O homem que aterrorizou o mundo na guerra fria

Nascido na Venezuela em 1949, Carlos, 'O Chacal', foi o maior símbolo do terrorismo internacional nos anos 60, 70 e 80. Está preso para toda a vida em França.
Publicado a
Atualizado a

Às vezes, os jornais também ajudam à criação dos mitos. Em 1975, poucos dias depois de Carlos ter matado a tiro dois agentes franceses e o seu contacto libanês em Paris, Barry Woodhams, o namorado inglês de uma antiga namorada do terrorista encontrou um saco com armas no apartamento que ocupavam em Londres. Woodhams telefonou a um jornalista do The Guardian chamado Peter Nieswand, que veio examinar o achado, e o apartamento.

Nieswand reparou que numa estante estava um exemplar de O Dia do Chacal, de Frederick Forsyth, sobre uma tentativa de assassinato a De Gaulle, e deduziu que Carlos tinha lido o livro. No dia seguinte, o The Guardian chamava "O Chacal" a Carlos em manchete, e o nome pegou para a posteridade. Muito embora o livro pertencesse a Woodhams ou à namorada, e o mais certo é que Carlos nunca o tenha lido.

O homem que foi o maior símbolo do terrorismo internacional durante a Guerra Fria nasceu Ilich Ramírez Sánchez em Caracas, em 1949. O pai, um advogado comunista, deu aos três filhos os nomes de Lenine (os dois irmãos mais novos de Carlos foram baptizados Lenine e Vladimir), apesar do pedido da mãe para "poupar" o mais velho. Illich juntou-se à Juventude Comunista do PC venuzuelano aos dez anos e, na década de 60, terá frequentado um campo de férias em Cuba onde ensinavam técnicas de guerrilha.

Após o divórcio dos pais, em 1966, foi viver com a mãe para Londres e estudou na London School of Economics, indo mais tarde para a célebre Universidade Patrice Lumumba, em Moscovo, de onde seria expulso em 1970. Nesse mesmo ano, abraçou a causa da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), tendo recebido treino de guerrilha na Jordânia.

A sua primeira acção mais destacada foi a tentativa de assassínio, em Londres, em 1973, de Joseph Sieff, um conhecido empresário judeu e vice-presidente da Federação Sionista Britânica. Dois anos depois, o episódio em que Carlos matou os dois agentes da DST francesa e o seu contacto libanês em Paris trouxe-lhe notoriedade. A 21 de Dezembro de 1975, concretizou o seu golpe mais ousado e sangrento: o assalto, em Viena, à reunião dos líderes da OPEP, que foram sequestrados num avião e só libertados após Carlos ter recebido entre 20 e 50 milhões de dólares. Seria expulso da FPLP pelo seu líder e mentor, Wadie Haddad, por não ter matado dois dos reféns, o ministro das Finanças do Irão e o ministro do Petróleo da Arábia Saudita.

Em meados da década de 70, Carlos ligou--se à STASI, a polícia política da ex-RDA, através da qual se fazia a sua ligação com Moscovo e com o KGB, passando a ter instalações em Berlim-Leste. Era já um ídolo da guerrilha internacionalista, e de alguma "esquerda caviar". Após vários atentados à bomba na Europa, passou a viver em Budapeste, de onde seria expulso em 1985, instalando-se depois na Síria após lhe ter sido recusada ajuda em países como o Iraque, Líbia e Cuba.

A queda do Muro de Berlim e o fim do mundo comunista tornaram-no numa figura anacrónica e incómoda para os regimes que o haviam protegido. Em Agosto de 1994, o Governo do Sudão, onde Carlos, gordo e doente, se tinha refugiado, entregou-o nas mãos da DST. Tinha sido operado aos testículos dois dias antes. Julgado em Paris em Dezembro de 1997, foi condenado a prisão perpétua. Em 2003, publicou um livro onde defendia Ben Laden e Saddam Hussein. Tentou, sem sucesso, impedir a exibição de Carlos, de Olivier Assayas, por a minissérie de televisão e a versão para cinema o poderem prejudicar nos casos que ainda tem de enfrentar nos tribunais. E por dar uma "imagem mentirosa" dele.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt