O incrível azar do primeiro português que dá cartas no luge

Hugo Alves sofreu uma queda e teve de adiar participação na Taça do Mundo. O grande objetivo continua a ser estar nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018
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Hugo Alves ia tornar-se neste fim de semana o primeiro português a participar numa etapa da Taça do Mundo de luge, desporto olímpico de inverno que se pratica num trenó, numa pista de neve, ao estilo do bobsleigh. O sonho de Hugo, porém, teve de ser adiado na sequência de uma queda que o atirou nesta semana para o hospital precisamente na preparação dessa prova, em Pyeongchang (Coreia do Sul).

O alerta foi dado pelo próprio atleta com um post no Facebook a dar conta do acidente. Contactado pelo DN através do Skype, não restaram dúvidas, ao surgir deitado numa cama de hospital coberto de ligaduras. "Não estou muito bem. Tenho duas costelas partidas e duas fraturas na coluna. Esta época acabou e terei de ficar pelo menos três meses parado", lamentou Hugo Alves, também professor de Inglês, que mora na cidade japonesa de Sapporo, na ilha de Hokkaido, para onde se mudou há cinco anos - é casado com uma japonesa, que conheceu no navio onde ambos trabalhavam (ele era fotógrafo).

"Tudo aconteceu numa curva perigosa. Caí de lado, de uma altura de dois ou três metros, tudo isto acrescido do peso do trenó, cerca de 25 quilos e a mais de cem quilómetros por hora", descreveu ao DN, lamentando o timing do acidente: "Aconteceu na pior altura, a poucos dias da competição, depois de ter batalhado tanto para aqui chegar. Não posso ficar abatido e tenho de começar a pensar no futuro."

A participação nesta etapa da Taça do Mundo não será uma realidade, mas Hugo mantém o desejo de estar presente nos Jogos Olímpicos de Inverno, que se realizam em 2018, curiosamente na mesma pista onde sofreu o acidente. "Claro que esse continua a ser o meu grande objetivo! Para estar presente nos Jogos Olímpicos é preciso participar em pelo menos cinco provas mundiais e, claro, ter bons resultados. Esta prova era importante, mas terei mais oportunidades para somar os pontos necessários", antevê.

A paixão de Hugo Alves por este desporto surgiu após assistir ao filme Jamaica Abaixo do Zero, que retrata a história de quatro jamaicanos praticantes de bobsleigh (uma das três modalidades de descida de trenó) que sonhavam competir nos Jogos Olímpicos, apesar de nunca terem visto neve na vida. "É uma modalidade diferente do luge, mas pratica-se na mesma pista. Quando em 2013 vi imagens do luge pela primeira vez, fiquei fascinado e perguntei à minha mulher onde podia praticar. Ela foi à janela disse-me "é já ali, a dois minutos da nossa casa!""

Hugo visitou o local, experimentou e adorou. No final falou "com um velhote que trabalhava na pista", que, apercebendo-se do seu entusiasmo, lhe perguntou se queria passar a treinar por ali. A resposta foi afirmativa e no dia seguinte lá estava! A evolução foi fantástica: ao fim de duas semanas já estava a participar em provas regionais e pouco tempo depois ganhou o título de campeão da ilha de Hokkaido, entre amadores. Rapidamente passou a competir com os melhores, na Taça da Ásia, e com excelentes resultados. Recentemente, surgiu a boa--nova que há tanto esperava: a Federação de Desportos de Inverno de Portugal inscreveu-o na Federação Internacional de Luge, o que permite a sua participação nas etapas da Taça do Mundo. De resto, já tinha tentado os Jogos Olímpicos de Sochi, em 2014, mas o contacto foi realizado muito próximo da competição e a resposta não foi positiva.

"A perícia que é necessária para a condução do trenó a grande velocidade e a adrenalina" são as principais razões que o levaram a apaixonar-se pelo luge. Os poucos recursos financeiros são a sua principal dificuldade - as deslocações para as competições têm saído do seu bolso e ainda não conta com o apoio financeiro da Federação Portuguesa de Desportos de Inverno, que aguarda a aprovação do Instituto Português do Desporto e Juventude. No entanto, já teve a garantia de que esta sua malfadada deslocação a Pyeongchang vai ser paga em março.

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