O gestor que não teve medo de voltar onde foi feliz

Como adorava desmanchar coisas, andava sempre com uma chave de parafusos na mão, o que deixava a mãe com os cabelos em pé. Apesar de ser um bocado a puxar para o lingrinhas, jogou râguebi durante 12 anos no Benfica e em Agronomia. Com o curso de Gestão feito e o serviço militar cumprido, arranjou o primeiro emprego na IMS Health Portugal.
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A mãe tremia de terror sempre que o via com a chave de parafusos na mão. "Sempre gostei de desmanchar coisas", confessa Jorge, admitindo que por causa dessa mania destruiu muitas coisas lá em casa.

Se não fosse o 25 de Abril, muito provavelmente teria sido engenheiro mecânico. Mas o dominó do destino fintou-o. Repetiu o 7.º ano de Matemática por causa de uma professora chata que não o levou a exame. Por causa disso, apanhou pela frente o ano do Serviço Cívico, que era obrigatório e ele se recusou a fazer. Preferiu passar o Verão Quente de 75 a colar cartazes do PSD, em Lisboa, do que a alfabetizar camponeses, em Bragança. No ano lectivo seguinte ainda andou pelo Técnico, mas a confusão ainda era muita. Após uma tentativa falhada de se inscrever na Universidade de Lovaina, acabou por estudar Gestão no INP.

Antes das trapalhadas que o esperavam no final da adolescência, no Portugal a preto e branco do Outono do Estado Novo, era dos poucos miúdos privilegiados que comiam smarties e toblerones que o pai (director do hotel Metrópole, no Rossio) lhe arranjava no restaurante do aeroporto.

Fez a primária no Externato Luís de Camões e o secundário no Colégio Académico. Apesar de ser lingrinhas, distinguia-se no futebol jogado nas ruas dos Anjos e Areeiro, pelo que não espanta que um vizinho, de nome Mário Soares, o tivesse levado para jogar râguebi no Benfica. Tinha 12 anos e estreou-se como médio de formação, evoluindo depois para médio de abertura. Acabou a carreira, já em Agronomia, com 24 anos, como médio-centro. "Com a idade começa-se a jogar mais com a cabeça do que com o corpo", explica, acrescentando que chutava bem e foi duas vezes vice--campeão nacional.

Foi a varejar amendoeiras no Algarve que ganhou o primeiro dinheiro, aos 16 anos, trabalho duro, que dava cabo das mãos e o deixava cheio de fome. O que ganhava durante o dia estourava à noite no jantar e copos. Mais tarde arranjaria um part-time bem mais leve: fazer inquéritos para a Norma, uma empresa de sondagens.

Aos 23 anos, com o curso tirado e o serviço militar cumprido, arranjou o primeiro emprego, na sucursal portuguesa da IMS Health, que naquele ano de 1979 se resumia a três pessoas: ele, a senhora alemã que dirigia o escritório e respectiva secretária. Contrataram- -no porque andavam à procura de alguém que se entendesse bem com os números e falasse línguas.

Começou como uma espécie de faz-tudo, e o tudo incluía vender à indústria farmacêutica os estudos sobre consumo de medicamentos produzidos pela IMS, uma espécie de Nielsen deste sector. A rapidez com que escalou na hierarquia fala sobre a eficiência do seu trabalho. Em 83, com 27 anos, casou com Teresa, professora de História, e foi promovido a director-geral, cargo que desempenhou durante uma dúzia de anos até o desafiarem a testar em vários mercados (Reino Unido, França, Itália, Espanha e Bélgica) o modelo comercial que ele concebera e fazia tanto sucesso em Portugal. Deu resultado e como prémio, em Junho de 95, entregaram-lhe a direcção do Reino Unido e Irlanda.

Após quatro anos em Londres, fez uma empresa, foi consultor de public health affairs da IMS e aceitou voltar a liderar a filial portuguesa. "Eram oito da manhã e eu estava a conduzir na Marginal quando tocou o telefone. Era o presidente europeu a dizer que precisava da minha ajuda." Jorge Lemos sentiu que não podia dizer que não.

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