O lado B dos alimentos

Sabe o que são alteradores endócrinos nos alimentos? São compostos que não aparecem nos rótulos, mas que podem engordar mais que as calorias e contaminar a comida. A boa notícia é que a dieta mediterrânica tem menos aditivos e é mais natural.
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O olhar de cada um de nós para os alimentos é, na maioria das vezes, muito redutor. Alguns focam a atenção nas calorias, outros também no açúcar, mas também em alegações de "sem lactose", "sem glúten", "light", "magro", "low carb", "sem adição de açúcar", entre muitas outras prioridades. No entanto, na maioria das vezes não só esquecemos o mais elementar da alimentação, como ignoramos que cada alimento - até a água, que é também um alimento - tem uma complexidade química que poucos (re)conhecem.

A própria rotulagem nutricional informa o consumidor apenas sobre uma pequena parte do que é a química do alimento. Ainda que obviamente muito importante, sobretudo a informação da quantidade de açúcar, de gordura total e de gordura saturada e ainda de sal, a presença ou não de edulcorantes ou outros aditivos alimentares, reduz o alimento a uma simplicidade que não é real. Isto nos alimentos que apresentam rótulo... uma vez que os alimentos no seu ambiente natural, ou em natureza, nem essa informação trazem.

A complexidade química é tão elevada que não podemos ainda ter essa informação sistematizada, mas são muitos os estudos que avaliam parte dessa complexidade em contexto de investigação científica.

Assim, simplificando, os alimentos podem ter "nutrientes" e "não nutrientes". Dentro dos nutrientes temos os macronutrientes como as proteínas, os hidratos de carbono e os lípidos - e dentro dos micronutrientes, as vitaminas e os minerais. Nos "não nutrientes" podemos ter os de origem natural, tipicamente presentes nos alimentos de origem vegetal, como os fitoquímicos - como sejam os carotenoides, as isoflavonas, antocianinas, entre outros -, os de origem antropogénicas e, dentro destes, os que estão presentes nos alimentos de forma intencional, como aditivos alimentares, ou de forma não intencional, contaminantes como metais pesados, dioxinas, aditivos do plástico, etc. Temos, ainda, compostos que se formam durante o processamento culinário potencialmente carcinogénicos, como as nitrosaminas, acrilamida, etc.

Devemos compreender que o impacto na saúde e na doença, do consumo de alimentos e refeições, resulta da interação de uma dimensão elevada de compostos.

Resulta da presença, em maior ou menor quantidade, de uma maior ou menor diversidade de contaminantes, muito mais do que de "calorias".

Na verdade, do ponto de vista científico mas ainda mais do ponto de vista prático, clínico, ou mesmo de saúde pública, cada vez deve ser dado menos destaque às calorias. Claro que com isto não estou a não relevar o tema, mas estou a explicar que, independentemente das calorias, posso ter um alimento mais contaminado, e, por hipótese, ele contribuir para a chamada adiposidade.

Muitos dos alteradores endócrinos são capazes de reforçar no organismo a prioridade metabólica de acumular gordura no tecido adiposo. A complexidade das vias metabólicas no organismo, da forma como interagem se influenciam e são influenciadas por fatores externos - por exemplo de compostos estranhos ao nosso organismo com atividade endócrina - é enorme e explica em parte a maior ou menor "predisposição" para acumular gordura.

Diria que são as "calorias ambientais". Do que consumo diariamente, o organismo "decide" prioridades e muitas são altamente influenciadas pela maior ou menor presença destes compostos. A verdade é que, diariamente, não estaremos expostos a um, mas a mais do que um alterador endócrino. Se se acumulam na cadeia alimentar - e por isso são chamados de poluentes que persistem no ambiente, ou seja, não são degradados, bioacumulam nos alimentos, tanto mais quanto mais alto o seu nível na cadeia alimentar - reconhecemos que nós humanos também os acumulamos e no nosso organismo não ficarão apenas "acumulados ou reservados", mas terão impacto na saúde.

