O homem das estrelas

Desde a Pré-História que existem evidências de observação astronómica. A tecnologia incrementou a fotografia de imagens a vastas distâncias e percebe-se bem que, em nome da ciência, astrofotógrafos amadores colaborem com astrónomos profissionais. Paulo Casquinha é um desses homens que olham e fotografam o céu em busca de conhecimento.
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Há pouco tempo, num jantar com um amigo de infância que reencontrou através do Facebook, Paulo Casquinha recordou-se bem de quando tinham ambos 10 ou 11 anos e tentaram fazer um telescópio com um tubo de cartão e lentes de óculos. A experiência não deu em nada, até porque não dispunham de internet que lhes permitisse pesquisar diagramas e técnicas de construção. Mas a imagem fê-lo rir muito. Lembrou-se de quando os seus olhos ardentes de miúdo aproveitavam todos os momentos livres para se virarem para o céu. Entre copos e memórias, hoje com 44 anos e um astrofotógrafo amador dos bons, sentiu-se feliz por ter seguido aquela paixão antiga.

«Sou da geração que viu o homem ir à Lua. Vibrava com a série televisiva Espaço 1999 e o Cosmos de Carl Sagan, como a maior parte dos astrónomos da minha idade. Já nessa altura o fascínio era total», conta Paulo Casquinha, irremediavelmente viciado em astrofotografia planetária de alta-resolução, que lhe rouba horas de sono e o fez montar um observatório fixo no terraço de casa, em Palmela. É de certeza ali que está quando ninguém sabe dele, compulsivamente agarrado ao telescópio. «Preciso de uma paciência de chinês devido à camada de atmosfera existente entre nós e o espaço», diz. Uma noite de céu com estrelas a brilhar, ao contrário do que creem os românticos, é o pior que pode haver para o seu trabalho. «A atmosfera terrestre é uma zona extremamente turbulenta. Se as estrelas cintilam é porque a luz, ao atravessá-la em direção ao observador, passa camadas de diferentes temperaturas e densidades de ar, com índices de refração diferentes.» Em vez de chegar direta da estrela para o seu olho, desvia pelo caminho e aparece a tremer na câmara. «É o preço a pagar por trabalhar com um telescópio enorme, com uma distância focal de 12 metros (o equivalente a ter um instrumento de 12 metros de comprimento). A resolução é tão alta que o torna sensível à turbulência.»

Para fazer uma imagem de alta-resolução, Paulo tem de sentar-se em frente do computador, com a câmara ligada ao telescópio a apontar para Saturno, Júpiter, Marte, o Sol ou o que for, e ficar à espera daqueles momentos em que a turbulência abranda para começar a gravar. Não é um processo que possa ser automatizado, como sucede com a astrofotografia de galáxias e nebulosas, que ele também faz de vez em quando pelo gozo que lhe dá. «Aí, com um equipamento computorizado como o meu, basta estar dez minutos a parametrizar a galáxia A, B ou C no computador e posso ir ao cinema, que aquilo fica a trabalhar toda a noite e desliga no fim», resume, indicando que a única parte morosa é depois o processamento dos resultados.

A astrofotografia planetária de alta-resolução exige mais de si. Sobretudo porque ele não cede até conseguir a qualidade que o define e o torna cobiçado por diversas entidades internacionais, nomeadamente a NASA.

«Muitas vezes chego exausto do trabalho e fico ali quatro ou cinco horas a olhar para o monitor, a cabecear frente ao telescópio com aquilo tudo a tremer, à espera da altura em que posso fazer uma imagem», adianta o astrofotógrafo, que durante o dia é técnico numa empresa de reparação de equipamento informático. «Chego ao ponto da exaustão. Mas já tive noites em que penei três horas, durante 15 minutos a atmosfera estabilizou, e fiz imagens fabulosas. É preciso ter muita paciência e um sentido de aperfeiçoamento contínuo para se atingir resultados científicos válidos, reconhecidos internacionalmente», sustenta. Mais do que a estética pura, a ele importa-lhe que fique bonito e útil, com os tempos de registo certos pelo menos até ao centésimo de segundo. «Se eu fotografo Júpiter e há uma estrutura que interessa à NASA analisar, mas não lhes digo a data e a hora exatas em que fiz aquilo, eles não sabem como evolui o objeto.» Por isso persevera, metódico como sempre. Quando a esposa se queixa de que faz horários de morcego, brinca dizendo que, pelo menos, arranjou um hobby que o mantém em casa.

