É um fenómeno entre o público infantil para o qual poucos conseguem encontrar explicações. Mas desde que a série Hannah Montana foi para o ar no Canal Disney que todas as miúdas com menos de 15 anos querem ser como ela. Uma adolescente que tenta ter uma vida normal como rapariga de liceu e, ao mesmo tempo, ser ultrafamosa como cantora pop. E da sitcom nasceram dois filmes. Primeiro, o filme-concerto e, agora, a ficção que triunfou nas bilheteiras dos EUA. Não haja dúvidas, Miley Cirus, a actriz que dá vida a Hannah Montana, sabe conquistar fãs. Miley Cirus é, em certa medida, Hannah Montana. O filme é precisamente sobre essa dicotomia: entre a vida privada e a persona do showbizz. Quem é Miley, quem é Hannah? Hannah Montana – O Filme, de Peter Chelsom, não quer ser um tratado sobre a dupla personalidade, mas não deixa de avançar teorias curiosas sobre dissonância de personalidade. Afinal de contas, a actriz Miley Cirus interpreta uma Miley Stewart que é confundida com o seu nome artístico: Hannah Montana. Na vida real, também já todos suspeitam que Miley anda confundida com a fama de Hannah. E, acreditem, não vale a pena censurá-la, sobretudo quando a rapariga vê o seu alter ego subir ao topo de vendas do top da Billboard e ter uma adoração teen e infantil só comparada aos Jonas Brothers. Mas Miley Cirus tem uma vantagem: sabe chegar ao coração das meninas. Ela veste as roupas certas e tem a linguagem genuína que bate certo. É um produto perfeito já com alguns anos de rodagem. Todos estão a crescer a ver Miley, ou Hannah. Neste filme, a história anda à volta precisamente dos limites entre o estrelato e a vida pessoal desta cantora juvenil. A Miley da ficção precisa de um banho de humildade. Para o conseguir, o seu pai, também estrela da música country, obriga-a a passar uma temporada no Tennessee, onde é obrigada a uma fatia de vida de campo, entre deveres na quinta e muita passeata a cavalo. Nesse período, Miley reflecte sobre os limites da fama e a essência da sua música (o melhor é dar espaço para baladas e canções pessoais…). É claro que tudo isto é contado em modo adolescente, com paragens para videoclips na paisagem campestre e algum namorico fotogénico. Desta vez, Hannah não tem a sua inoportuna agente nem o habitual aparato de Hollywood. Foi com este ponto de partida que o realizador de Dançamos? (um péssimo drama romântico com Jennifer Lopez e Richard Gere) tentou fazer cinema com este rastilho de sitcom televisiva. «Disse à Miley que a iria tratar como actriz e não como miúda», conta Peter Chelsom. E continua: «E a verdade é que ela adorou esse método de trabalho. A melhor maneira de a domar foi fazê-la ver o quão divertido podia ser este papel. Na verdade, não foi complicado domar a Miley Cirus.» Para Peter, era importante fazer ver à sua estrela que desta vez o panorama não era televisivo. Quem vê o filme pode ficar com dúvidas mas não há nenhuma fã que veja defeitos em todo o processo. Mas, aconteça o que acontecer, Miley Cirus tem ganho um arraial de elogios por manter um profissionalismo que dura há anos. De criança até à idade adolescente, o seu profissionalismo foi sempre uma evidência, quer em concertos quer na concretização de um horário duro que quase não a deixou ter uma adolescência normal.Tal como a vida pessoal de Cirus, o filme tenta também ser mais adulto do que a série da Disney. Há um avanço no que toca aos sentimentos e às situações. Esta versão para o cinema tenta agradar aos fãs da primeira geração da série. Fãs que também estão a sentir os tormentos do crescimento e das hormonas aos pulos. Ainda assim, tudo é feito dentro das regras mais estritas da Disney – Hannah Montana – O Filme é um produto para a família. Chelsom, por sua vez, garante que nunca ficou preso a nenhuma fórmula: «Enquanto rodava o filme nunca me senti aprisionado àquela ideia feita do filme Disney. Quando me encontrei com os chefes da Disney, logo no começo da pré-produção, avisei-os que a minha intenção não era seguir mandamentos Disney… Na verdade, nem quis fazer um filme completamente a pensar na família. Nada disso! Quis fazer um filme à minha maneira, mesmo sabendo que não podia pôr ninguém a blasfemar nem a tirar a roupa…» Mesmo assim, vemos um beijo. O primeiro beijo de Hannah Montana. Um beijo pudico, pois então. O realizador explica-se: «Tinha três tipos de escala para o beijo e mesmo o grau mais avançado