Em pleno centro d"O Grove, o café Habanero é o reino do subastado. Pouco depois da hora de almoço, vários grupos de homens, na maioria reformados, distribuem-se pelas mesas interiores em animadas disputas deste jogo de cartas, muito popular por aqui, enquanto as televisões repetem imagens e análises sobre as intrincadas jogadas políticas na tentativa de investidura de um novo Governo..A indefinição política espanhola em loop nas TV pouco parece perturbar a atenção destes homens, que não desviam o olhar das cartas (também há quem prefira o dominó). E a relativa indiferença com que encaram o assunto só é alterada quando se põe em cima da mesa uma carta que se revela "incómoda": a possibilidade de um Governo socialista "refém" dos independentistas catalães..Este é dos municípios mais "esquerdistas", logo contracorrente, de uma Galiza que é não só historicamente território PP, como é o berço do líder popular Feijóo. O atual alcalde d"O Grove, o socialista José Antonio Cacabellos, vai no seu quarto mandato, terceiro consecutivo, mas nem assim a hipótese de o PSOE de Pedro Sánchez formar Governo em Madrid parece entusiasmar quem quer que seja no interior do Habanero. As concessões incluídas nesse cenário, como uma eventual amnistia a Carles Puidgemont e aos outros políticos independentistas que levaram a cabo o referendo de 2017, e a perspetiva de um novo referendo de autodeterminação na Catalunha, são "linhas vermelhas" que motivam até uma pausa na jogada.."Preocupa-me que quatro indivíduos independentistas tenham o poder de influenciar as futuras decisões de Espanha", assume Xosé, um "cantante popular", como o próprio se assume, que costuma atuar "em várias festas no norte de Portugal"..Ao lado, na mesa, Raimundo, um antigo madeireiro também com "muitos clientes em Portugal", corrobora a rejeição ao cenário que agora aparece em jogo no tabuleiro da política espanhola: "Não concordo nem com a amnistia, nem com outro referendo [na Catalunha]. Não se pode formar um Governo em cedência a essas imposições.".Apesar de um forte sentimento autonómico fazer também parte do ADN galego, não há aqui "movimentos independentistas relevantes", garante Xosé, que defende "o sentimento de pertença a um país, Espanha", como algo que "distancia os galegos dos catalães". "Somos mais patriotas. Um bom exemplo de autonomia patriótica", reforça Raimundo..Se os últimos atos eleitorais têm colocado O Grove como um reduto de Esquerda, o "eleitorado" do Habanero denuncia-se maioritariamente popular. E com simpatia pelo homem da vizinha província de Ourense, Feijóo, que, defendem, "fez um bom trabalho na Xunta [da Galiza]". "É um homem de Estado", diz Xosé. "Mais sério que os demais nesta faena em que se tornou a política espanhola", acrescenta Raimundo..No entanto, o desfecho da tentativa de investidura do líder popular "não surpreendeu ninguém", admitem. "Espero que o rei convoque novas eleições. Seria a melhor escolha", conclui Xosé, voltando a concentrar-se no subastado..Se for esse o desfecho e Felipe VI anunciar um novo ato eleitoral, Manuel Vasquez garante que, "pela primeira vez na vida", equaciona "votar no PP". O dono da cafetería Zona Zero, na Rua Castelao - localmente conhecida por Calle 14, em homenagem aos emigrantes da região que desembarcavam na 14th Street de Nova Iorque nas primeiras décadas do século XX - declara-se "de Esquerda desde que me lembro" e "votante do Bloco Nacionalista Galego por convicção".."Primeiro sou galego, depois espanhol, depois europeísta", esclarece. E também ele manifestamente contra um cenário de ter "um Governo progressista refém da chantagem independentista catalã durante a legislatura".."Os socialistas estão a vender-se aos interesses dessa gente. E o que me preocupa não é o indulto a Puidgemont e aos outros, nem tão pouco a autodeterminação da Catalunha, embora não concorde com ela. O que me preocupa mesmo é poder ter um Governo quatro anos refém dessa chantagem, a precisar dos votos deles para fazer passar os orçamentos e tudo o mais", explica Manuel. Por isso admite votar PP, "para ver o quanto estou enfadado com os socialistas"..Para o proprietário do Zona Zero - "é o número 14, da Calle 14, o ponto central da cidade", justifica o nome dado ao café -, o forte sentimento nacionalista galego "não pode ser confundido com o separatismo catalão". Mesmo dentro dos nacionalistas galegos, "a corrente independentista é uma minoria, vale apenas uns 3 a 5%", diz, justificando-o com o facto de a Galiza "sempre ter tido uma dependência maior em relação a Madrid do que acontece com a Catalunha". "Os catalães têm autonomia quase total", acrescenta, garantindo não perceber os argumentos independentistas. "Se não te sentes catalão com toda a autonomia que tens, és tonto. Eu sinto-me bem galego, não preciso de um bilhete de identidade diferente.".Também Manuel, apesar de nunca ter votado em Feijóo, veria o atual líder popular como "um bom chefe de Governo", que fez "um trabalho meritório na Galiza, saneando as contas". Mas é sobretudo "a ideia de uma concessão oportunista" que o importuna..Tal como acontece com o subastado, nas mesas do Habanero, o jogo da política espanhola continua, animado, à espera das próximas jogadas.