Foi a astronomia que primeiro surgiu na vida de Paulo Casquinha, doido pela imensidão do universo, o movimento dos corpos celestes, os mistérios do céu noturno. Só quando comprou o primeiro telescópio (num oculista da Baixa lisboeta, não sabe precisar se em 1998 ou 1999) e ficou dececionado com a simples observação é que pensou que teria mais piada se conseguisse fotografar o que via. Começou com a Lua e as suas crateras e elevações, ligando uma webcam ao computador e fazendo umas adaptações caseiras ao equipamento de que dispunha na altura. Entretanto encontrou na internet algumas pessoas que faziam este género de trabalho e lhe deram informações preciosas. Ia partilhando as imagens que fazia no site da Association of Lunar and Planetary Observers (ALPO), até ao dia em que recebeu um e-mail da British Astronomical Association a perguntar-lhe se não se importava de partilhar as suas imagens diretamente com eles. Seguiu-se um pedido de colaboração permanente da NASA e outros do Observatório Naval dos EUA e do Instituto de Meteorologia de Leipzig, na Alemanha. Quando deu por si, estava viciado e desejoso de evoluir, poupando para investir em material cada vez mais sofisticado, que explora até ao limite.

«Faço questão de guardar no meu computador os primeiros resultados, tão horríveis que nem faz ideia! AjudaM-me a lembrar a razão de ter continuado a fazer imagens», ri-se o astrofotógrafo, convicto de que o segredo é gostar-se muito do que se faz. «Por norma, ser-se amador tem uma conotação negativa, mas nós damos um sentido diferente à palavra. Somos amadores porque amamos o que fazemos, não porque o nosso trabalho seja menos profissional», sublinha, ele que também computorizou o raciocínio para que, quando começa a fazer uma imagem, já esteja a pensar o processo completo. «Tem de ser logo tudo esquematizado de início: com esta turbulência vou ter de processar isto assim e assim, depois tenho que fazer aquilo e aqueloutro... Há uma série de conhecimentos que se aprende por tentativa e erro, por intuição, que nenhum curso de astronomia ensina.»

Foi precisamente essa experiência que valeu a Paulo o convite da Angkasa (a Agência Espacial da Malásia) para dar formação à equipa do novo observatório construído na ilha de Langkawi. Em 2007, juntamente com o especialista em montagens robóticas Pedro Ré, foi lá para partilhar com o pessoal o saber que lhes permitiria usar o equipamento topo de gama adquirido para as instalações. Dois anos mais tarde, voltaram para uma ação de reciclagem e consolidação de conhecimentos, estendendo o ensino a elementos do observatório de Kuala Lumpur e a astrónomos de outras entidades do país. «Construíram o observatório de Langkawi no meio de uma floresta húmida, precisamente no lado da ilha que durante nove meses fica coberto de nuvens. Ainda assim, foi uma experiência fascinante porque trabalhei com equipamentos que não tenho cá», garante o astrofotógrafo, a acertar com a Angkasa nova ida ainda este ano, após as monções.

O hobby sai-lhe do corpo, mas saber que contribui para o conhecimento do universo vale todos os sacrifícios do mundo. «Há uns tempos, um astrónomo da NASA foi ao Havai fazer umas imagens de Júpiter num infravermelho profundo para o telescópio de oito metros do Mauna Kea, e mandou um e-mail para mim e outras pessoas que colaboram com ele habitualmente, dizendo que o seu calendário de utilização do telescópio era tal, durante tantos dias e a X horas, pelo que agradecia se pudéssemos fazer o máximo de fotos naquela janela de tempo para comparar os seus resultados com os nossos.» As imagens do cientista davam conta das estruturas profundas do planeta, as dos amadores eram de superfície; no final, pôde tentar-se perceber a atmosfera de Júpiter em termos tridimensionais. «Nunca vi ovnis, nem extraterrestres, nem nada de estranho que não pudesse identificar, o que não significa que não existam», lança Paulo. Até chegar o dia, emociona-se com o facto de saber que reis e camponeses, criadores e destruidores de civilizações, toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, existem no mesmo grão de poeira suspenso num raio de sol.

Aplicações e curiosidades da astrofotografia

- Em 1840, o daguerreótipo (processo fotográfico feito sem uma imagem negativa) da Lua, levado a cabo por John William Draper, tornou-se a primeira astrofotografia realizada na América do Norte. O processo envolve a captura da luz refletida dos objetos celestes.

- A astrofotografia consiste em fotografar um dado objeto no espaço, utilizando desde câmaras simples a telescópios orbitais e equipamento sofisticado de observatórios. As imagens mais familiares costumavam provir do telescópio espacial Hubble, se bem que o Spitzer (o mais recente telescópio do Programa de Grandes Observatórios da NASA) tenha vindo a roubar-lhe algum protagonismo graças às fotos da Via Láctea.

- Fotografias bem definidas dos astros possibilitam uma análise precisa de caraterísticas como a distância (paralaxe), o diâmetro e a magnitude (brilho), permitindo estudar a origem e a evolução do universo. A galáxia de Andrómeda, por exemplo, está a cerca de 2,6 milhões de anos-luz da Terra, o que significa que o observador vê a galáxia como ela era há 2,6 milhões de anos.

- Para os amadores que queiram dar os primeiros passos na astrofotografia, um telescópio caseiro, uma webcam e software destinado a dar melhor resolução às imagens é quanto basta para poderem fotografar as crateras lunares. A partir do momento em que se conhece os princípios básicos da ótica geométrica, é possível fazer o mapeamento do local e calcular a profundidade, a largura e as distâncias das crateras, entre outra informação útil.

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