não chega. As pessoas querem ver. Todos querem ver a figura de parvo que estou a fazer quando canto essas canções. Quando chega o vídeo, toda a gente partilha e goza com a minha figura. Quem é que não gosta de ver uma boa figura triste!?» .No Facebook e no YouTube já há muitos pedidos para que haja um DVD com todos os melhores momentos. Mas é precisamente por causa dos direitos de autor que tudo se torna mais complicado. «Já houve um concerto dentro da série Os Concertos mais Pequenos do Mundo, com essas canções e as do Nuno Markl. Soube muito bem tocar ao vivo estas canções! Atenção que para enfrentar multidões não posso estar sozinho. Preciso do Nuno Markl, da Vanda Miranda e do Pedro Ribeiro...» - os seus colegas de programa na Comercial. .O último sucesso, foi no regresso de férias, quando transformou She Moves Like Jagger, dos Maroon 5 e Christina Aguillera, numa versão cujo refrão é: Não me apetece fazer nada. «Às segundas-feiras, recebo e-mails de pessoas que dizem que nos escritórios ficam todos a cantar isto... tal como um pequeno hino empresarial... Depois de criar um hino para preguiçosos, posso dizer que tenho o meu objectivo de vida cumprido!» Temas proibidos, tem? «Não me meto com futebol e religião. São as únicas cenas em que é melhor não mexer...» Ou seja, letras a brincar com o teatro de Fucile nem pensar. «Com a política, não há problema. No outro dia até me ligou o Passos Coelho a dizer que tinha adorado a canção que fiz sobre ele.».Telefunken FM é a sua rádio privada, uma rádio online que criou e onde pode ouvir-se de Strauss a Stevie Wonder, passando pelos The Beatles e Arcade Fire. «Telefunken é a rádio que me dá as músicas que quero ouvir. Julgo que tenho uma boa frase de posicionamento: vais ouvir das boas. Sinto que um dia destes uma outra rádio vai roubar a minha frase e eu vou ganhar zero! Apesar de fazer a rádio para mim, é muito giro ser director de uma rádio, mesmo que seja apenas um hobby. A minha última decisão foi tirar uma canção da Madonna da playlist. Senti que a fase dessa música já tinha acabado.» .Para aceder à Telefunken, o ouvinte tem de ir ao Cotonete, na net, um serviço do iol. A sério, confessa que gostaria de ter também a sua rádio não virtual. «Todos os que gostam de música sonham com isso - ter uma rádio com o nosso gosto.» E o dele até nem é muito estranho: a banda favorita são os U2. Vasco tem também uma mania: a de descobrir talentos. Talvez porque o momento em que lhe descobriram o dele não está longe. «Trabalhar numa rádio em que é, acima de tudo, "toma lá o que queres ouvir!» À pergunta, se o pudesse fazer que projecto português merecia a sua atenção a resposta é imediata: «O projecto de Jorge Cruz, Diabo na Cruz. Como é que eles não são maiores!? O Virou é um disco descomunal. São uma banda que faz rock a partir do cancioneiro popular.» .A ditadura das playlists, diz, é algo que não existe. As playlists são as músicas que as rádios tocam. «A playlist dá aos ouvintes o que, segundo os estudos, eles querem ouvir e isso não matou a rádio, conforme muitos dizem. Quando se pergunta pelo estado actual da rádio, eu acho que está bem. A rádio em Portugal não está a perder ouvintes e ainda hoje faz êxitos musicais. Antes de as pessoas comprarem aquela música no iTunes, ouviram-na na rádio.» .Vasco é jovem e ainda quer fazer muito mais. Das listas dos seus desejos no futuro faz parte experimentar pôr música, mas não como simples DJ, antes como DJ de mashups, uma técnica de medley que mistura duas ou três músicas de uma vez. «Sou daqueles gajos que quando estão a ouvir uma canção começam a cantar outra... Por exemplo, o Rolling in the Deep da Adele é o Crazy dos Gnarls Barkley. Como é que nunca ninguém reparou que são melodias iguais!?» E começa a cantar os refrães das canções, como se na sua cabeça estivesse uma jukebox. Logo a seguir trauteia Boulevard of Broken Dreams, dos Green Day, ao mesmo tempo que Wonderwall, dos Oasis. A música está-lhe no sangue. .As canções do Vasco. «A Luciana teve uma menina.Que tem um nome que não há memória.Nasceu há dias - e já está marcada .Ai coitadinha, é Lyonce Viiktórya .Mas como se escreve?.Mas como se escreve?.Mas como se escreve?.O nome da criança.Eu sei lá, sei lá.Eu sei lá, sei lá.».In O Nome da Criança, a partir de O Pai da Criança.«Deitado na minha cama.estou chorando à luz das velas.O que é que vão dizer .os meus amigos de Bruxelas?.Tentei convencer a oposição aceitar o PEC....... Estive a falar prò bonec....Eram nove menos cinco.Fui a Belém pedir a demissão..Demorei ainda um bocadinho.Porque o presidente já estava de roupão..Ai estou triste.Sou um primeiro-ministro.que pediu a demissão.». In Demissão, a partir de Lady Antebellum, Need You Know.O culto do programa da manhã .O programa da manhã na Comercial já deu CD, espectáculos ao vivo e livros (sempre muito alavancados no factor Nuno Markl, a estrela do programa). Com ou sem sono, das sete às onze da manhã, Vasco e os amigos ajudam a acordar os portugueses. «Quatro anos depois é que notamos que o público nos ouve. Andamos com banhos de multidão como nunca tivemos. Há um reconhecimento geral que chega a ser assustador.» . A playlist privada.Coldplay - Hurts Like Heaven.Mumford and Sons - The Cave.Janelle Monae - Cold War.Foals - Spanish Sahara.Jamie Woon - Would I Lie To You