O gigante discreto e o português que o ajuda a recuperar

Kevin Anderson joga o Estoril Open como nº8 do ranking ATP e o fisioterapeuta Carlos Costa conta alguns dos segredos
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É o oitavo melhor tenista da lista mundial e cabeça-de-cartaz do Estoril Open. O tenista mais alto do circuito ATP mede 2,03 metros, mas não foi a dar passos de gigante que Kevin Anderson chegou ao topo. A ascensão do sul-africano até número 8 do Mundo foi feita com pequenos passos, ponderados e certeiros. Se em 2008 era número 175 do mundo, hoje, dez anos depois, é o oitavo melhor tenista do planeta. Uma subida de 167 lugares, que, embora não seja invulgar, engrandece o sul-africano e quem trabalha com ele, caso do fisioterapeuta português Carlos Costa.

Natural de Viana do Castelo, Carlos era nadador de alta competição na Escola Desportiva de Viana, mas uma lesão grave colocaria um ponto final numa promissora carreira. Fraturou o cotovelo num dia de Natal e demorou um ano a recuperar. E com tanta ida à fisioterapia, achou que seria "uma profissão que possivelmente ia gostar" se não pudesse voltar às piscinas. E assim foi. Tirou o curso de Fisioterapia, fez estágios em Medicina Desportiva, uma pós-graduação em Medicina Tradicional Chinesa e um mestrado em Osteopatia Estrutural. Tudo para melhor se capacitar para a missão: ajudar a recuperar atletas.

Sempre adorou fazer desporto. Futebol, ténis, mountain bike, bodyboard, corrida e desportos de combate como aikido e capoeira... Até que o ténis entrou na sua vida. "Recebi um convite de trabalho de um ex-fisioterapeuta oficial do ATP, Michal Novotny. Na altura comecei por ter alguns trabalhos com jogadores do circuito e após algum tempo surgiram oportunidades a tempo inteiro", contou ao DN Carlos Costa, que trabalhou com Tommy Haas, Tomas Berdych, Frantisek Cermak, Karol Beck, Andre Begeman, antes de receber um convite do gigante sul-africano.

"A parceria já vai no terceiro ano e pela relação que se tem de estabelecer, estamos quase 24 horas juntos, demonstra que ambas as personalidades se enquadram", disse o português, elogiando "as qualidades que sobressaem mais" no atual n.º 8 do mundo: "Reservado, metódico e simples."

Para Carlos Costa ver um jogo de ténis ao vivo "é muito entusiasmante", um desporto onde tanto pode triunfar um atleta de 2,03 metros como o Kevin Anderson ou um de 1,70 m, como o Schwartzman: "Quantos jogos parecem estar a terminar e de repente por causa de uma bola fora num momento específico acaba por mudar o rumo do jogo? Por tudo isto penso que o ténis é um desporto de sucesso a nível mundial."

Uma partida de ténis tanto pode durar uma hora como duas ou mais, o que exige um esforço muito específico aos atletas, quer físico quer mental. Por isso, o trabalho de Carlos passa pela "aplicação de vários métodos e técnicas", que vão desde "a acupuntura, a terapia manual e manipulativa, ao cuidar de uma bolha num pé ou mesmo à monitorização da recuperação e do treino físico, com o intuito de prevenir possíveis lesões". Tudo isto de forma "a potencializar a performance do Kevin" .

E tem-no conseguido. O tenista de 31 anos está a viver a melhor fase da sua carreira. Depois de ter sofrido, e muito, com lesões em 2015 e 2016, o tenista sul-africano recuperou o seu melhor ténis em 2017, tendo mesmo chegado à final do US Open. Nesse dia o fisioterapeuta português fazia anos e acabaria a jantar com 40 pessoas do círculo de amigos do tenista, entre eles, a lenda do ténis sul-africano, Johan Kriek.

O segredo para a boa forma do gigante sul-africano "é transversal" a todos os grandes desportistas: "Quando se lida diariamente consegue-se compreender melhor que a capacidade de superação, acreditar em si mesmo e a capacidade de mudança sejam os atributos mais preponderantes para o sucesso do atleta ou jogador."

Agora, Carlos prepara-se para acompanhar o sul-africano em mais um Estoril Open. "As expectativas são sempre altas, até porque o nível que o Kevin tem vindo a demonstrar assim o confirma, por isso se pudéssemos terminar com o troféu seria uma boa vitória", desejou.

Kevin guitarrista nas horas vagas

Na escola, em Joanesburgo, onde nasceu, ao mesmo tempo que corria os 800 metros, Kevin Anderson praticava ténis, mas foi nos EUA que apurou a habilidade com a raquete. Três anos de ténis universitário, no Illinois, deram-lhe a certeza de que era isso que queria fazer o resto da vida. Tentou jogar a singulares e pares, mas acabaria por apostar a jogar a solo em 2003. Começou com 17 anos e no lugar 1148.

Nunca passou despercebido em court, pela direita forte e pela altura. Nunca se encolheu ou renunciou a lutar pelos direitos dos tenistas, assim como dos momentos de lazer. É vice-presidente da Associação de Tenista profissionais e fundou a Realife Tennis com a mulher, Kelsey O"Neal, golfista, e o treinador Jones Launched. Trata-se de uma plataforma que pretende mostrar o que os tenistas fazem nos tempos livres. Ele próprio formou uma banda com outros tenistas e toca guitarra, não fosse ele fã dos Dire Straits e de Mark Knopfler.

Também partilha planos de treino (mental e físico) e dá dicas de como melhorar o serviço, fazer um volley ou um smash... mediante um preço simbólico. Um plano de treinos de serviços com assinatura Kevin Anderson custa 99 dólares. Além disso há conselhos de nutrição e recuperação entre outras coisas, como, por exemplo: como fazer turismo nas horas vagas ou chegar ao topo mundial.

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