Desde 2002, através de uma das publicações científicas à época menos consensual, mas hoje mais aceitada e citada, sabemos que a exposição, a acumulação no organismo e a acumulação de efeito ao longo dos anos, está associada à obesidade, à resistência à insulina e, por isso, à diabetes, ao cancro, às doenças cardiovasculares e doenças endócrinas em geral, mas também às doenças neurodegenerativas, entre muitas outras.

Estes compostos escapam a uma degradação no ambiente assim como ao controlo de entrada no organismo humano, acumulando-se de forma muito silenciosa e ditando a saúde ou a ausência dela por interferirem em múltiplas redes hormonais, intensificando algumas, silenciando outras, baralhando tudo

Atenção, este tema está muito ligado à alimentação, mas não é um exclusivo dela. Sabemos que produtos da dermocosmética podem também ser uma fonte de exposição diária muito expressiva, conforme usamos maior ou menor número destes produtos de maior ou de menor qualidade.

Existem trabalhos populacionais que relacionam o número de produtos usados para rotinas diárias de cuidados da pele, maquilhagem, entre muitos outros, como anti-transpirantes (vestuário ou calçado de contacto direto com a pele), entre muitas outras moléculas que foram sendo criadas para o nosso conforto diário.

A verdade é que quando, por exemplo, ouvimos falar dos malefícios do plástico, estaremos a falar de duas preocupações. Por um lado, a reciclagem do plástico que sabemos ainda não ser efetiva e, por isso, o tema deve ser colocar a reciclar as embalagens - mas, também, uma segunda preocupação que passa pela má utilização do plástico que pode ser potenciadora da migração dos seus aditivos, presentes na embalagem, para o alimento.

A má utilização significa o uso da embalagem para fins para os quais a embalagem não foi testada, como no caso de uma garrafa de água que é repetidamente enchida com chá quente, ou sumo, ou mesmo no aquecimento de embalagens que foram concebidas para o frio ou a temperatura ambiente.

A água, um alimento, é quimicamente complexa e também ela, como todos os outros alimentos, é portadora de alteradores endócrinos. Este tem sido o desafio científico que deve ser mais comunicado à população que, na ignorância, não faz ideia da complexidade química da água que possa estar a consumir.

A ligação do grupo da NOVA Medical School (NMS) a este tema acontece desde 2007, em que muitas foram as teses de doutoramento na área da morfologia do tecido adiposo, na área da inflamação e obesidade, assim como na área da doença mental. Refiro-me a teses de médicos e de outros profissionais de saúde que em muito já contribuíram para o conhecimento nesta área.

Contribuímos também para manuais da Direção-Geral da Saúde (DGS), em concreto do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), esclarecendo e ajudando o consumidor a tomar decisões mais esclarecidas. Também na unidade Universitária de Medicina dos Estilos de vida da CUF by NMS, a atividade clínica integra projetos de investigação científica nesta área.

Por último - e porque este é um tema sobre o qual muito mais há a explorar - a recomendação final de escolhas alimentares mais de origem vegetal, na dieta mediterrânica, estão muito em concordância com uma menor exposição a alteradores endócrinos por via alimentar. Um dos estudos de doutoramento de uma pediatra em crianças com diabetes tipo 1 mostrou claramente que a intervenção alimentar na diabetes, com um aumento da adesão à dieta mediterrânica, levou a uma menor presença de aditivos de plástico e outros alteradores endócrinos. Mostra, assim, que os alimentos menos ultraprocessados podem ajudar muito.

Um princípio básico na alimentação humana: variar os alimentos para variar de nutrientes, mas também para variar os tóxicos. Alimente-se bem, informe-se e, se necessário, peça sempre o conselho a um especialista em nutrição.

Coordenadora da Unidade Universitária da Medicina dos Estilos de Vida da CUF | Nutricionista nos Hospitais CUF Descobertas e CUF Tejo | Professora Catedrática da NOVA Medical School.

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