No ano de 1930, o francês Jean Giono, nascido em 1895, deixou a carreira de bancário que exercera nas duas décadas anteriores, para se dedicar a tempo inteiro à escrita. Até 1970, ano da sua morte, o autor entregaria ao mundo das letras inúmeras obras de ficção e não ficção, entre elas o seu retrato do mundo, corporizado nas lutas da população camponesa. A trilogia Pan, escrita entre 1929 e 1930 alberga os títulos Colline, Un de Baumugnes e Regain, numa visão panteísta da natureza. Giono deixou poucas vezes a sua terra natal, Manosque, aconchegada nos Alpes da Provença, parte do grande setor ocidental da cadeia montanhosa europeia. Uma das surtidas para fora dos vales alpinos, embrenhou o escritor nos horrores da I Guerra Mundial, na batalha de Verdun, encontro tenebroso entre os exércitos alemão e francês que Jean Giono em parte exorcizaria numa das obras mais traduzidas do autor. Prosa curta, com não mais de 4000 palavras, O Homem que Plantava Árvores (no original L"homme qui Plantait des Arbres), de 1953, convida o leitor a enveredar com o pastor Elzéard Bouffier num vale sedento e árido no coração alpino da primeira metade do século XX. O livro, tornado manifesto da causa ecologista, confronta o pastor Elzéard com a figura do narrador que, a espaços, visita o lugar onde se desenrola a ação.Ao longo de décadas (a narrativa finda em 1945), o pastor refloresta a região. Bolota após bolota, Bouffier faz brotar uma nova floresta, milhares de árvores que convidam ao repovoamento humano e animal do vale. A narrativa de Elzéard Bouffier ao fundar-se num discurso credível, levou inúmeros leitores a acreditar como real aquilo que fora ficcionado pelo escritor. Também na ficção, desta feita num outro espaço geográfico, a América do Norte e substanciada outra dimensão das artes, o cinema de animação, o ano de 1948 deu à tela um filme musicado com a assinatura da Disney. Melody Time, conta com diferentes fragmentos musicais, entre eles uma peça de 17 minutos com o título The Legend of Johnny Appleseed. A animação recorda uma figura mitificada, a de um plantador de árvores que fez da sua vida o caminho da fronteira americana em expansão para oeste, semeando macieiras, centenas de milhares delas, fonte de alimento e da imprescindível sidra, largamente consumida na época..Do mito à realidade, ao contrário do ficcionado Elzéard Bouffier, Johnny Appleseed teve uma existência concreta. O homem que plantava árvores nas vastidões norte-americanas nascera, em setembro de 1774, de nome John Chapman e, até à década de 1840, introduziu a cultura da macieira em estados como a Pensilvânia, Ohio, Indiana, Illinois, Virgínia Ocidental e, mais a norte, no território da atual província canadiana do Ontário. Appleseed, frugal na sua existência, afável no trato, atento às congeminações da natureza, tornar-se-ia uma lenda viva americana, um herói perpetuado em livros, filmes, músicas, trilhos para caminheiros e festivais..Johnny Appleseed nasceu em Leominster, no estado do Massachusetts, segundo filho de Nathaniel e Elizabeth Chapman. Aos 18 anos, deixou a casa do seu pai (que, entretanto, se casara segunda vez) e parte em direção ao oeste americano. Em 1792, a fronteira atraía Appleseed, onde vaguearia nos anos seguintes. No Ohio, Johnny iniciou a aprendizagem agrícola num pomar. Corria o ano de 1805, a família numerosa do pai juntara-se a Applessed que, então, professava, os ensinamentos do cientista, inventor, místico e filósofo sueco Emanuel Swedenborg. O polímata do século XVIII não se limitara a inventar a "máquina de voar", também lançou as ideias para o swedenborgianismo, cujo fundamento se liga à crença na harmonia entre o mundo espiritual e o mundo físico. Desta visão partilhava a Igreja da Nova