O mealheiro da avó

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Quando o Augusto fez seis anos a avó ofereceu-lhe um porquinho de louça para guardar as moedinhas que ele recebesse no dia de anos, nas festas e aos domingos à saída da missa. O porquinho rosado, tinha o rabo em forma de é e uma ranhura no lombo, de largura bastante para deixar entrar as moedas e notas. Dizia a avó que era para ter poupanças para pagar os estudos quando ele entrasse para a universidade.

O Augusto tinha uma irmã mais velha chamada Judite, muito bonita, cobiçada por todos os rapazes da aldeia. Dizia que só namoraria com um rapaz elegante, de boas maneiras, bem falante e dono da sua fortuna.

Um dia, acabou por aceitar a corte do Júlio, rapaz bem falante, elegante e de boas maneiras, mas cuja fortuna era desconhecida. A mana, deslumbrada com as aparências, nem sequer olhou para o conteúdo do pretendente. Segundo as vizinhas, ele era um calaceiro de primeira, passava a vida na boa-vai-ela, de dia nas tabernas a embebedar-se, e à noite a jogar à vermelhinha nas traseiras da igreja.

Quando a mana apresentou o Júlio à família, o pai não se mostrou muito entusiasmado em tê-lo como genro e a mãe não se deixou levar pelas aparências do finório.

Entretanto, chegou o Augusto, que tinha ido guardar moedas no seu porquinho. Judite disse para o Júlio: «O meu maninho é tão poupadinho que já anda a guardar os tostões para quando for para a universidade!» O namorado riu-se e disse para o Augusto «Meu rapaz tens de me emprestar o teu porquinho. Pode ser que eu te arranje os livros hoje a preço de saldo!»

OAugusto mirou o Júlio e achou que tinha pinta de pilha-galinhas. Pensou que o seu porquinho estava em risco. Saiu a correr e foi enterrá-lo na capoeira das galinhas. O tesouro ficou pois guardado pelo cocoricó das aves e aí permaneceu em segurança, julgou ele.

O Júlio, após o fracasso da recepção, desinteressou-se da mana e nunca mais foi visto nas redondezas. Judite ficou muito triste e jurou que não descansaria enquanto não recuperasse o seu príncipe encantado.

O Augusto, para não ser visto a entrar na capoeira, começou a depositar os tostões numa velha lata de café que guardava em casa da avó. Mas o tempo, mestre do esquecimento, levou-lhe a lembrança do seu porquinho rosado. Pensou que os pais tinham usado o dinheiro para pagar o internamento da avó quando esta adoeceu.

Um dia a mana foi à capoeira buscar ovos e viu, por acaso, uma coisa rosada, meia enterrada no chão. As galinhas, à força de esgravatarem a terra tinham posto o lombo do porco à vista. Escavou, e lá estava o porquinho do Augusto.

Pegou no porco e apressou-se a entregá-lo ao Júlio bem falante. Nessa noite, no jogo da vermelhinha, atrás da igreja matriz, o tesouro do Augusto foi desbaratado pelo estroina, acompanhado de muita farra e copos de vinho.

O Augusto ainda hoje não sabe o que a mana fez ao porquinho. Quando entrou para a universidade, os pais, que não tinham feito PPR/E por causa da fiscalidade, pediram um empréstimo para lhe pagar as propinas. A Judite continua solteira e a sonhar com o seu príncipe encantado.

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