António Carneiro Jacinto aponta com orgulho para o retrato do bisavô, num dos aposentos da velha casa que recebeu de herança, nos contrafortes do Castelo de Silves. Finda a comissão de serviço no Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde exerceu as funções de porta-voz até há um mês, o veterano jornalista sentiu o apelo das raízes. Prestes a completar 55 anos, o antigo editor de política nacional da SIC quer experimentar o outro lado da barricada, tornando-se protagonista a nível autárquico. Objectivo declarado: correr para a Câmara Municipal de Silves, hoje liderada pela social-democrata Isabel Soares, que pode vir a ser destituída do cargo na sequência de um processo judicial por alegada prática de corrupção..Agora ou nunca.Natural de Lisboa mas algarvio de adopção, este jornalista, que iniciou a profissão em 1972, na redacção do extinto Diário de Lisboa, não esconde o entusiasmo perante o desafio que o faz arregaçar as mangas: gerir a autarquia da terra de origem da sua família paterna, que D. Sancho I conquistou aos mouros em 1189 e onde o seu avô homónimo foi gerente bancário, é um sonho antigo. Impulsionado pela hipótese de eleições antecipadas em Silves, precipitadas pela eventual destituição dos órgãos autárquicos, o ex-colaborador de Freitas do Amaral no Palácio das Necessidades espreita a oportunidade: há muito que "gostaria de fazer alguma coisa" pelo concelho. É agora ou nunca..Já nas penúltimas eleições locais, realizadas em 2001, houve quem o aconselhasse a concorrer. "Sobretudo gente ligada ao comércio, à restauração." Carneiro Jacinto nunca teve filiação partidária, mas não esconde uma natural sintonia com os socialistas. O pai, aliás, figurou entre os militantes de primeira hora do PS. E ele assessorou Mário Soares quando o histórico líder socialista foi primeiro-ministro do Governo do Bloco Central (1983/85), transitando para as mesmas funções em Belém quando Soares tomou posse como Presidente da República (em 1986)..Mas afinal o que o liga a Silves? "Tudo", responde o jornalista, revelando ao DN que passou aqui praticamente todas as férias - e incontáveis fins-de-semana - quase até atingir a idade adulta. Viveu até aos 16 anos em Faro, onde completou o ensino secundário, mas sempre que tinha oportunidade rumava à ve- lha casa silvense, construída em 1901. Ainda conheceu a bisavó, que costumava oferecer-lhe notas de 20 escudos. "Era um dinheirão para a época." Estávamos no final dos anos 50.."Conheço praticamente toda a gente aqui na cidade e quase toda a gente me conhece. Também não admira: um dos meus tios foi aqui notário, outro era advogado, um terceiro era o dentista da terra e ainda havia outro que era solicitador", afirma o homem que se diz capaz de "reanimar" Silves. Falta saber por que sigla irá concorrer. O PS é a primeira hipótese. Mas o jornalista, que conhece bem por dentro as estruturas políticas, não esconde algum cepticismo: "Participei numa reunião com cerca de 30 militantes do partido e não tardei a verificar que estavam divididos por cinco grupos...".Em aberto mantém-se a possibilidade de se apresentar às urnas como independente, permitida pela legislação em vigor para as candidaturas autárquicas. Mesmo neste cenário, conserva o optimismo: "Tenho o apoio de muitos eleitores simpatizantes do PCP [partido que deteve a Câmara de Silves durante vários mandatos] e do PSD, que têm procurado incentivar-me.".O neto "italiano"."Mais opulenta e forte que Lisboa, a praça de Silves constava da cidade velha (almedina), localizada em sítio alto e muralhado, coroada ao alto pela soberba alcáçova, e da cidade baixa, nos seus subúrbios, delimitada por uma cerca exterior de muralhas e torres, cuja maciça albarrã dominava toda a campina." Assim rezava um detalhado relato da conquista de Silves, no século XII, feito por um cavaleiro inglês. Junto às muralhas deste mesmo castelo, que recebe 180 mil visitantes por ano, a casa secular ganha por estes dias uma animação nova: o neto de António, de oito meses, vai ali passar as primeiras férias estivais em Portugal e o avô babado não esconde o entusiasmo. A tal ponto que já comprou uma piscina desmontável para que o pequeno Zacarias ali possa chapinhar, acompanhado do pai italiano (de Parma) e da mãe, a filha única do jornalista que sonha ser autarca. .Carneiro Jacinto está, no entanto, consciente das dificuldades. Silves é - a seguir a Loulé - o segundo maior concelho do Algarve, dividindo-se entre freguesias do interior, como São Marcos da Serra, e do litoral, como Armação de Pêra. Tarefa complicada para este "montanheiro", como o jornalista gosta de se definir, adoptando uma antiga expressão que designa o algarvio serrano. .Mas ele diz-se animado com este desafio. Até porque o concelho de Silves "tem de levar uma volta, pois está uma vergonha". Se vier a ser eleito, qual será a grande prioridade? Acudir com urgência a Armação de Pêra, "uma das praias mais bonitas do Algarve, estragada por uma construção absolutamente assustadora, ainda pior que Quarteira". Enquanto autarca, decretaria de imediato uma moratória de cinco anos a novas construções no local. E, se pudesse, não hesitaria até em fazer implodir alguma.