O filme "O Labirinto da Saudade" adapta a obra homónima do filósofo Eduardo Lourenço e transporta os espectadores por uma viagem através da cabeça do pensador português, sendo exibido na RTP na quarta-feira, às 21:00, e estreando-se nos cinemas no dia seguinte..Eduardo Lourenço é o protagonista e o narrador da sua própria história e vai percorrendo corredores, caminhos, salas e paisagens que representam o "labirinto da sua mente" e os recantos da sua memória, sempre em busca de resposta para a questão "o que é ser português"..Nesse caminho, confronta-se com os "traumas" do passado histórico -- como a ditadura, a escravatura e o colonialismo - procurando perceber o que define os portugueses enquanto povo, e por que se tornaram uma "nação condenada desde a sua origem a esgotar-se em sonhos maiores do que ela própria". ."É um filme melancólico, mas otimista", na medida em que confronta os espectadores com os traumas do passado, e os obriga a refletir sobre o passado e "repensar o que Portugal quer ser agora", disse o realizador Miguel Gonçalves Mendes, que também realizou "José e Pilar" (sobre Saramago) e "Autografia" (sobre Cesariny)..Enquanto passeia pelo labirinto da sua mente, Eduardo Lourenço recorda alguns fantasmas do passado, como a sua mulher Annie Salomon (que morreu em 2013), e cruza-se com amigos do seu presente, figuras da cultura lusófona como José Carlos Vasconcelos, Diogo Dória, Gonçalo M. Tavares, Gregório Duvivier, ou o astrofísico José Afonso, que assumem o papel de interlocutores e condutores das reflexões escritas no livro..Cada uma destas pessoas representa uma personagem, algumas mais ligeiras, como a "telefonista" Lídia Jorge, ou a "sedutora" Pilar del Rio que quer voltar a juntar Portugal com Espanha, outras cómicas como a de Ricardo Araújo Pereira, que representa Salazar, e outras mais profundas, como o empregado do "Bar Eternidade", Álvaro Siza Vieira, com quem Eduardo Lourenço fala sobre a morte e sobre a finitude e questiona "o que afinal fica de nós nesta vida?"..Para o realizador, este é o "melhor diálogo" do filme, em que a morte está sempre presente, sem estar de forma evidente, e que termina com Eduardo Lourenço a subir uma escadaria, enquanto todos os amigos se despedem dele..Foi intencional, reconhece Miguel Gonçalves Mendes, acrescentando que "não podemos fugir ao facto de ele ter 95 anos", e sublinhando a importância e o orgulho de fazer esta "grande homenagem que faltava a Eduardo Lourenço".."Fico feliz por celebrar a pessoa em vida, é uma homenagem justa e é particularmente bonito estrear no dia 23, quando [Eduardo Lourenço] celebra 95 anos", afirmou, reconhecendo gratidão por o ensaísta ter confiado nele e ter-se entregado.."As pessoas retratadas em documentários têm uma imensa coragem, uma generosidade extrema", afirmou, acrescentando que o que mais o marcou em Eduardo Lourenço foi a "pessoa extraordinária e humilde" que se revelou, "um génio com a nobreza de caráter de não o ostentar"..Mas nem tudo foi simples, conta, pois inicialmente Eduardo Lourenço não queria entrar no filme e chegou a pedir que arranjassem um duplo, contou Luís Sequeira, o porta-voz do grupo de amigos de Eduardo Lourenço que teve a ideia do filme..Nesse grupo que convive há mais de duas décadas, contam-se Luís Sequeira e o antigo presidente da República Ramalho Eanes, que conseguiu, através de um "movimento cívico" iniciado há mais de dois anos, criar este projeto..O convite para fazer o filme foi dirigido a Miguel Gonçalves Mendes, que inicialmente questionou se aceitava ou não, mas no fim admitiu que era "irrecusável"..Apesar de estar cheio de trabalho -- devido ao projeto "O Sentido da vida" e a um filme sobre Fátima -- decidiu aceitar e "mergulhar no labirinto do inferno sem fim do trabalho", conta..A filmagem durou 13 dias, foram 30 horas, "então os argumentos eram esqueletos abertos", ou seja, os intérpretes "sabiam sobre os temas de que tinham de falar, mas o diálogo era livre"..Os temas históricos e os saltos no tempo são apresentados com recurso a animação, excertos retirados do "Fado Lusitano", de Abi Feijó, e outros acrescentados.."Estes momentos são importantes para não nos perdermos na cronologia e perceber do que estamos a falar", explicou..O filme -- como Miguel Gonçalves Mendes gosta de lhe chamar, porque não o considera nem documentário, nem ficção -- teria de adaptar uma obra filosófica, um ensaio, contando uma história que visitasse lugares e amigos de Eduardo Lourenço, sempre respeitando o pensamento do ensaísta..Este foi outro desafio e a razão por que o realizador decidiu que o filme se passaria "dentro da cabeça" de Eduardo Lourenço e que este representaria o seu próprio papel.."O retratado revê-se no filme e isso é muito importante", afirmou, revelando o que o próprio Eduardo Lourenço lhe confessou depois de ter visto o filme pela primeira vez.