Em 1978, o político mais admirado e elogiado do continente africano chamava-se Robert Francis Mugabe. Acabara de assinar em Londres o acordo que pôs fim à década e meia do regime racista de Ian Smith na Rodésia e preparava-se para ascender ao poder. No ano seguinte o país tornava-se independente, com o nome de Zimbabwe, e Mugabe jurava mantê-lo como celeiro da África Austral. Num continente onde proliferavam os Bokassas, os Mobutus e os Idi Amins, estas palavras moderadas soavam a discurso de estadista. O líder do novo Zimbabwe revelava fibra de resistente: permanecera uma década nas prisões de Smith e conduzira uma guerrilha contra o domínio branco de Salisbúria, pondo fim a 90 anos de domínio britânico. Mas prometera estender a mão aos opressores do passado, o que lhe dava uma aura de invulgar grandeza. "On- tem eram meus inimigos, hoje são meus amigos", disse à comunidade branca no discurso da independência. .Dez anos mais tarde, Mugabe fizera aprovar uma nova Constituição, que lhe permitira trocar o cargo de primeiro-ministro pelo de Presidente, mas o essencial das promessas mantinha-se: Harare continuava a ser capital de um dos mais prósperos países africanos. Não faltaram analistas a elogiar o "milagre" do Zimbabwe..Em 2000, tudo mudou. Mugabe lançou uma "reforma agrária - a ocupação pura e simples das propriedades dos brancos. Suprimiu toda a oposição. Aboliu o poder judicial independente. Meteu na cadeia sindicalistas, estudantes e activistas de direitos humanos. Amordaçou a imprensa. E fez mergulhar o país no caos económico: em 2008, segundo o Banco Central do Zimbabwe, a inflação atingiu 231.000.000%. Milhões de pessoas abandonaram o país para fugir à fome. As ilusões do passado transformaram-se num interminável pesadelo. "Só Deus pode retirar-me o poder que me concedeu", proclama Mugabe, hoje com 86 anos - o mais velho dirigente africano. O antigo estadista modelar, invocado outrora como exemplo no continente, é apenas mais um nome a juntar à longa lista de tiranos que vêm destruindo o sonho de uma África próspera, justa e livre.