Jerusalém à qual pertencia Johnny Appleseed. Em 1806, ao embarcar numa viagem de canoa pelos rios Ohio, Muskingum e Walhonding, o plantador de macieiras não levava apenas a suas sementes, carregava também um espírito missionário. Contudo, a imagem popularizada de um Appleseed a entregar sementes aos quatro ventos peca pelo erro. John criava viveiros e não pomares, protegia-os das investidas do gado, deixava a gestão do terreno a terceiros e regressava a cada ano ou dois anos para cuidar do viveiro..Incansável nas suas viagens, Appleseed plantou viveiros próximo a cidades em diferentes estados. Um afã nas estradas norte-americanas descrito amiúde por autores da época. Entre eles, Rosella Rice, natural do Ohio, romancista e poetisa com uma carreira literária de mais de 40 anos, "dona" de inúmeros pseudónimos, como o quase impronunciável Pipsissiway Potts, autora de livros de receitas, Aunt Chatty Brooks, que geria uma pensão para mulheres jovens, ou Sam Starkey, uma velha coscuvilheira com sentido de humor. Sobre Johnny Appleseed escreveu Rosella Rice em 1863 na History of Ashland County: "Era um homem pequeno, rápido e inquieto de movimentos e conversas..Tinha a barba por fazer, o cabelo era comprido e escuro, os olhos negros e brilhantes. A sua vida era difícil. Por vezes dormia na floresta. As suas roupas eram velhas e recebia-as em troca de macieiras. Andava descalço e, muitas vezes, viajava sobre neve dessa forma. Usava na cabeça um utensílio de estanho que servia, ora de chapéu, ora de panela". O caráter excêntrico de Appleseed alimentou o mito e a proliferação de histórias a seu respeito: não alimentava as fogueiras para não matar insetos; fazia-se acompanhar de um lobo que salvara, adquirira um enorme terreno para alimentar um cavalo cuja sorte, não fosse a bondade de Johnny, teria sido o abate. O historiador Paul Aron no seu livro de 2020, American Stories: Washington"s Cherry Tree, Lincoln"s Log Cabin, and Other contraria a imagem de frugalidade que se colara ao plantador de macieiras: "Era na verdade um empresário de sucesso. Comprou muitos dos lotes de terra onde plantou as suas sementes e, por fim, acumulou cerca de 1200 acres [485 hectares] em três estados.".Nos quase dois séculos seguintes após a sua morte, Appleseed deu mote à obra de poetas como Nicholas Vachel Lindsay, na década de 1920 e a Rosemary Carr Benét e Stephen Vincent Benét, nos anos de 1930, que mitificaram a história do homem que percorreu milhares de quilómetros a plantar macieiras. Em 2009, o realizador bósnio Miroslav Mandic entregou à Sétima Arte o filme Searching for Johnny, homenagem ao pioneiro nas figuras de três "Johnny Appleseeds" modernos: Bill Jones, um consultor que passou 15 anos a construir um anfiteatro no deserto de Ohio, a fim de encenar uma peça sobre a vida de Johnny. Hank Ruppertsberger, diretor de uma escola secundária de New Hampshire que passou um verão a caminhar do Massachusetts ao Indiana, ao longo dos trilhos Appleseed e a do jovem engenheiro informático John Kolling que abandonou Silicon Valley para se entregar ao cultivo de macieiras.."Quando penso que um homem sozinho, reduzido aos seus simples recursos físicos e morais, bastou para fazer surgir do deserto esta terra prometida, penso também que, apesar de tudo, a condição humana é admirável. Mas quando considero a grandeza de alma e a generosidade necessárias para obter este resultado, sinto um imenso respeito por esse velho camponês sem cultura que soube realizar obra digna de Deus. Elzéard Bouffier morreu serenamente em 1947 no hospício de Banon", escreveu Jean Giono no seu O Homem que Plantava Árvores. Johnny Appleseed faleceu em março de 1845 na sua cabana no Ohio, onde se estabelecera grande parte da sua vida.. dnot@dn.pt