não tinha nada de sexy… Vamos ser realistas: se fossem beijos “muito avançados” nenhuma mãe deixaria as filhas verem este filme. Basicamente, tive de decidir entre mostrar... ou não mostrar.» Nesta onda de castidade Disney, todo o fenómeno conservador em prol da virgindade entre a juventude americana acaba por ser um sintoma do que se sente em filmes como este, sendo que Miley Cirus, na vida real, tem um namorado que já apresentou aos media. Quem é verdadeiramente fã da série vai ficar surpreendido ao reparar como nesta versão para cinema certas personagens são ignoradas. Com o seu sotaque muito britânico, Peter Chelsom defende a dama: «Achámos que se tentássemos explorar subperipécias e personagens secundárias não conseguiríamos, num filme de hora e meia, atingir o essencial. Creio que não seria um produto equilibrado.» Está explicado. Mas quanto ao fenómeno do sucesso de Miley Cirus enquanto cantora, o realizador evita falar muito. Quem a viu ao vivo garante que a moça tem um vozeirão a sério. Chelsom realça outros factores: «A Miley é de uma beleza para além dos padrões de beleza mais comuns. Diria que tem qualquer coisa de acessível. É uma actriz que não se importa em perder a dignidade, ou seja, sabe ser tonta. De facto, ela pode ser muito pateta. Tudo isso faz dela alguém com um lado humano muito forte. Para além disso, exibe uma impressionante vitalidade, mesmo quando está quieta. Na fase de montagem ia sempre ver o seu rosto, mesmo quando a cena não era com enfoque sobre si.» Quase a corroborar estas declarações, recentemente ganhou o prémio nos MTV Awards de melhor revelação. Quer queiramos quer não, Miley Cirus está aí para durar. Vai haver mais Hannah Montana na televisão e os estúdios de Hollywood estão cheios de contratos com o seu nome. Irritante ou não, Cirus é o exemplo assustador do que é ser uma nova diva de Hollywood..BILLY RAY CIRUSO pai de Hannah e… MileyQuando a ficção fica menos estranha do que a realidade somos obrigados a pensar no pai de Miley Cirus, Billy Ray Cirus, que no filme e na série é também o pai de Hannah Montana. Numa altura em que promovia o filme, este cowboy e cantor do Tennessee mostrou que é um pai babado. O sucesso da filha deu-lhe um novo fôlego. A seguir, será visto ao lado de Jackie Chan na comédia The Spy Next Door..Como é que fica o seu orgulho de pai depois de ver a sua filha com tanto sucesso?Estou orgulhoso sobretudo da forma como ela está a gerir o sucesso. Sabe, há muita pressão para quem está com tanto holofote em cima… A Miley está a atravessar tudo isto com muita dignidade. Tenho-a visto a fazer muitas coisas que são bons cartões-de-visita para os miúdos. Ela tem usado a sua fama para ser uma força positiva na indústria do entretenimento. Antes de ela nascer decidi baptizá-la de Destiny Hope (Miley é um diminutivo) porque sempre soube que o seu destino seria trazer esperança para o mundo..No passado muitas estrelas juvenis Disney tiveram em seguida vidas adultas complicadas. Não tem receio pela sua filha?A Miley é muito esperta e, mais importante, tem um grande coração. Todas as suas escolhas são boas, ainda que ninguém seja perfeito. Ela tem de seguir a sua vida degrau a degrau. No filme ela bem canta: «A vida é uma escalada»… Se ela fizer uma má escolha, só nos resta fazer ajustamentos….Onde é que vê a sua filha daqui a uns anos?Não sei se ela ainda irá fazer mais um filme Hannah Montana. Nunca digo nunca… Mas vamos ver o que o futuro nos reserva. Para já, ela fez o muito poderoso The Last Song, onde interpreta um papel muito diferente. Trata-se de um grande argumento. Estou muito excitado com esse seu trabalho. Entre eu e a minha filha o truque é preocuparmo-nos apenas degrau a degrau. Ela tem aí uma digressão mundial a começar e eu também. Cada um de nós tem os seus projectos. Vamos ver no que isto dá, com calma. Talvez devesse ser mais sistemático no que toca a planos….Não lhe faz impressão começar a vê-la como interesse romântico? Neste filme Miley tem direito ao seu primeiro beijo no grande ecrã…A primeira vez que ela apareceu na televisão, na série Doc, o tema era o seu namoro com uma criança, portanto… Quando a vi a beijar o rapaz, e era apenas um beijo na cara, pensei logo: «Caramba! A minha menina está a crescer!!» Agora, quando a vejo a beijar o Lucas Till só me vem à cabeça que ele vai ser uma estrela de cinema da ordem de grandeza de um Tom Cruise…