Reedição de lúdicas narrativas sobre um bairro lisboeta de Mário de Carvalho.O Manuel Germano .Retomo o texto da semana passada, sobre reedições de colectâneas de contos de Mário de Carvalho. Depois de A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho apareceu também a sexta edição de Casos do Beco das Sardinheiras, de 1981 (o mais substancial Contos da Sétima Esfera só teve duas edições)..O Beco das Sardinheiras é uma zona imaginária da Lisboa velha (Alfama ou Mouraria), mas é essencialmente um universo em ponto pequeno. E um universo comunitário, quase aldeão. Há necessariamente alguns ecos da comédia alfacinha, uma atmosfera Pátio das Cantigas, com eléctricos, guardas-nocturnos, amola-tesouras e tascas, mas com a candura e o conformismo substituídos pelo cepticismo e o sarcasmo. Este é também um mundo de personagens, com nomes mais rurais que urbanos, que põe Mário de Carvalho na esteira do neo-realismo menos xaroposo, como os contos vivíssimos de Manuel da Fonseca. Um retrato humano de gente que não é boa nem má mas que claramente vive apoiada na esperteza saloia e no desenrascanço perpétuo.. Mais que uma sucessão de contos, estamos perante uma acumulação de casos ou ocasiões. Os textos começam assim numa ocasião sucedeu isto, noutra ocasião sucedeu aquilo. E as ocasiões são sempre insólitas aventuras: um homem que engoliu a lua, um gato que é uma pantera, uma corda que sobe para o céu, uma misteriosa pedra negra, uma coluna de água, um gelo temível, um homem que usa uma língua impenetrável, uma nuvem privada, um trombone fatal, um chinês num marco de correio, um padre que faz experiências químicas. Como escrevi a semana passada, em Mário de Carvalho o fantástico não surge como crença numa dimensão invisível, mas como modo de aglutinar as experiências comuns, um modo que as faz parecer mais notáveis. É que por mais improvável ou impossível que seja o episódio, os moradores do bairro tratam o caso como se fosse natural, e tentam apenas controlar danos ou mesmo, sempre que podem, lucrar alguma coisa com aquela irrupção do incompreensível. .As citações de Gil Vicente não estão lá por acaso Mário de Carvalho é muito mordaz no modo como mostra uma colmeia na qual cada um se ocupa de si e de todos, num comunitarismo egoísta com uma ética maleável. E com certas paródias óbvias mas divertidas: "Pois acautelem-se vossemecês com o vosso padre que muito tem que se lhe diga. Quando eu fui à terra pela última vez, falava-se muito nele e nas complicações que para lá causou no seminário da Guarda. Por um triz que não o chumbaram. Uma vez inventou um pó químico, no laboratório, que pôs toda a gente com visões místicas. Eram os padres e os seminaristas, desaforados, a correr de um lado para o outro e a berrar: Olha ali a pomba, olha o carro do Ezequiel, olha a praga das rãs... Foi castigado, mas não tardou que tivesse instalado na camarata uma instalação eléctrica com imensos fios de cobre enleados... e destinada, ao que parece, a "estimular a energia vital", que acendeu faíscas por cima de todas as camas e pregou um tremendíssimo choque a um padre-mestre. Mais tarde inventou um microfone especial que distorceu todos os sons da homilia pascal e fabricou um balão cheio de hidrogénio que incendiou a mata do seminário. Se não fosse a actual crise de vocações não teria chegado a padre. Mas lá acabaram por lançá-lo no século, carregadinho de castigos, com a caderneta mais poluta de quantos andaram pelos seminários. E fosse o que Deus quisesse" (págs. 76-77)..Numa conversa com as suas personagens (método recorrente), o autor confessa que o estilo "populismo-fantástico-humorístico-coiso" (sic) quase o aprisiona num mofino estatuto de escritor menor. E anuncia a intenção de escrever "coisas soturnas, sinistras", coisas por exemplo sobre "Tebas" (O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, 1982). Essa curiosa menção irónica a uma "literatura de miuçalha, de facilidade, de pechisbeque, de cutiliquê, literatura patchuli, literatura pataqueira" mostra um indesmentível desconforto com a noção de realismo, mas um desconforto que se diverte consigo mesmo. Mário de Carvalho, no género fantástico como no realismo social, nunca é um ortodoxo..O que sobra? Uma extraordinária desenvoltura narrativa e um trabalho apurado sobre a linguagem. A linguagem do narrador, geralmente elevada e levada ao exagero "Uma ocasião, no fundo do Beco das Sardinheiras, estacionava uma súcia de gaiatos alforriada da escola pelo lumbago de Dona Constança" (pág. 39). E a linguagem das personagens, quase sempre pitoresca e coloquial (aparecem termos como camandro, catano, magana, escanifobético), nuns diálogos populares muito bem apanhados e que demonstram uma espécie de sageza impaciente. Uma frase insistente e quase programáticas nestes contos é a admoestação de que não devemos confundir o género humano com o Manuel Germano. É, desde logo, um jogo verbal. Mas também um aviso contra universalismos e moralismos. E um modo curioso de lembrar que a ficção, embora tenha muitos poderes, não tem plenos poderes. .CASOS DO BECO das sardinheiras.Autor. Mário de Carvalho.Editora. Caminho.Páginas. 96.Preço. 10.Classificação.