Quando certa vez perguntaram ao clarinetista e líder de big band Artie Shaw o que é que as mulheres viam nele - foi casado oito vezes, inclusivamente com as actrizes Ava Gardner e Lana Turner -, o músico respondeu «Vamos lá ver, eu era um garanhão bem-parecido. Mas não era isso. Era a música; era estar ali num palco sob as luzes. Muitas mulheres perdem a cabeça; o aspecto não é para ali chamado. Acham o Mick Jagger bonito?».Shaw, que morreu na passada quinta-feira, dia 30 de Dezembro, em Nova Iorque, aos 94 anos, teve duas grandes paixões na vida. As mulheres - daí os oito casamentos, sempre com grandes belezas - e a música. Ele foi, além de um fabuloso clarinetista, um dos maiores maestros de big bands da história do jazz, igual de Benny Goodman, Glenn Miller e Tommy Dorsey, celebrizado pelos seus arranjos swingantes de temas de Cole Porter, Jerome Kern ou Richard Rodgers, entre outros. Artie Shaw também tocou com grandes do jazz como Buddy Rich ou Mel Torme, tendo sido um dos primeiros, senão mesmo o primeiro big bandleader a trabalhar com uma cantora negra - Billie Holiday..Nascido Arthur Arshawsky a 10 de Maio de 1910 no Lower East Side de Manhattan (mudaria o nome para Artie Shaw depois de lhe terem dito que soava como um espirro), Shaw aprendeu a tocar saxofone aos 15 anos, antes de adoptar o clarinete como seu instrumento de marca e começou a tocar profissionalmente ainda adolescente em grandes orquestras e na rádio e em discos, muitas vezes ao lado do também jovem Benny Goodman..Já então era um leitor ávido, devorando livros nos intervalos dos ensaios, quando os outros músicos iam conversar, fumar ou beber. Nos anos 30, chegou mesmo a considerar deixar a música e tornar-se escritor..Em 1935, no intervalo de um concerto de swing num teatro de Nova Iorque, enquanto as orquestras principais descansavam, Artie Shaw e um pequeno grupo de músicos foram «encher» o tempo morto. Tocaram uma composição de Shaw, Interlude in B. Flat, «uma espécie de música de câmara em estilo jazz», e causaram enorme sensação. Pouco tempo depois, o clarinetista formou uma orquestra decalcada da de Benny Goodman, prometendo que seria «a mais barulhenta de todo o mundo»..Em 1938, o seu arranjo swing de Beguin the Beguine, de Cole Porter, tornou Artie Shaw definitivamente famoso. Destinado a ser o lado B de um disco, o tema tornou Shaw num dos músicos mais bem pagos dos EUA - chegou a ganhar 30 mil dólares por semana. Em 1939, descontente com a música, as exigências do sucesso, a «ganância» que a seguia e a histeria dos fãs («Débeis mentais», chamava-lhes), foi viver incógnito durante alguns meses no México, de onde voltou para gravar um novo e estrondoso sucesso, Frenesi, que lhe aumentou ainda mais a popularidade..Durante a II Guerra Mundial, Artie Shaw alistou-se com parte dos seus músicos na Marinha e formou uma orquestra para entreter as tropas americanas no Pacífico. Acabado o conflito, formou vários agrupamentos, incluindo um de música clássica. Em Março de 1954, anunciou que se ia retirar da música. Tinha 43 anos, era famoso, admirado pelos outros músicos e rico, mas criativamente estava insatisfeito. «Procuro sempre a perfeição. Sentia-me frustrado porque andava a perseguir um horizonte que me fugia constantemente. Por isso desisti», explicou mais tarde..Shaw dedicou-se à escrita, a criar gado, a produzir filmes e a fazer palestras sobre o artista no mundo moderno, a era das big bands e a monogamia e o divórcio, estas na qualidade de «ex-marido de deusas do amor e autoridade no tema». Em 1983, formou a Artie Shaw Orchestra, à frente da qual aparecia ocasionalmente, e só como maestro. «Já fiz tudo o que podia fazer com um clarinete», disse numa entrevista, em 1994. .No ano passado, Artie Shaw recebeu um Grammy de carreira.