O meu avô Jacinto, por ser geólogo e natural de Angra do Heroísmo, terra que deixou para trás aos 18 anos para ir estudar em Coimbra, tinha um particular interesse por sismologia. Gostava de jogar com os netos um jogo do "treme-treme", uma forma de nos ensinar, de forma divertida, os conceitos de risco sísmico e o que deveríamos fazer durante e após um terramoto. Lá andávamos nós, a correr e a rir, debaixo das mesas e das camas, com os braços a proteger a cabeça e os olhos..Nos Açores, os terramotos são frequentes. Uma atividade sísmica relativamente constante sacode as estonteantemente bonitas ilhas vulcânicas. O santo protetor dos terramotos, São Francisco de Borja, um jesuíta, está pintado na Igreja de Santa Bárbara, localizada nas Manadas, concelho de Velas, na costa sul da ilha de São Jorge. A pintura remonta ao início do século XVI. Também os sismos na Serra de Santa Bárbara, na Ilha Terceira, fazem os locais pedir a proteção de uma santa com o mesmo nome. "Valha-nos Santa Bárbara!", é comum os açorianos exclamarem mal escutam um trovão..Quando se fala da possibilidade de um terramoto de grande magnitude voltar a ocorrer em Portugal, com o fantasma do apocalíptico evento de 1775 ainda bem presente, é inevitável ouvir que o que está em causa não é se vai acontecer, mas sim quando, com Lisboa e o Algarve como zonas de maior risco..Um novo estudo, divulgado esta semana, da autoria de cientistas alemães e turcos, garante que os grandes terramotos podem dar sinais detetáveis com meses de antecedência e que "apresentam uma fase de preparação que pode ser monitorizada". O artigo, publicado na última edição da revista Nature Communications, analisa o sismo de magnitude 7,8 registado em fevereiro na Turquia e na Síria, que causou milhares de mortos, e garante que cerca de oito meses antes já havia sinais de alerta..Os cientistas descobriram que as áreas afetadas registaram "uma aceleração nas taxas de eventos sísmicos e um aumento na libertação de energia num raio de 65 quilómetros do epicentro". "Alguns grandes sismos podem apresentar uma fase de preparação, monitorizável, mas devido ao grande número de variáveis envolvidas, como o estado atual de conhecimento, o alerta sísmico a médio prazo permanece no futuro da sismologia", escrevem os autores, apelando ao desenvolvimento de sistemas de alerta, monitorização e a mais redes de deteção..Metade das construções em Lisboa não estão preparadas para um abalo de grande magnitude. Em entrevista ao DN, a 15 de setembro de 2023, José Paulo Costa, especialista em reabilitação estrutural, alertou para o facto de em Portugal os edifícios construídos antes dos anos 1980 serem "muito vulneráveis a sismos". "As construções depois dos anos 80, pela regulamentação, são resistentes ao sismo, mas podem não ter sido construídas de acordo com as melhores práticas, porque não há fiscalização nessa área. Mas a grande maioria das nossas casas no sul do país, mais do que metade, talvez, são sensíveis ao sismo", disse José Paulo Costa. "Os especialistas dizem que temos 72 horas para atuar depois de um sismo, mas eu digo que temos 10 anos antes de um sismo. Temos é de começar já. O sismo é uma viagem: se formos preparados as coisas correm bem, ou menos mal, mas se não formos preparados às vezes pode ser fatal", acrescentou..A Associação Portuguesa de Seguradores tem o risco de um terramoto estudado e calculou que um sismo com as características do de 1755, que teve uma magnitude de 8,7 a 9 na escala de Richter, "poderia ascender a 20% do nosso PIB"" em danos patrimoniais. E vidas? Quantas se perderiam? Se, ou melhor dizendo quando, Lisboa voltar a tremer como no século XVIII, estaremos sem dúvida mais bem preparados, mas continuamos complacentes. Resta-nos rogar a Santa Bárbara?.Subdiretora do Diário de Notícias